Bruxismo e disfunção temporomandibular, ai que dor!

Dra. Jaqueline Borges: “O bruxismo e as disfunções da ATM não devem ser vistos como problemas isolados, mas como sinais inteligentes do corpo, indicando que existe um desequilíbrio mais profundo que precisa ser compreendido”.
Ansiedade, estresse, depressão e tensão são algumas das causas do bruxismo, hábito involuntário de apertar ou ranger os dentes, durante o sono (noturno) ou em vigília (acordado). Como consequência, pode haver um desgaste dentário e dores de cabeça e no pescoço, bem como na Articulação Temporomandibular – ATM, que conecta o osso temporal do crânio à mandíbula, permitindo movimentos como abrir/fechar a boca, mastigar e falar.
De acordo com a cirurgiã dentista Jaqueline Borges, a demanda por esse atendimento em consultório tem aumentado bastante nos últimos tempos. Para compreender melhor esta condição e suas consequências, o Portal Medicina e Saúde entrevistou a especialista, que atende em Belo Horizonte, Minas Gerais.
Primeiramente, Dra. Jaqueline, por que a procura pelo tratamento do bruxismo tem aumentado? – Acredito que este aumento esteja relacionado principalmente ao ritmo de vida atual. As pessoas estão convivendo constantemente com muitos desafios como, pressões emocionais, excesso de informações, preocupações financeiras e profissionais, além de uma rotina que nem sempre permite pausas para descanso físico e mental. Nesse cenário, uma das formas mais comuns do corpo liberar essa tensão é justamente o apertamento ou o ranger dos dentes, tanto durante o dia quanto à noite durante o sono.
Muitas pessoas têm me procurado, relatando não saber que faziam isso, até começarem a sentir dores na face, na cabeça, no pescoço ou quando alguém percebe o ranger dos dentes à noite. O apertamento é, muitas vezes, uma resposta involuntária do sistema nervoso central ao estresse acumulado. Por isso, quando falamos de bruxismo, não estamos lidando apenas com um problema dentário, mas com algo que envolve também aspectos emocionais, comportamentais e até mesmo neurológicos.
Esse ato – apertamento/ranger dos dentes, pode ser controlado? – Em alguns casos mais leves, quando o paciente percebe conscientemente este hábito, é possível desenvolvermos estratégias para reduzir esse comportamento, como relaxar a mandíbula, manter os dentes desencostados e prestar mais atenção à postura da boca. No entanto, quando falamos de bruxismo que acontece durante o sono, a ajuda profissional é muito importante, tanto para proteger os dentes e o sistema do paciente, quanto para tratar as possíveis causas associadas.
O tratamento envolve outros profissionais? – Na grande maioria dos casos, o meu protocolo – com o dispositivo de neuromodulação e estabilização da via aérea, é o suficiente para reequilibrar o sistema. Ao tratar o bruxismo na sua origem física e respiratória, consigo ‘desligar’ o estado de alerta do corpo, regular o nervo vago e restaurar a arquitetura do sono (fases N3 e REM) de forma isolada e eficaz, com o paciente sentindo o alívio da dor e a melhora da disposição nas primeiras semanas. No entanto, em situações de alta severidade ou cronicidade, onde o sistema nervoso do paciente já está em um nível de exaustão ou dor centralizada muito profunda, é importante o envolvimento de outros profissionais, como neurologistas, psicólogos e fisioterapeutas.
O meu trabalho é o alicerce. Eu preparo o terreno físico e respiratório. Para muitos, isso é a cura. Para casos mais graves, é o que permite que as terapias dos meus colegas funcionem. Eu avalio cada paciente individualmente para decidir se seguiremos apenas com o meu protocolo ou se montaremos uma força-tarefa para a sua recuperação total.
Especificamente Dra. Jaqueline, como é o tratamento do bruxismo?
Dentro da odontologia sistêmica humanizada, que é a linha que eu trabalho, eu vejo o bruxismo como uma expressão do corpo em estado de alerta. Por isso, o tratamento que busco realizar tem como base uma compreensão mais profunda da fisiologia do paciente como um todo. O aparelho que utilizo – que é o RFA, é um recurso essencial nesse processo, porque ele não atua apenas como um protetor mecânico — ele tem um papel ativo na neuro regulação, especialmente na modulação do sistema nervoso autônomo, com influência indireta, porém, profundamente eficaz sobre o nervo vago. A partir desse estímulo, conseguimos favorecer um estado de maior relaxamento, reduzindo a hiperatividade muscular, melhorando a qualidade do sono e da respiração, impactando positivamente diversos sintomas que muitas vezes acompanham o bruxismo, como dores crônicas, tensão muscular, fadiga e até alterações digestivas.
Ao mesmo tempo, eu faço uma avaliação ampla e individualizada, observando aspectos como, respiração, padrão de sono, nível de estresse, saúde intestinal e sinais de inflamação no organismo. O tratamento, então, se torna integrativo: o aparelho atua como um regulador importante desse sistema enquanto as orientações e, quando necessário, o trabalho conjunto com outros profissionais, ajudam a sustentar esse novo equilíbrio. O meu objetivo não é apenas interromper o ato de apertar os dentes, mas ajudar o corpo a sair desse padrão de defesa e retornar a um estado mais saudável, estável e funcional como um todo.
Quanto tempo demora o tratamento? – O tempo do tratamento do bruxismo não é determinado apenas pelo sintoma em si, mas pela capacidade do organismo de responder ao processo de reequilíbrio que estamos promovendo. Quando utilizo o aparelho RFA, o objetivo não é apenas conter o desgaste ou apertamento dentário, mas atuar diretamente na reorganização do sistema nervoso, especialmente na modulação do estado de hiperalerta em que muitos pacientes se encontram. Por isso, alguns pacientes já percebem melhoras importantes logo nas primeiras semanas, como redução da dor, melhora do sono e sensação de relaxamento mais profundo. No entanto, para uma estabilização mais consistente e duradoura, o tempo pode levar alguns meses, dependendo do nível de desregulação do sistema nervoso, da presença de inflamação sistêmica, dos hábitos de vida e do envolvimento do paciente no processo. Eu sempre informo que não se trata de um tratamento imediato, mas de uma jornada de reorganização do corpo, em que o aparelho atua como um facilitador dessa neuro regulação, enquanto ajustamos, de forma integrada, os demais fatores que sustentam o equilíbrio do organismo.
Uma das consequências do bruxismo é a disfunção da ATM, mas não é apenas o bruxismo que causa dores nesta articulação, não é verdade? – Dentro da odontologia sistêmica humanizada, eu não vejo a dor na ATM como um evento isolado ou puramente mecânico, mas como o resultado de um desequilíbrio mais amplo que envolve todo o sistema do paciente. O bruxismo, sim, pode ser um fator importante, mas ele pode ser apenas uma peça dentro de um cenário muito maior.
A ATM está profundamente conectada com o sistema nervoso, com a respiração, com a postura e até com o funcionamento metabólico e inflamatório do corpo. Por exemplo, estados de estresse crônico e desregulação do sistema nervoso autônomo mantêm a musculatura em constante tensão, sobrecarregando a articulação. Alterações respiratórias, como respiração bucal ou padrões inadequados durante o sono, também podem levar a uma posição mandibular desfavorável e aumentar a carga na ATM. Além disso, questões posturais, especialmente relacionadas à coluna cervical, influenciam diretamente o posicionamento da mandíbula.
Outro ponto fundamental, muitas vezes negligenciado, é a influência de processos inflamatórios sistêmicos, que podem sensibilizar estruturas articulares e musculares, tornando a ATM mais suscetível à dor. Até mesmo a saúde intestinal e o estado nutricional podem impactar esse processo, modulando inflamação e resposta neuromuscular. Portanto, quando um paciente apresenta dor na ATM, eu amplio o olhar: investigo não apenas a mordida ou o hábito de apertar os dentes, mas todo o contexto fisiológico e emocional. Isso permite um tratamento mais preciso e profundo, que não se limita a aliviar a dor local, mas restabelecer o equilíbrio do sistema como um todo.
Como diferenciar uma condição da outra, ou seja, bruxismo da ATM? Quais os sintomas mais comuns de ATM? – Dentro da odontologia sistêmica humanizada, diferenciar bruxismo de disfunção da ATM vai muito além de identificar sinais isolados; envolve compreender como o corpo está se organizando diante de um processo de adaptação ou desregulação. Na minha visão, o bruxismo é uma resposta do sistema nervoso, muitas vezes ligada a um estado de hiperativação, em que o paciente manifesta apertamento ou ranger dos dentes como uma forma de descarga ou compensação. Já a disfunção da ATM representa, muitas vezes, um estágio em que essa sobrecarga, somada a outros fatores, começa a gerar alterações estruturais e funcionais na articulação e na musculatura associada.
Clinicamente, o bruxismo se manifesta com desgaste dentário, sensibilidade, fadiga muscular ao acordar e sensação de mandíbula “pesada” ou contraída, enquanto as disfunções da ATM envolvem sinais mais articulares e funcionais, como estalos, crepitações, limitação de abertura bucal, desvios no movimento da mandíbula e dores que podem irradiar para cabeça, pescoço e até região escapular. No entanto, o que realmente diferencia dentro dessa abordagem é a leitura sistêmica: eu observo padrões de respiração, qualidade do sono, nível de tensão do sistema nervoso, presença de inflamação e até a relação com outros sintomas do corpo.
Muitas vezes, o bruxismo é o gatilho inicial e a ATM é a consequência de um sistema que já vinha em desequilíbrio. Por isso, mais do que rotular, o meu foco é entender em que nível esse organismo está: se ainda está em uma fase adaptativa ou se já entrou em um processo de descompensação para, então, direcionar um tratamento que realmente faça sentido para aquele paciente como um todo.
Quais exames detectam problemas na ATM? – Dentro da odontologia sistêmica humanizada, os exames para avaliação da ATM não são utilizados de forma isolada, mas, sim, como ferramentas complementares dentro de um raciocínio clínico mais amplo e integrado. O ponto de partida é sempre uma anamnese aprofundada e um exame clínico minucioso, em que eu observo não apenas a articulação em si, mas padrões de movimento, assimetrias, qualidade da abertura bucal e presença de ruídos articulares, além da avaliação da musculatura, da oclusão e da relação com a postura cervical e o padrão respiratório. A partir dessa leitura global, quando necessário, lanço mão de exames de imagem, como a tomografia computadorizada e ressonância magnética.
Em um nível mais avançado, também considero a importância de exames funcionais e sistêmicos, como avaliações do sono, análise do padrão respiratório e até marcadores inflamatórios, quando há indicação. Ou seja, dentro dessa abordagem, o diagnóstico não se baseia apenas em “ver a articulação”, mas em entender como ela está inserida dentro de um organismo que funciona de forma integrada.
Nesse caso, como é o tratamento da ATM? – Dentro da odontologia sistêmica humanizada, o tratamento é conduzido com um olhar integrativo e profundamente individualizado, em que o foco não está apenas na articulação, mas no reequilíbrio do sistema como um todo. Eu parto do princípio de que a dor e a disfunção são manifestações de um organismo que perdeu sua capacidade de adaptação eficiente, muitas vezes em função de uma desregulação do sistema nervoso, sobrecarga mecânica, inflamação e hábitos de vida desajustados. Nesse contexto, o uso de um aparelho terapêutico específico tem um papel central, não apenas na proteção e reorganização da função mandibular, mas também como um importante modulador do sistema nervoso autônomo, favorecendo a regulação funcional autonômica através do uso do RFA, e estimulando respostas de relaxamento por meio da influência dele sobre o nervo vago. Isso contribui diretamente para a redução da dor, da hiperatividade muscular e da sobrecarga articular.
Paralelamente, eu integro estratégias voltadas para a melhora da respiração, qualidade do sono, postura e redução de processos inflamatórios, além de, quando necessário, atuar em conjunto com outros profissionais. O tratamento, portanto, deixa de ser apenas local e passa a ser sistêmico: buscamos restaurar não só a função da ATM, mas a capacidade do organismo de se autorregular, promovendo resultados mais consistentes, duradouros e alinhados com a saúde global do paciente.
Há como prevenir o bruxismo e a ATM? – Quando eu falo em prevenção, eu estou olhando para fatores que, muitas vezes, passam despercebidos, mas que têm um impacto profundo na forma como o corpo responde ao estresse e se organiza funcionalmente.
Além dos pilares mais conhecidos, como sono, respiração e gestão emocional, eu investigo e oriento sobre condições menos óbvias, mas extremamente relevantes. Por exemplo, alterações no padrão respiratório, como uma respiração mais alta e curta ou até uma respiração bucal sutil podem manter o sistema nervoso em estado de alerta constante, favorecendo o bruxismo. Da mesma forma, distúrbios do sono não diagnosticados, como micro despertares frequentes, também são grandes gatilhos.
Outro ponto importante é a saúde intestinal: quadros de disbiose e aumento da permeabilidade intestinal podem sustentar um estado inflamatório crônico de baixo grau, que impacta diretamente a sensibilidade muscular e articular, além da regulação do sistema nervoso. Deficiências nutricionais, como magnésio, vitaminas do complexo B e outros cofatores neuromusculares, também podem contribuir para maior excitabilidade muscular e dificuldade de relaxamento. Além disso, questões posturais mais sutis, como o posicionamento da cabeça anteriorizado ou tensões crônicas na região cervical, alteram a biomecânica da mandíbula sem que o paciente perceba. Até mesmo hábitos aparentemente inofensivos, como uso excessivo de telas à noite, interferem na produção de melatonina e na qualidade do sono, perpetuando esse ciclo de desregulação.
Dentro desse contexto, o uso do aparelho RFA pode atuar de forma preventiva, ajudando o corpo a sair desse padrão de hiperalerta e favorecendo um estado de maior equilíbrio autonômico. Ou seja, prevenir, para mim, é identificar esses sinais silenciosos antes que eles se tornem sintomas evidentes, atuando de forma precoce e integrada para que o organismo não precise recorrer ao bruxismo ou à dor na ATM como forma de compensação.
Concluindo, uma das informações mais importantes que eu gosto de trazer é que o bruxismo e as disfunções da ATM não devem ser vistos como problemas isolados, mas como sinais inteligentes do corpo, indicando que existe um desequilíbrio mais profundo que precisa ser compreendido. Eu sempre reforço que o sintoma não é o inimigo — ele é uma forma de comunicação do organismo. Muitas vezes, o paciente chega focado na dor, no desgaste dos dentes ou no estalo da articulação, mas por trás disso existe, com frequência, um sistema nervoso em estado de hiperativação, um padrão respiratório inadequado, uma inflamação silenciosa ou até um esgotamento fisiológico que ainda não foi identificado.
Outro ponto essencial e pouco abordado, é que a boca não está separada do restante do corpo. Ela faz parte de um eixo funcional que envolve cérebro, respiração, postura, sistema digestivo e regulação emocional. Quando eu intervenho na cavidade oral de forma estratégica, especialmente com o uso de dispositivos que promovem regulação funcional autonômica (SISTEMA HBTC-RFA), eu não estou atuando apenas localmente, mas influenciando todo esse sistema integrado. Isso explica por que muitos pacientes relatam melhoras que vão além da dor na mandíbula, como qualidade do sono, redução da ansiedade, melhora digestiva, diminuição nas dores crônicas sistêmicas e sensação geral de bem-estar.
Portanto, o grande diferencial dessa abordagem é justamente sair de um modelo focado apenas na contenção do sintoma e avançar para uma odontologia que participa ativamente da regulação do organismo como um todo. A partir desse entendimento, o paciente também passa a se enxergar de forma diferente — não como alguém que “tem um problema nos dentes”, mas como um sistema que pode ser reorganizado, equilibrado e conduzido para um estado mais saudável e funcional.
Sobre a cirurgiã dentista: A Dra. Jaqueline Borges é terapeuta neural, com aperfeiçoamento em Prótese sobre Implante-CRO-DF, em Ortodontia Invisivel Be Flash – técnica que permite fabricar desde alinhadores até aparelhos mais complexos, e em Sistema HBTC-RFA – que utiliza aparelhos intraorais para reposicionar a mandíbula (ATM), equilibrar a musculatura, promover respiração nasal e tratar dores crônicas. É também especialista em DTM e Dor Orofacial pela FMU-SP.
Em Belo Horizonte, ela atende na avenida Alvares Cabral, 1030/sala 606, Bairro Lourdes. Fone: (31) 97216-7164 | Insta@drajaquelinesborges



