Apostas durante a Copa triplicam entre brasileiros e ampliam preocupação com a saúde mental

O vício em jogos pode provocar endividamento, sofrimento emocional e afetar toda a família

 Foto-crédito: Magnific

O aumento das apostas esportivas durante a Copa do Mundo acendeu um novo alerta para o avanço da ludopatia, transtorno caracterizado pela perda de controle sobre o impulso de jogar, mesmo diante de prejuízos financeiros, emocionais e familiares. Dados divulgados pelo Banco Central no dia 1º de julho mostram que 34,8% dos brasileiros enviaram dinheiro para plataformas de apostas desde o início da competição, percentual três vezes superior aos 11% registrados em maio.

Para o psiquiatra e coordenador de Saúde Mental da Rede Total Care, Dr.  Mauricio Okamura, grandes eventos esportivos favorecem o aumento das apostas porque elas deixam de ser apenas uma publicidade e passam a integrar a experiência de acompanhar as partidas.

“Quando influenciadores apresentam palpites como se fossem recomendações entre amigos ou análises técnicas, a percepção de risco diminui. Muitas pessoas passam da torcida para a aposta sem perceber que estão entrando em uma dinâmica capaz de gerar prejuízos financeiros e sofrimento emocional”, afirma.

Segundo o especialista, o crescimento das apostas está diretamente relacionado aos mecanismos de recompensa variável do cérebro. A liberação intermitente de dopamina mantém o cérebro em constante expectativa e, associada às apostas rápidas e às probabilidades atualizadas em tempo real, favorece a repetição do comportamento e aumenta o risco de desenvolvimento da ludopatia.

O tema voltou ao debate nos últimos dias após a repercussão da história do policial Danilo Lopes Negrão. Segundo relatos divulgados pela esposa, ele acumulou uma dívida estimada em R$ 1 milhão em decorrência da dependência em apostas esportivas. Após sua morte, a viúva, Raquel Maria, publicou um relato nas redes sociais para alertar outras famílias sobre os impactos do transtorno.

De acordo com o Dr. Okamura, o impacto vai além do apostador. Os efeitos da ludopatia não atingem apenas quem desenvolve a dependência. Um estudo publicado no Journal of Gambling Studies aponta que, para cada pessoa com transtorno relacionado aos jogos de azar, cerca de 4,7 outras pessoas são diretamente afetadas, principalmente familiares. Foi o que ocorreu com Raquel Maria, que relatou ainda enfrentar consequências financeiras quase três anos após a morte do marido e afirmou ter desenvolvido sofrimento emocional em decorrência da situação vivida pela família.

Para Okamura, o apoio da família é importante, mas precisa vir acompanhado de limites para não reforçar o ciclo da dependência.  “O acolhimento não significa facilitar o comportamento. É importante estabelecer limites claros, evitar julgamentos morais e conversar sobre as consequências concretas das apostas. Também não é recomendado emprestar dinheiro para quitar dívidas, pois isso tende a perpetuar o problema. O mais indicado é incentivar a busca por tratamento especializado e grupos de apoio.”

Sinais de alerta – A ludopatia costuma se instalar de forma gradual. Entre os principais sinais estão a necessidade de apostar para recuperar perdas, esconder gastos da família, irritabilidade quando não consegue jogar, perda de interesse por atividades antes prazerosas e aumento do endividamento ou da busca por empréstimos.

Apesar da gravidade, a ludopatia tem tratamento. A principal abordagem é a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), frequentemente associada ao acompanhamento psiquiátrico quando há ansiedade, depressão ou outros transtornos associados. “O prognóstico melhora significativamente quando a intervenção acontece cedo”, afirma o psiquiatra. Nesse sentido, enfatiza, “procurar ajuda ao perceber a perda de controle sobre o tempo, o dinheiro ou os pensamentos relacionados às apostas faz toda a diferença.”

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