Câncer de mama pode dar sinais de resistência antes de aparecer nos exames

Dra. Aline Coelho Gonçalves, oncologista especializada em câncer de mama, explica como o DNA tumoral circulante pode antecipar sinais de resistência ao tratamento e abrir uma nova frente na oncologia de precisão

Durante décadas, acompanhar a evolução de um câncer significou, em grande parte, observar o que aparecia nos exames de imagem: se o tumor havia crescido, diminuído ou surgido em outros locais. A oncologia de precisão começa a acrescentar uma nova camada a esse acompanhamento. Antes de algumas mudanças se tornarem visíveis na imagem, o tumor pode apresentar alterações moleculares capazes de indicar que está desenvolvendo resistência ao tratamento. É nesse ponto que ganha importância o DNA tumoral circulante, conhecido como ctDNA (pequenos fragmentos de material genético liberados pelas células tumorais na corrente sanguínea).

No câncer de mama avançado, este monitoramento vem sendo estudado como uma forma de identificar determinados mecanismos de resistência antes da progressão radiológica. “Durante muito tempo, nossa principal referência para acompanhar a evolução da doença foi aquilo que conseguíamos enxergar. Agora começamos a ter a possibilidade de observar também sinais da biologia do tumor antes que eles produzam uma alteração visível na imagem. Isso muda a forma como pensamos o acompanhamento da doença”, explica a Dra. Aline Coelho Gonçalves, oncologista especializada em câncer de mama, no Rio de Janeiro/RJ.

Um dos estudos que ajudam a entender essa mudança é o SERENA-6, realizado com pacientes com câncer de mama metastático, receptor hormonal positivo e HER2 negativo. A pesquisa avaliou o monitoramento periódico do ctDNA para identificar mutações no gene ESR1, associadas à resistência às terapias endócrinas. O ponto central do estudo está no momento da descoberta: a mutação pode ser identificada no sangue quando a paciente ainda está clinicamente bem e sem sinais de progressão nos exames de imagem.

Entre as pacientes que apresentaram mutação ESR1 detectada pelo ctDNA, mas ainda não tinham progressão radiológica, a estratégia de mudança da terapia endócrina avaliada no estudo resultou em redução de 55% no risco de progressão da doença, em comparação com a manutenção do tratamento padrão.

De acordo com a médica, “a paciente pode estar bem, a imagem pode continuar estável e, ainda assim, o tumor já estar desenvolvendo um mecanismo de resistência. Conseguir identificar esse movimento antes de uma progressão visível abre uma discussão muito importante sobre quando devemos agir”.

Isso não significa substituir os exames de imagem pelos exames de sangue. Para a oncologista, são ferramentas que respondem a perguntas diferentes: “A imagem mostra o que a doença já provocou do ponto de vista anatômico, e o ctDNA pode revelar pistas sobre o que está acontecendo na biologia do tumor. Não se trata de escolher um ou outro, mas de entender como essas informações podem se complementar”.


A especialista também faz uma ressalva importante: encontrar uma alteração molecular não significa, isoladamente, que todo o tratamento deva ser modificado. O desafio agora é compreender em quais situações o monitoramento deve ser utilizado, com que frequência e, principalmente, quando uma informação molecular deve efetivamente levar a uma nova decisão terapêutica. “Tecnologia só faz sentido quando melhora decisão. Não basta detectar uma alteração cada vez mais cedo. Precisamos saber o que fazer com essa informação e demonstrar que agir a partir dela traz benefício real para a paciente, enfatiza a médica, reforçando que esse movimento aponta para uma transformação maior na oncologia.

Segundo ela, o acompanhamento deixa de observar apenas onde a doença está e passa a buscar compreender também como ela está se comportando. “Quanto mais entendemos a biologia do tumor ao longo do tratamento, maior é a possibilidade de individualizar nossas decisões. Estamos começando a enxergar sinais que antes só percebíamos depois que a doença já havia mudado. Essa talvez seja uma das grandes fronteiras da oncologia de precisão”, observa.

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