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Por que frases bem-intencionadas podem pesar para quem enfrenta um câncer

Crédito-foto: Pixabay

“Você precisa ser forte”, “Não pense negativo”, “Você vai vencer”, “Vai dar tudo certo” são frases que costumam aparecer rapidamente quando alguém recebe um diagnóstico de câncer. Quase sempre elas nascem do amor, da preocupação e do medo de não saber o que dizer diante de uma situação difícil. Mas, para quem está vivendo o adoecimento, algumas dessas tentativas de conforto podem acabar criando uma nova pressão: a de precisar demonstrar força justamente quando está com medo.

Queixas assim, é o que Wlliane Flores Moreira mais escuta no consultório e no hospital em que trabalha. Ela é psicóloga oncologista e paliativista formada pelo Einstein, em Aracaju/Sergipe.

Conforme observa, o problema não está na intenção de quem diz essas frases, mas na mensagem que pode chegar ao paciente: “Quando dizemos ‘seja forte’ ou ‘não pense negativo’, podemos acabar cobrando da pessoa um determinado estado emocional. Ela pode entender que não deveria sentir medo, tristeza ou insegurança e começar a esconder o que está vivendo para não decepcionar quem está ao seu lado.”

Sentir medo, porém, não significa falta de força e não é algo que o paciente precise esconder para enfrentar o tratamento. O câncer pode provocar diferentes emoções ao longo do processo, e não existe uma única maneira correta de reagir ao diagnóstico, às mudanças da rotina, aos tratamentos ou às incertezas sobre o futuro. Por isso o acolhimento começa justamente quando a necessidade de encontrar a frase perfeita deixa de ser uma preocupação, afirma Wlliane.

“Às vezes, ‘eu não sei o que dizer, mas estou aqui’ é o melhor que alguém pode ouvir. Silêncio e escuta também são cuidados. Não precisamos preencher todo silêncio com uma frase motivacional ou tentar tirar imediatamente a tristeza do outro”, explica.

A presença também pode ser demonstrada de maneira prática. Em vez do tradicional “qualquer coisa me avisa”, familiares e amigos podem oferecer ajuda concreta: acompanhar o paciente a um exame, cuidar dos filhos durante uma consulta, preparar uma refeição, resolver uma tarefa do dia a dia ou simplesmente estar junto durante uma sessão de quimioterapia.

“Quando alguém está doente, até pedir ajuda pode ser difícil. Por isso, muitas vezes é mais efetivo oferecer algo específico do que dizer apenas que está disponível. ‘Posso te levar ao exame na quinta-feira?’ ou ‘vou preparar o jantar para vocês hoje’ são formas de transformar a intenção de cuidar em presença real”, orienta a psicóloga.

Outro cuidado importante é evitar comparações. Frases como “minha tia teve câncer e ficou ótima” podem parecer uma tentativa de transmitir esperança, mas cada pessoa vive a doença de uma maneira, com um diagnóstico, tratamento, contexto familiar e experiência emocional próprios.

A linguagem de batalha também merece atenção. Expressões como “você vai vencer” ou “você precisa lutar” fazem parte do vocabulário comum quando falamos sobre câncer, mas podem criar um peso adicional para quem enfrenta uma doença que pode não evoluir como o esperado. “Quando colocamos o câncer como uma batalha, existe o risco de a pessoa interpretar a evolução da doença como uma vitória ou uma derrota pessoal. Se o tratamento não funciona como esperado, ela pode sentir que não lutou o suficiente, que perdeu ou que faltou força. O câncer não é uma prova de resistência emocional”, explica Wlliane.

Para a psicóloga, acolher alguém com câncer não significa eliminar o medo, a tristeza ou a insegurança. Significa permitir que esses sentimentos existam sem transformar a pessoa em responsável por tranquilizar quem está ao redor. “Uma pergunta simples pode ser mais útil do que uma frase pronta: “O que você precisa de mim hoje?”. A resposta pode ser uma conversa, companhia, silêncio ou uma ajuda prática. E também pode ser ‘nada’”, afirma a especialista, ao enfatizar que “Cuidar não é necessariamente encontrar uma solução para o sofrimento do outro. Muitas vezes, é conseguir permanecer ao lado dele sem exigir que fique bem para que nós também consigamos ficar bem.”

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