Coluna “Entre Aspas”

Obesidade: medicamentos clandestinos – 01

Dr. Ramon Marcelino: ‘Há relatos de efeitos adversos graves, contaminações e substâncias diferentes das prometidas, um risco sanitário evidente”

Depois de décadas de inércia, a medicina finalmente começa a oferecer respostas mais consistentes para uma das doenças crônicas mais prevalentes do planeta: a obesidade. Foram anos de pesquisas, ensaios clínicos e avaliação regulatória até que uma nova geração de medicamentos chegasse ao consultório com resultados inéditos. Hoje, fala-se em perdas de 15% até 25% do peso corporal com fármacos aprovados.

Entretanto, destaca o Dr. Ramon Marcelino, médico endocrinologista do Hospital das Clínicas da USP, “já conhecemos os danos do mercado paralelo das chamadas “canetas emagrecedoras”: produtos sem rastreabilidade, sem garantia de armazenamento adequado e sem comprovação da composição. Há relatos de efeitos adversos graves, contaminações e substâncias diferentes das prometidas, um risco sanitário evidente.

Mas existe um efeito colateral ainda mais perverso: a difamação do tratamento da obesidade”. “Quando alguém usa um produto clandestino, sofre um efeito adverso e associa o problema à “caneta para emagrecer”, não é apenas aquele produto que perde credibilidade. É toda a classe terapêutica. É a ciência. É o tratamento desenvolvido dentro das regras. É o paciente que passa a ouvir: “Viu? Essas injeções fazem mal”.

Dr. Ramon conclui: “a obesidade já carrega estigma suficiente e ainda é tratada como falha moral ou falta de força de vontade. Trata-se, porém, de uma doença crônica, complexa e multifatorial, associada a maior risco de infarto, acidente vascular cerebral e diversos tipos de câncer. Negar tratamento adequado é perpetuar sofrimento e custos humanos e econômicos.”

Medicamentos falsificados – além das canetas emagrecedoras: 02

 De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), um em cada dez medicamentos vendidos em países de renda média e baixa pode ser falsificado ou subpadrão. Engana-se quem pensa que apenas as famosas canetas emagrecedoras têm sido alvo. Produtos de diversos segmentos do mercado, principalmente os com alta demanda, custo elevado e grande exposição midiática – como hormônios, anabolizantes, medicamentos para disfunção erétil e até terapias oncológicas – já foram afetados por essa prática ilegal.

Dentre os riscos para a saúde do usuário estão a administração de doses incorretas, substâncias não declaradas ou contaminantes e falha no tratamento. Segundo Liberato Brum, farmacêutico industrial, Mestre e Doutor em Ciências Farmacêuticas, gerente de inovação e pesquisa clínica do laboratório Prati-Donaduzzi, a forma mais eficaz de se proteger é adquirir os produtos apenas por canais regularizados e devidamente registrados na Anvisa.

“Comprar medicamentos fora de farmácias e drogarias autorizadas aumenta significativamente o risco de falsificação. Isso acontece porque esses canais não regulamentados, como redes sociais, marketplaces informais ou vendedores sem identificação clara, não seguem as exigências sanitárias, não garantem armazenamento adequado e não oferecem rastreabilidade do produto. Farmácias regularizadas são fiscalizadas pela Anvisa e pelas vigilâncias sanitárias locais, o que assegura que os medicamentos tenham procedência comprovada, registro válido e controle de qualidade”, explica Brum.

Outro sinal de alerta para os consumidores, acrescenta, “é a prática de preços muito abaixo do mercado. Medicamentos regularizados envolvem custos com pesquisa, controle de qualidade, boas práticas de fabricação, logística e tributos. Quando o valor está muito inferior ao praticado por farmácias autorizadas, pode indicar produto falsificado, irregular, desviado ou armazenado de forma inadequada. Descontos existem, mas diferenças muito expressivas em relação ao preço médio devem gerar desconfiança”.

Trabalho remoto, melhora da rotina e desgaste emocional

A consolidação do trabalho remoto transformou profundamente a dinâmica profissional nos últimos anos. Embora o modelo seja amplamente associado a ganhos de flexibilidade e qualidade de vida, novos dados indicam que ele também traz desafios relevantes para a saúde mental dos trabalhadores.

Um levantamento realizado pela empresa de recrutamento HUG, especializada em profissionais da área de comunicação, mostra que 67,7% dos profissionais afirmam que o home office melhorou sua qualidade de vida. Ao mesmo tempo, 83,6% relatam ter enfrentado algum sintoma psicológico no último ano, incluindo ansiedade, dificuldade de concentração, insônia, isolamento social ou burnout.

O contraste entre percepção de bem-estar e sinais de sofrimento emocional revela um paradoxo cada vez mais presente no mundo corporativo. De um lado, a flexibilidade proporcionada pelo trabalho remoto é vista como um avanço importante na rotina profissional. De outro, a ausência de limites claros entre vida pessoal e trabalho, aliada à hiperconectividade e à redução das interações sociais presenciais, pode favorecer quadros de sobrecarga emocional ao longo do tempo.

Para a psiquiatra Lilian Fagion, da ViV Saúde Mental e Emocional de Maringá/PR, os dados mostram que a discussão sobre trabalho remoto precisa ir além da produtividade e da eficiência operacional e considerar de forma mais profunda seus impactos psicológicos. Ela explica que “o trabalho remoto trouxe benefícios reais para muitos profissionais, principalmente pela redução do tempo de deslocamento e pela possibilidade de maior autonomia na organização da rotina. No entanto, ele também pode enfraquecer fronteiras importantes entre trabalho e vida pessoal, o que aumenta o risco de sobrecarga emocional e de jornadas prolongadas”.

Sair da versão mobile