EspeciaisÚltimas Matérias

Aumento de câncer de mama em mulheres jovens reforça a necessidade de maior atenção clínica

A incidência em jovens exige atenção diferenciada pela maior agressividade média dos tumores e pelo potencial de diagnóstico em estágios mais avançados.

Foto: crédito- Freepik

Embora a maior incidência do câncer de mama ocorra após os 50 anos, uma parcela significativa dos diagnósticos atinge mulheres consideradas jovens do ponto de vista oncológico (abaixo dos 30, 40 e 50 anos). Nesses grupos etários, a doença tende a apresentar características biológicas mais agressivas, impacto ampliado sobre a vida reprodutiva e profissional e maior complexidade terapêutica. Dados globais da IARC/OMS e o debate reacendido por um anúncio tornado público, recentemente, por Bruna Furlan (neta do apresentador Carlos Alberto de Nóbrega), reforçam a necessidade de atenção clínica, informação qualificada e políticas de saúde sensíveis à idade

O diagnóstico de câncer de mama em mulheres com menos de 30 anos ainda é raro quando observado sob a ótica epidemiológica global. No entanto, quando ocorre, costuma estar associado a tumores biologicamente mais agressivos, com maior taxa de proliferação celular e maior probabilidade de subtipos menos responsivos às terapias hormonais. Esse padrão, embora menos frequente em números absolutos, impõe desafios clínicos relevantes e exige abordagem especializada desde o início do tratamento.

Dados do Globocan 2022, o levantamento mais recente da Agência Internacional para Pesquisa do Câncer, vinculada à Organização Mundial da Saúde, ajudam a dimensionar esse cenário. Em todo o mundo, foram registrados 40.919 casos de câncer de mama em mulheres de zero a 29 anos. O número cresce de forma expressiva nas faixas etárias seguintes, alcançando 246.060 diagnósticos entre mulheres de zero a 39 anos e 668.650 casos até os 49 anos. Considerando todas as idades, o total chega a 2.296.840 novos casos em 2022, consolidando o câncer de mama como o tipo mais incidente entre mulheres em escala global, excluídos os tumores de pele não melanoma.

Na oncologia, mulheres diagnosticadas antes dos 40 e mesmo antes dos 50 anos também são frequentemente classificadas como mulheres jovens, não apenas pela idade cronológica, mas pelos impactos específicos da doença nessa fase da vida. Questões relacionadas à fertilidade, maternidade, carreira profissional, imagem corporal e saúde mental tornam o cuidado mais complexo. Ainda assim, é fundamental destacar que a maior incidência do câncer de mama permanece concentrada após os 50 anos, especialmente no período pós-menopausa. As faixas etárias mais jovens representam uma proporção menor do total de casos, mas exigem atenção diferenciada pela maior agressividade média dos tumores e pelo potencial de diagnóstico em estágios mais avançados.

No Brasil, o câncer de mama é responsável por cerca de três em cada dez casos de câncer entre mulheres e permanece como a neoplasia feminina mais incidente em mais de 157 países. Informações do Ministério da Saúde indicam que 22,6% dos diagnósticos ocorrem em mulheres entre 40 e 49 anos, grupo que passou a integrar o rastreamento sistemático na rede pública. Como demonstrado no Globocan 2022, cerca de 30% das mulheres diagnosticadas com câncer de mama têm menos de 50 anos, proporção que vem crescendo de forma contínua, sobretudo em países de renda média e baixa, onde o acesso ao rastreamento é mais limitado.

Diagnóstico de câncer de mama aos 24 anos  – Esse contexto ganhou nova visibilidade com o anúncio tornado público pela influenciadora digital Bruna Furlan, recentemente, que reacendeu o debate sobre câncer de mama em mulheres jovens e a necessidade de ampliar a informação qualificada. Entre os subtipos tumorais mais associados a mulheres jovens está o câncer de mama triplo negativo (que não possui receptores de estrogênio e progesterona e também é negativo para a proteína HER2).

Essa característica biológica limita o uso de terapias-alvo e hormonioterapia, tornando a quimioterapia a principal estratégia sistêmica inicial. “Por não responder ao tratamento hormonal, o tratamento inicial costuma ser a quimioterapia, muitas vezes associada à imunoterapia, seguida da cirurgia para retirada do tumor”, explica Viviane Rezende de Oliveira, vice-presidente da SBCO.

Do ponto de vista clínico, os tumores triplo negativos costumam gerar maior apreensão entre as pacientes, justamente por sua agressividade potencial. O cirurgião oncológico Juliano Cunha, diretor de Comunicação da SBCO e presidente do Congresso Brasileiro de Câncer na Mulher, a ser realizado em agosto em Belo Horizonte, contextualiza esse impacto. Os tumores triplo negativos têm uma característica de agressividade maior do que os tumores hormonais, os chamados subtipos luminais. Por isso, acabam causando mais medo. Em sua maioria, esses tumores são tratados com quimioterapia antes da cirurgia, o que chamamos de quimioterapia neoadjuvante. A adoção da quimioterapia antes do procedimento cirúrgico não elimina a necessidade da cirurgia, mas oferece vantagens importantes no planejamento do tratamento.

Segundo o cirurgião oncológico e mastologista Juliano Cunha, diretor de Comunicação da SBCO, essa estratégia permite avaliar a resposta tumoral ao tratamento sistêmico e, em alguns casos, possibilita cirurgias mais conservadoras. “A princípio, a estratégia cirúrgica não muda, mas o tratamento pré-operatório pode aumentar a chance de evitarmos uma mastectomia. Hoje, para tumores acima de um centímetro, a indicação é iniciar pela quimioterapia e depois realizar a cirurgia. Essa é a principal orientação nesses casos”, explica.

Outro aspecto central no cuidado das mulheres jovens com câncer de mama é o risco de recidiva. Tumores triplo negativos apresentam taxas mais elevadas de recorrência nos primeiros anos após o tratamento, especialmente quando não há resposta patológica completa à quimioterapia. Dados de centros internacionais de referência, como o MD Anderson Cancer Center, indicam que pacientes que permanecem livres da doença após cinco anos têm risco residual baixo, em torno de 2% a 3%, independentemente do estágio inicial. Ainda assim, o acompanhamento rigoroso nos primeiros anos é considerado fundamental.

“O risco de recidiva é mais acentuado especialmente nos dois primeiros anos”, complementa Viviane Rezende de Oliveira. A recorrência pode ocorrer na mama operada, em linfonodos regionais ou em órgãos distantes, como pulmão, fígado, ossos e cérebro. Por isso, o seguimento clínico estruturado e a atuação de equipes multidisciplinares são determinantes para a detecção precoce de eventuais recaídas.

Apesar de não ser possível prevenir todos os casos de câncer de mama, especialmente aqueles associados a maior predisposição hereditária, há evidências de que hábitos de vida saudáveis contribuem para a redução do risco. Manter peso corporal adequado, praticar atividade física regularmente, evitar o tabagismo, limitar o consumo de bebidas alcoólicas e realizar acompanhamento médico periódico são medidas amplamente recomendadas. A atenção a sinais clínicos também é decisiva, independentemente da idade. Nódulos mamários, alterações na pele da mama, mudanças no mamilo, secreções anormais ou caroços nas axilas devem sempre motivar investigação médica.

O Congresso Brasileiro de Câncer na Mulher – V Congresso de Oncoginecologia – III Congresso de Neoplasias das Mamas, evento multidisciplinar organizado pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO), reunirá especialistas nacionais e internacionais para debater temas atuais e avanços no cuidado oncológico feminino, incluindo o câncer

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo