Antibióticos: por que o uso incorreto ainda preocupa médicos

Resistência bacteriana avança no Brasil e alerta comunidade médica para riscos da automedicação e do uso inadequado de medicamentos
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O uso incorreto de antibióticos continua sendo uma das principais preocupações da comunidade médica no Brasil e no mundo. Considerada uma das maiores ameaças globais à saúde pública, a resistência bacteriana tem avançado silenciosamente, impulsionada principalmente pela automedicação, interrupção precoce de tratamentos e pelo uso inadequado desses medicamentos em doenças virais, como gripes e resfriados.
Os antibióticos são indicados exclusivamente para o tratamento de infecções bacterianas, mas ainda é comum que parte da população utilize o medicamento de forma indevida, acreditando que ele pode acelerar a recuperação de quadros respiratórios comuns. O comportamento, além de não trazer benefício clínico, pode dificultar tratamentos futuros e reduzir a eficácia dos medicamentos disponíveis.
Um levantamento inédito, publicado em junho na revista científica PLOS One, revela a dimensão do consumo de antibióticos no país. O estudo aponta que mais de 4,5 trilhões de doses de antibióticos de uso sistêmico foram dispensadas no Brasil entre 2014 e 2020, com base em registros do Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC), mantido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Identificou ainda variações expressivas no consumo, que oscilaram entre 9,8 e 12,9 doses diárias definidas (DDD) por 1.000 habitantes/dia, além de disparidades significativas entre os estados brasileiros.
A resistência bacteriana ocorre quando as bactérias passam a não responder mais aos antibióticos, tornando infecções simples mais difíceis de tratar e aumentando o risco de complicações. O problema já é considerado um desafio global, pois pode comprometer cirurgias, tratamentos hospitalares e até procedimentos de rotina que dependem desses medicamentos para prevenção de infecções.
Segundo o infectologista Dr. Danilo Campos, do Hospital Aldeota de Fortaleza/CE, o cenário é agravado pelo baixo nível de entendimento da população sobre o uso correto dos medicamentos. “Muitas pessoas ainda interrompem o tratamento antes do tempo recomendado, utilizam antibióticos sem prescrição médica ou compartilham medicamentos com familiares, práticas que contribuem diretamente para o aumento da resistência bacteriana”, aponta o infectologista.
Conforme explica, “o uso responsável dos antibióticos envolve diagnóstico correto, prescrição médica adequada e cumprimento rigoroso do tratamento”. A orientação é que qualquer sintoma de infecção seja avaliado por um profissional de saúde, evitando a automedicação e garantindo o tratamento mais seguro e eficaz, alerta.
O especialista reforça que a conscientização da população é fundamental para reduzir os riscos da resistência bacteriana e preservar a eficácia dos antibióticos para as próximas gerações. O cuidado com a saúde, aliado à informação correta, é apontado como o principal caminho para evitar complicações e fortalecer a segurança dos tratamentos médicos.



