Dr. Carlos Augusto Takeuchi, Coordenador Neurologia do Sabará Hospital Infantil: “Em ambas as condições, TEA e TDAH, para o diagnóstico, é fundamental história clínica adequada, observação cautelosa do paciente e, caso necessário avaliação neuropsicológica.”
Crédito- foto: Sabará Hospital Infantil
A Neurologia Pediátrica esteve na pauta de debates do 8º Congresso Internacional Sabará-Pensi de Saúde Infantil, realizado de 1º a 03 de outubro, no centro de convenções Frei Caneca, em São Paulo. O Dr. Carlos Augusto Takeuchi, Coordenador de Neurologia do Sabará Hospital Infantil, foi palestrante no evento e concedeu entrevista ao Portal Medicina & Saúde sobre aspectos relevantes da neurologia pediátrica. Confira:
Dr. Takeuchi, quais são as alterações neurológicas mais comuns na infância? – As principais alterações neurológicas são os atrasos de desenvolvimento, tanto motor quanto fala e comunicação. Existem ainda as epilepsias e as cefaleias que são queixas bastante comuns nos consultórios.
Atualmente, fala-se muito em autismo (TEA) e em transtorno do déficit de atenção (TDAH). Nesses casos, não existe um excesso de diagnósticos, muitas vezes feitos por profissionais não devidamente preparados? – Em relação ao excesso de diagnóstico, sim, existem pessoas que talvez não sejam as mais capacitadas para o diagnóstico. Vale a mesma referência ao TDAH. Em ambas as condições, é fundamental uma história clínica adequada, uma observação cautelosa do paciente e, caso necessário, uma avaliação neuropsicológica.
Dr. Takeuchi, como podemos identificar o autismo? E o TDAH? Quais os sintomas que os pais devem observar antes de levar a criança ao médico? – No TEA, devemos sempre observar a interação social da criança. Observar o sorriso, as brincadeiras, como usar o brinquedo, se não fica fazendo movimentos repetitivos. Observe padrão de sono e irritação, bem como aceitação alimentar. São vários os sinais e sintomas. Interação social é algo importante de ser observado. Movimentos anormais e sem propósito podem ser outra pista. Como reage a choro da mãe, quando o irmão chora, como fica? São outras pistas.
No TDAH, podemos observar muita inquietação na primeira infância. A criança não para de se movimentar, expondo-se constantemente ao risco de se machucar: não termina as brincadeiras, foge da mesa de refeições e gosta de ficar correndo. Na escola, os sinais ficam ainda mais evidentes: perde muitos objetos, fica andando pela sala ou foge da sala de aula, além de pedir para ir ao banheiro ou tomar água o tempo todo.
Além desse comportamento hiperativo, o paciente se mostra distraído. A desatenção se manifesta especialmente em provas — quando deixa questões ou páginas inteiras em branco —, no esquecimento de combinados, não entrega de lições de casa e no material escolar frequentemente incompleto.
Dr. Takeuchi, como se faz o diagnóstico? – Em ambos, o diagnóstico é clínico. Não existe exame complementar como marcador. O diagnóstico clínico pode ser corroborado por avaliação neuropsicólogica. Novamente, é muito importante a história clínica do paciente, se possível com outros observadores além dos pais.
O autismo tem tratamento? E quem tem TDAH, qual é o tratamento e quais os cuidados que a criança/adolescente deve ter, inclusive os pais? – Para o TEA e o TDAH, o foco é a intervenção multidisciplinar precoce para melhorar a funcionalidade. Para o TDAH, o tratamento envolve intervenção comportamental e suporte quando indicado, além da estruturação de rotinas claras e adaptações em casa e na escola. Os cuidados passam pelo envolvimento e engajamento direto dos pais no manejo diário das necessidades da criança ou adolescente.
Quais são as outras alterações neurológicas mais comuns na infância? E os avanços no tratamento? – As demais doenças representam um mar de possibilidades. O espectro é amplo e abrange desde malformações diagnosticadas no período pré-natal e intercorrências no parto até complicações de patologias pediátricas que levam a afecções neurológicas. Há, ainda, condições puramente neurológicas que podem se manifestar em qualquer momento da vida da criança, incluindo doenças degenerativas infantis.
Nos últimos anos, os avanços no tratamento dessas condições têm sido impulsionados pela terapia gênica, pela neurocirurgia funcional e robótica e pela triagem neonatal, esta por meio do diagnóstico precoce, que permite intervir antes do aparecimento dos primeiros sintomas neurológicos graves.
