8º Sabará-Pensi de Saúde Infantil: Depressão na infância e adolescência

Dra. Cristina Mendes Gigliotti Borsari, coordenadora de psicologia do Sabará Hospital Infantil: “os números são alarmantes, temos um aumento de 3000% nos casos que envolvem Depressão e transtornos de ansiedade entre crianças e adolescentes”
Foto-crédito: Sabará Hospital Infantil
A saúde mental infantojuvenil foi tema de debates intensos no 8º Congresso Internacional Sabará-Pensi de Saúde Infantil, realizado de 1º a 03 de outubro, no centro de convenções Frei Caneca, em São Paulo. Pela primeira vez, o evento concentrou um dia de programação em temas da psiquiatria infantil, incluindo depressão grave e comportamentos suicidas em adolescentes, transtornos alimentares, emergências psiquiátricas, indicações de internação e triagem de risco. O evento reuniu médicos, pesquisadores e profissionais de saúde de todo o país para discutir diferentes manifestações do sofrimento psíquico na infância e na adolescência, seus impactos sobre o cuidado pediátrico e a atuação integrada das equipes de saúde.
A Dra. Cristina Mendes Gigliotti Borsari, coordenadora de psicologia do Sabará Hospital Infantil, foi palestrante no evento. Ao abordar o assunto, ela destacou que “a depressão não é exclusividade da vida adulta. Tanto as crianças quanto os adolescentes também podem apresentar sofrimento psíquico intenso, e nem sempre conseguem expressar em palavras aquilo que estão sentindo. Muitas vezes, é pela mudança de comportamento que comunicam sua dor. ”
Nessa entrevista ao Portal Medicina & Saúde, a Dra. Cristina Borsari aborda questões importantes sobre essa realidade. Confira:
Dra. Cristina, qual é a realidade da depressão na infância no Brasil? – A Depressão infantil é um importante problema de saúde pública, ainda, muitas vezes subdiagnosticado e subnotificado. Durante muitos anos, acreditava-se que as crianças não poderiam desenvolver um quadro clínico de Depressão, porque não teriam maturidade emocional para vivenciar esse transtorno. Mas, hoje sabemos que isso não é verdade.
No Brasil, temos um desafio adicional: ainda são limitados os estudos nacionais representativos que permitam estabelecer com precisão a prevalência da depressão diagnosticada, especificamente, em crianças menores de 12 anos. Os números são alarmantes, temos um aumento de 3000% nos casos que envolvem depressão e transtornos de ansiedade entre crianças e adolescentes. Mais de 14% dos jovens entre 10 a 19 anos no mundo enfrentam algum problema de saúde mental, segundo a Organização Mundial de Saúde. E isso também se reflete nos dados do nosso país.
No entanto, é fundamental diferenciar três situações: tristeza passageira, sintomas depressivos e transtorno depressivo diagnosticado. Nem toda criança que está triste está deprimida, mas uma tristeza persistente, acompanhada de mudanças no comportamento e prejuízos na vida cotidiana, merece atenção dos pais e investigação com profissional de saúde.
A depressão na infância atinge qual faixa de idade? – Embora seja menos frequente e mais difícil de identificar nas crianças pequenas. A depressão pode ocorrer inclusive na idade pré-escolar. Na prática, observamos manifestações diferentes conforme o desenvolvimento infantil, que pode evidenciar um quadro de tristeza ou até de Depressão:
- De 3 a 5 anos: irritabilidade, retraimento, perda do interesse por brincadeiras e alterações do sono ou alimentação.
- De 6 a 9 anos: queixas físicas recorrentes (cefaleias), dificuldades escolares, isolamento social e sentimento de rejeição (bulliyng).
- De 10 a 12 anos: maior capacidade de verbalizar tristeza, culpa, desvalorização e sentimentos de inadequação.
É importante destacar que essas faixas não representam limites diagnósticos rígidos. Os sintomas variam conforme a criança, a família e seu estágio de desenvolvimento.
Acima dos 14 anos, temos casos diagnosticados, que começam com dificuldades de pertencimento ao grupo, queda de rendimento escolar e agressividade.
Quais são as causas da depressão infantil? – A depressão é um transtorno mental multifatorial. Não existe uma única causa que explique seu aparecimento. Precisamos considerar a interação de fatores biológicos, psicológicos, familiares e sociais. Existe uma pré-disposição genética associada aos fatores sociais e ambientais.
Portanto, entre os principais fatores de risco estão a predisposição genética, histórico familiar de depressão, dificuldades de regulação emocional, experiências traumáticas, bullying, violência física e emocional, negligência, perdas significativas, conflitos familiares persistentes e situações de estresse prolongado. Também devemos considerar condições associadas, como sintomas de ansiedade, transtornos do neurodesenvolvimento e doenças crônicas. É importante não culpabilizar as famílias. A depressão pode surgir mesmo em ambientes afetivos e protetores.
A depressão infantil não significa necessariamente ausência de amor ou de cuidado. Significa que aquela criança está vivendo um sofrimento que precisa ser compreendido, acolhido e tratado de maneira adequada.
Dra. Cristina, quais são os principais sintomas pelos quais os pais devem ficar atentos? – Diferentemente do adulto, que frequentemente consegue expressar sofrimento por meio de palavras, a criança pode demonstrar seu sofrimento por meio de irritabilidade, agressividade ou mudanças no comportamento. Os principais sinais são:
- Tristeza persistente ou irritabilidade intensa (mau humor frequente).
- Perda do interesse por brincadeiras e atividades antes prazerosas.
- Isolamento social e afastamento dos amigos.
- Alterações importantes no ciclo do sono ou no apetite.
- Queda do rendimento escolar.
- Cansaço frequente e falta de energia.
- Dores de cabeça ou de barriga sem explicação clínica suficiente.
- Sentimento de culpa, inutilidade (menos valia) ou baixa autoestima.
- Falas recorrentes sobre morte, desaparecimento ou desejo de não existir.
O aspecto mais importante é observar mudanças em relação ao funcionamento habitual da criança, especialmente quando persistem por duas semanas ou mais, causam sofrimento ou prejudicam suas atividades rotineiras e sociais. Importante ressaltar aos pais, que não é necessário esperar duas semanas para buscar ajuda diante de sinais graves, especialmente falas relacionadas à morte ou ao suicídio.
Como se faz o diagnóstico? E o tratamento? – O diagnóstico é essencialmente clínico e deve ser realizado por profissionais qualificados, considerando a idade e o desenvolvimento da criança. Pode ser realizado por médicos psiquiatras, psicólogos ou o pediatra de confiança. Uma avaliação com psicólogo ou neuropsicólogo, inclui entrevistas com os pais ou responsáveis, escuta analítica da criança, atividade lúdica, investigação da história emocional, familiar e escolar, além da observação de comportamentos e do funcionamento cotidiano. Escalas validadas no Brasil e instrumentos psicológicos podem auxiliar, mas não substituem uma boa avaliação clínica.
O tratamento depende da gravidade e das necessidades individuais. A psicoterapia é um componente fundamental, especialmente com abordagens baseadas em evidências, como a Terapia Cognitivo-Comportamental, e intervenções que envolvam a família, com a orientação parental.
Em quadros moderados a graves, persistentes ou com risco significativo, pode ser necessária avaliação psiquiátrica para considerar tratamento medicamentoso, associado ao acompanhamento psicológico. O trabalho com a escola e a família também é essencial.
A criança não deve ser tratada isoladamente de seu contexto. Precisamos compreender suas relações, sua rotina, seus recursos emocionais e o ambiente em que está inserida.
Muitos adolescentes estão deprimidos? Qual é a realidade nesse segmento? – Sim. A adolescência é um período de maior vulnerabilidade ao desenvolvimento de transtornos depressivos. Os dados mostram a importância de ampliar a prevenção e o acesso aos cuidados em saúde mental. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de um em cada sete jovens (14%) de 10 a 19 anos convive com algum transtorno mental no mundo. De acordo com estimativas globais, na faixa etária entre 15 e 19 anos, a ansiedade e a depressão estão entre as principais causas de adoecimento. No cenário nacional, dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), divulgada pelo IBGE, revelam um quadro preocupante: 21,4% dos estudantes brasileiros de 13 a 17 anos sentem, sempre ou na maioria das vezes, que a vida não vale a pena ser vivida.
Na prática clínica, precisamos olhar além das estatísticas. Há adolescentes que continuam frequentando a escola, mantendo relações sociais e até apresentando bom desempenho acadêmico, mas convivem com sofrimento psíquico significativo.
Qual é a faixa etária dos adolescentes deprimidos hoje? – A Organização Mundial da Saúde considera a adolescência o período entre 10 e 19 anos. A depressão pode aparecer desde o início dessa fase, mas sua prevalência tende a aumentar nos adolescentes mais velhos.
O início da puberdade envolve transformações hormonais, cognitivas, emocionais e sociais. O adolescente passa a construir sua identidade, buscar autonomia e atribuir maior importância à aceitação pelos pares. Essas transformações são esperadas, mas podem aumentar a vulnerabilidade quando associadas a outros fatores de risco.
Quais os motivos da depressão na adolescência? – Em uma visão mais voltada ao desenvolvimento humano, a depressão na adolescência não pode ser explicada apenas pelas mudanças hormonais ou pelos conflitos próprios dessa fase.
Entre os fatores associados estão a predisposição genética, experiências de rejeição, bullying, violência física e emocional, conflitos familiares (separação dos pais), dificuldades afetivas (abandono parental), discriminação, pressão acadêmica, transtornos alimentares, uso de substâncias e experiências traumáticas. Também devemos considerar o impacto das relações digitais (uso abusivo de telas), da comparação social e da necessidade constante de reconhecimento.
Um ponto importante é a relação entre identidade e pertencimento. O adolescente está construindo a percepção de quem é e qual lugar ocupa no mundo. Quando vivencia rejeições repetidas ou passa a acreditar que não corresponde às expectativas dos outros, pode desenvolver sentimentos de inadequação, menos valia e desesperança. Entretanto, nenhum desses fatores isoladamente determina que um adolescente desenvolverá depressão.
Como se faz o diagnóstico e o tratamento da Depressão na adolescência? – O diagnóstico exige uma avaliação clínica cuidadosa, com escuta ativa do adolescente e investigação de seu funcionamento emocional, social, escolar e familiar. O profissional observa sintomas como humor deprimido ou irritável, perda de prazer, alterações no ciclo do sono e apetite, cansaço, dificuldade de concentração, culpa excessiva, desesperança e pensamentos relacionados à morte.
Também é fundamental investigar risco de suicídio, automutilação, uso de substâncias, transtornos alimentares e a possibilidade de transtorno bipolar ou outras condições associadas. O psicólogo pode fazer uso de escalas e testes que mensuram o transtorno e associar a anamnese clínica.
A avaliação deve preservar um espaço de confidencialidade apropriado à idade, esclarecendo os limites do sigilo em situações de risco. O tratamento pode envolver psicoterapia individual, orientação parental, intervenções escolares e acompanhamento psiquiátrico quando necessário.
A Terapia Cognitivo-Comportamental tem ampla eficácia no tratamento com adolescentes. Em casos moderados a graves, pode ser necessário associar medicação antidepressiva, com avaliação especializada e monitoramento. E por vezes, diante da gravidade existe a necessidade de internação em hospital para a redução de danos. O tratamento não deve se limitar à redução dos sintomas. É necessário trabalhar a autoestima, a regulação emocional, as relações interpessoais, a resolução de problemas e a construção de perspectivas para o futuro.
As redes sociais podem levar à Depressão? Por quê? Quais são as mais preocupantes? – As redes sociais podem contribuir para o desenvolvimento ou agravamento de sintomas depressivos, especialmente quando utilizadas de forma excessiva, sem vigilância de conteúdo inadequados e inapropriados ou associadas a experiências negativas. A dependência dos jogos e telas tem fator prejudicial ao desenvolvimento do córtex frontal, estimula as sinapses e produz um efeito devastador ao desenvolvimento de novas habilidades interpessoais.
Mas é importante fazer uma distinção: não podemos afirmar que as redes sociais, isoladamente, causam depressão em todos os adolescentes. A relação é complexa e pode ser bidirecional: adolescentes deprimidos também podem recorrer mais às redes, como forma de escape do convívio social.
Um relatório de 2023 do Surgeon General dos Estados Unidos apontou que adolescentes que passam mais de três horas diárias nas redes sociais apresentam aproximadamente o dobro do risco de problemas de saúde mental, incluindo sintomas de depressão e ansiedade. Trata-se de associação estatística, não de comprovação de causalidade. Entre os principais mecanismos de risco estão:
- Comparação social constante e idealização da aparência física.
- Busca excessiva por curtidas e aprovação.
- Cyberbullying e exposição à humilhação pública.
- Contato com conteúdos que romantizam automutilação, transtornos alimentares ou sofrimento psíquico.
- Prejuízo ao sono pelo uso noturno.
- Substituição de experiências presenciais por interações predominantemente digitais/virtuais.
Plataformas como Instagram, TikTok e Snapchat merecem atenção pelo conteúdo visual, comparação social e mecanismos de engajamento. O YouTube e outras plataformas também podem apresentar riscos, dependendo dos conteúdos e das recomendações algorítmicas.
Não existe, porém, evidência suficiente para estabelecer uma classificação universal de qual rede social causa mais depressão. O tipo de conteúdo, o padrão de uso e a vulnerabilidade do adolescente são mais importantes do que o nome da plataforma.
Dra. Cristina, como a criança e o adolescente devem usar as redes sociais? – O uso deve ser orientado pelo desenvolvimento emocional e pela capacidade de autorregulação. Na infância, especialmente antes dos 12 anos, a recomendação é evitar contas próprias em redes sociais abertas, priorizando atividades digitais adequadas à idade, com supervisão.
Na adolescência, a introdução deve ser gradual, com regras claras e acompanhamento familiar ativo. É importante preservar o sono, as atividades físicas, as brincadeiras, o convívio familiar e as relações presenciais. Também é necessário orientar sobre privacidade, exposição da imagem, cyberbullying e conteúdos inadequados. O objetivo não é apenas estabelecer limites de tempo, mas ensinar o adolescente a desenvolver uma relação crítica e saudável com a tecnologia.
Os pais devem acompanhar de perto o que seus filhos veem nas telas? – Sim. Essa pergunta é sensacional. Faz parte do educar e do orientar falar sobre o uso de telas, conteúdos consumidos e limites. A supervisão parental é uma medida importante de proteção, mas precisa ser proporcional à idade e à maturidade.
Para crianças menores, recomenda-se acompanhamento mais direto. Para adolescentes, o ideal é combinar supervisão, diálogo e autonomia progressiva. Os pais devem conhecer as plataformas utilizadas, conversar sobre os conteúdos acessados e observar como o filho se sente após passar tempo conectado.
Mudanças importantes de humor depois do uso, perda de sono, isolamento, ansiedade ao ficar desconectado e preocupação excessiva com a aparência podem indicar necessidade de intervenção.
O acompanhamento não deve ser confundido com vigilância invasiva e permanente. Uma relação baseada exclusivamente em proibições pode levar ao uso escondido. A principal proteção é construir uma relação na qual a criança ou o adolescente se sinta seguro para contar aos pais o que acontece também no ambiente digital.
Muitas crianças e adolescentes tiram suas próprias vidas. Qual é a realidade e quais são as principais causas? – O suicídio na infância e na adolescência é uma realidade extremamente preocupante e precisa ser discutido com responsabilidade, sem sensacionalismo e sem estigmatização.
Segundo o Ministério da Saúde, em 2021, o suicídio representou a 11ª causa de morte entre crianças e adolescentes de 5 a 14 anos e a terceira causa de morte entre adolescentes de 15 a 19 anos no Brasil. Esses dados demonstram que o sofrimento psíquico pode assumir consequências graves desde idades precoces. É fundamental compreender que o comportamento suicida é multifatorial. Não existe uma causa única. Entre os fatores de risco estão transtornos mentais, especialmente a depressão, histórico de tentativas anteriores, desesperança, violência, abuso, bullying, conflitos interpessoais, perdas significativas, discriminação e dificuldades de acesso ao cuidado.
Na adolescência, a impulsividade e a intensidade das experiências emocionais também podem aumentar a vulnerabilidade. Entretanto, nem todo adolescente que apresenta comportamento suicida tem depressão, e nem toda pessoa com depressão desenvolverá comportamento suicida. Também é importante evitar explicações simplistas que atribuam uma morte exclusivamente a um conflito familiar, uma decepção amorosa ou às redes sociais.
Quais são os principais sinais que os pais devem observar? – Os sinais de alerta podem aparecer de maneira direta ou indireta. Devem receber atenção especial manifestações de desesperança, sentimentos de inutilidade, isolamento acentuado, mudanças bruscas de comportamento, automutilação e falas relacionadas à morte. Frases como “eu queria desaparecer”, “seria melhor se eu não estivesse aqui” ou “ninguém sentiria minha falta” precisam ser acolhidas e investigadas.
Outros sinais importantes incluem despedidas incomuns, distribuição de objetos pessoais significativos, pesquisa de formas de suicídio e agravamento repentino de sintomas depressivos.
É importante lembrar que nem sempre existem sinais facilmente reconhecíveis. Os pais não devem interpretar essas manifestações como manipulação, drama ou tentativa de chamar atenção. São situações que exigem escuta e avaliação cuidadosa.
Há como prevenir esse tipo de situação? – Sim. O suicídio pode ser prevenido, embora nenhuma intervenção seja capaz de eliminar completamente o risco.
A prevenção começa muito antes de uma crise, por meio do desenvolvimento emocional, do fortalecimento dos vínculos afetivos e da criação de ambientes seguros. Nesse sentido, é importante ensinar crianças e adolescentes a reconhecer e comunicar emoções, desenvolver estratégias de enfrentamento, pedir ajuda e compreender que situações difíceis podem ser superadas com apoio.
Família, escola e profissionais de saúde devem atuar de maneira integrada.
Quando há suspeita de risco suicida, é importante perguntar diretamente, com tranquilidade, se a criança ou adolescente está pensando em morrer ou em se machucar. Perguntar sobre suicídio não induz esse comportamento; ao contrário, pode facilitar o acolhimento e a busca por ajuda.
Diante de risco imediato, os responsáveis devem permanecer com a criança ou adolescente, restringir o acesso a medicamentos, armas e outros meios potencialmente letais e procurar atendimento de urgência.
No Sabará Hospital Infantil, em São Paulo, temos um protocolo de prevenção ao risco de suicídio, em que toda criança que interna e que tem acima de 10 anos é assistida pela Equipe de Psicologia, afim de falar abertamente sobre suicídio e o que a criança pensa a respeito dessa temática.
Dra. Cristina, o tratamento psicológico é uma importante forma de cuidado. Fale sobre sua atuação na prevenção. A Psicologia tem um papel fundamental tanto na prevenção quanto na identificação precoce e no tratamento da Depressão na infância e na adolescência. A psicoterapia oferece um espaço protegido de escuta, no qual a criança ou adolescente pode compreender seus sentimentos, reconhecer suas dificuldades e desenvolver recursos para enfrentar situações de sofrimento.
Na Terapia Cognitivo-Comportamental, por exemplo, trabalhamos a identificação de pensamentos negativos, a regulação emocional, a resolução de problemas, o desenvolvimento de habilidades sociais e a construção de estratégias mais saudáveis de enfrentamento.
Na infância, o brincar, os desenhos e os recursos lúdicos também são importantes instrumentos de comunicação e intervenção. Já na adolescência, a psicoterapia favorece a construção da identidade, o fortalecimento da autoestima, a compreensão dos relacionamentos e o desenvolvimento de autonomia emocional.
A atuação do psicólogo não se restringe ao atendimento individual. Inclui orientação aos pais, articulação com a escola, identificação de fatores de risco e fortalecimento da rede de apoio. Nos casos de risco suicida, a atuação envolve avaliação sistemática do risco, elaboração de um plano de segurança individualizado, participação da família e acompanhamento integrado com a equipe de saúde e o trabalho interdisciplinar com médicos e assistentes sociais.
Acredito que um dos maiores desafios contemporâneos seja ajudar as famílias a compreender que saúde mental não significa ausência de tristeza ou sofrimento. Precisamos ensinar nossas crianças e adolescentes que sentir tristeza, medo, frustração e angústia faz parte da experiência humana. O que não podemos permitir é que enfrentem essas experiências sozinhos, sem acolhimento ou sem acesso ao cuidado necessário.
A psicoterapia é também um espaço de prevenção porque promove autoconhecimento, fortalece recursos emocionais e ajuda a construir relações mais saudáveis consigo mesmo e com os outros.
Cuidar da saúde mental de uma criança ou de um adolescente é, antes de tudo, reconhecer que existe uma pessoa em desenvolvimento, com sentimentos, medos, desejos e necessidades que precisam ser respeitados. Nem sempre o sofrimento aparece em palavras. Às vezes, ele se manifesta no silêncio, no isolamento, na irritabilidade ou na perda do interesse pela vida. Precisamos estar atentos, disponíveis e verdadeiramente presentes. Mais do que perguntar aos nossos filhos como foi a escola ou se fizeram suas tarefas, precisamos perguntar como estão se sentindo, o que os preocupa e o que os faz sofrer. A presença afetiva, a conexão e o cuidado profissional podem transformar trajetórias e histórias.


