No Outubro Rosa, discussão sobre qualidade de vida amplia o olhar sobre a doença.
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A última sessão de quimioterapia pode marcar o encerramento de uma etapa do tratamento do câncer de mama, mas voltar ao trabalho, dormir bem, recuperar a disposição e se reconhecer no próprio corpo podem exigir mais tempo e outros cuidados. Essas questões ampliam a discussão do Outubro Rosa, tradicionalmente concentrada na prevenção e no diagnóstico precoce. Para quem já passou pelas etapas mais intensas do tratamento, o acompanhamento também precisa considerar as dificuldades que aparecem na retomada da vida cotidiana.
De acordo com o Instituto Nacional de Câncer – INCA, o Brasil deve registrar 78.610 novos casos de câncer de mama feminina entre 2026 e 2028. É o câncer mais incidente entre as mulheres no país, excluídos os tumores de pele não melanoma.
Para a ginecologista e mastologista Dra. Fernanda Bauk, em São Paulo/SP, a atenção à saúde mamária precisa estar conectada às demais necessidades da paciente. Conforme destaca, ela também acompanha mulheres que tiveram câncer de mama e continuam tendo menopausa, sexualidade, sintomas geniturinários, alterações metabólicas e questões de qualidade de vida, ou seja, “o câncer não apaga a mulher”, afirma.
De volta à vida – Um estudo brasileiro, publicado em 2018 na revista científica Cancer, acompanhou 125 mulheres que trabalhavam quando receberam o diagnóstico. As taxas de retorno ao trabalho foram de 30,3% aos 12 meses e de 60,4% aos 24 meses após o diagnóstico. Apenas 29,1% relataram ter recebido oferta de adaptações no trabalho.
A pesquisa foi realizada em uma única instituição e excluiu pacientes com doença inoperável ou metastática. Os resultados não representam uma taxa nacional atual, mas mostram que a retomada profissional merece atenção no acompanhamento.
As exigências da ocupação, a condição física e o apoio disponível fazem parte dessa discussão. Retomar o emprego ou as tarefas domésticas não significa, necessariamente, recuperar de imediato o ritmo anterior.
Cansaço persistente precisa ser investigado – A fadiga relacionada ao câncer pode continuar por meses ou anos e nem sempre melhora completamente com sono ou repouso, segundo o Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos (NCI). O sintoma pode interferir no trabalho, na convivência familiar e nas atividades sociais.
Uma análise da coorte francesa CANTO (um dos maiores e mais importantes estudos científicos da Europa voltados para o acompanhamento de pacientes com câncer de mama), publicada em 2022, acompanhou mulheres com câncer de mama em estágios I a III. Mais de 30% das participantes avaliadas apresentaram fadiga global intensa em cada avaliação realizada um, dois e quatro anos após o diagnóstico. O número de participantes variou ao longo do acompanhamento; os percentuais não são uma estimativa brasileira.
Conforme explica a Dra. Fernanda, cansaço, mudanças de peso e alterações do humor em mulheres com mais de 40 anos não devem ser atribuídos automaticamente à menopausa. “Tratar uma mulher é diferente de tratar apenas um sintoma,” afirma, enfatizando que no acompanhamento após o câncer, essa investigação deve considerar os tratamentos recebidos, os medicamentos em uso e outras possíveis causas das queixas. O objetivo é identificar o que precisa de cuidado, em vez de presumir que todo desconforto seja uma consequência inevitável dessa fase.
Força física e autonomia – O briefing de cuidado proposto pela médica também inclui alimentação, atividade física, massa muscular e composição corporal. A atenção a esses aspectos se relaciona à capacidade de realizar tarefas, manter a mobilidade e preservar autonomia.
Há evidências de que exercícios aeróbicos e de resistência durante e depois do tratamento oncológico podem reduzir fadiga, ansiedade e sintomas depressivos, além de melhorar a capacidade física e a qualidade de vida. A atividade deve ser adequada às condições clínicas e às limitações de cada pessoa, o que pode envolver apoio de profissionais de reabilitação. A recuperação não deve se transformar em uma cobrança para que a mulher volte rapidamente ao desempenho anterior, observa.
Ao explicar sua abordagem, a Dra. Fernanda destaca a necessidade de avaliar diferentes aspectos da saúde e reconhecer os limites de cada intervenção. “Não acredito em detox milagroso, suplementação indiscriminada, hormônio para todas ou tratamentos apresentados como capazes de resolver tudo,” afirma.
Menopausa e sexualidade também precisam de atenção – Alguns tratamentos do câncer de mama podem provocar ou intensificar sintomas de menopausa. Ressecamento vaginal, dor nas relações e mudanças no desejo podem se somar à fadiga e às alterações da imagem corporal.
Uma revisão sistemática com meta-análise publicada em 2026 no The Journal of Sexual Medicine reuniu 36 estudos, com 9.749 mulheres sobreviventes de câncer de mama. A prevalência combinada de disfunção sexual foi estimada em 70%. O resultado reúne diferentes populações e contextos e não representa uma taxa específica para o Brasil.
De acordo com a médica, “libido não depende de um único hormônio. Sono, fadiga, dor, medicamentos, imagem corporal, relacionamento, saúde emocional e alterações hormonais podem interferir.”
As possibilidades de cuidado citadas pela Dra. Fernanda incluem hidratantes e lubrificantes vaginais, fisioterapia do assoalho pélvico, educação sexual e apoio psicológico ou sexológico, conforme a necessidade.
A terapia hormonal sistêmica para sintomas de menopausa geralmente não é recomendada após o câncer de mama. Para queixas geniturinárias persistentes, alternativas não hormonais são a primeira abordagem recomendada pelo Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas (ACOG). Determinadas terapias locais podem ser discutidas em situações selecionadas, após avaliação dos riscos, benefícios e tratamentos em uso, com participação da equipe oncológica.
O acompanhamento continua – Concluir a quimioterapia também não significa necessariamente encerrar o tratamento. Para mulheres com tumores que possuem receptores hormonais positivos, a terapia endócrina pode continuar por cinco a dez anos, conforme a indicação individual, para reduzir o risco de recorrência. Esses medicamentos atuam sobre a produção ou a ação hormonal e são diferentes da reposição hormonal para menopausa.
O seguimento deve incluir atenção aos efeitos persistentes ou tardios do tratamento e às necessidades emocionais e sociais. O medo de a doença voltar também pode acompanhar essa etapa e merece espaço nas consultas.
Dra. Fernanda observa que algumas mulheres deixam de relatar dificuldades porque sentem que deveriam apenas estar agradecidas por terem sobrevivido. “Mas qualidade de vida não é ingratidão”, afirma.
No Outubro Rosa, discutir a vida após o tratamento inicial significa reconhecer essas necessidades. Recuperar disposição, aliviar a dor, retomar projetos e cuidar dos relacionamentos também fazem parte da saúde. “Sobreviver ao câncer é o primeiro objetivo. Recuperar qualidade de vida também precisa fazer parte do cuidado,” destaca.
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