Estudo aponta: cirurgia oferece maior sobrevida que ablação e quimioembolização em câncer de fígado inicial

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Uma metanálise multicêntrica nacional, publicada no Journal of Liver Cancer, indica que a ressecção hepática está associada a maior sobrevida global e livre de doença em pacientes com câncer de fígado inicial multinodular quando comparada à ablação por radiofrequência e à quimioembolização transarterial. O estudo reúne dados de quase 3 mil pacientes e reacende o debate sobre os algoritmos de tratamento da doença em cenários nos quais o transplante hepático não é viável.

A cirurgia pode oferecer uma vantagem concreta de sobrevida para pacientes com câncer de fígado em estágio inicial. Essa é a principal conclusão de uma metanálise multicêntrica nacional que avaliou diferentes estratégias terapêuticas para o carcinoma hepatocelular (CHC) multinodular em estágio inicial, classificado como BCLC-A. Publicado em 26 de fevereiro de 2026 no Journal of Liver Cancer, o estudo analisou dados de 2.869 pacientes e comparou os resultados da ressecção hepática com duas abordagens amplamente utilizadas na prática clínica, que são a ablação por radiofrequência e a quimioembolização transarterial. A pesquisa envolveu o A.C.Camargo Cancer Center, de São Paulo, a Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública e a Universidade Federal da Bahia. 

O carcinoma hepatocelular é o tipo mais comum de câncer primário do fígado e figura entre as principais causas de morte por câncer no mundo. No Brasil e em outros países com alta prevalência de hepatites virais, cirrose, síndrome metabólica e doença hepática crônica, o diagnóstico ainda costuma ocorrer em fases avançadas, o que limita as opções terapêuticas. Quando identificado precocemente, no entanto, o carcinoma hepatocelular pode ser tratado com intenção curativa. O desafio, segundo especialistas, está em definir qual estratégia oferece o melhor equilíbrio entre controle tumoral, preservação da função hepática e sobrevida a longo prazo, especialmente em pacientes com mais de um nódulo tumoral.

A metanálise agora publicada buscou responder justamente a essa questão. Por meio de uma revisão sistemática da literatura científica, os autores reuniram 15 estudos (dois ensaios clínicos randomizados e 13 estudos de coorte) que compararam diretamente a ressecção hepática com a ablação por radiofrequência e a quimioembolização transarterial em pacientes com carcinoma hepatocelular multinodular BCLC-A. Os desfechos analisados foram a sobrevida global, que mede o tempo de vida após o tratamento e a sobrevida livre de doença, que avalia o intervalo até a recidiva tumoral.

Os resultados mostraram que a cirurgia esteve associada a um ganho significativo em ambos os desfechos. Em comparação com a ablação por radiofrequência, a ressecção hepática apresentou melhora estatisticamente significativa da sobrevida global e, de forma ainda mais expressiva, da sobrevida livre de doença. O mesmo padrão foi observado quando a cirurgia foi comparada à quimioembolização transarterial, com vantagem consistente para a ressecção hepática.

O cirurgião oncológico Felipe José Fernández Coimbra, de São Paulo/SP,  autor sênior do estudo, explica que os dados ajudam a explicar um ponto que há anos gera controvérsia na literatura. “O que essa metanálise mostra, de forma bastante robusta, é que a ressecção hepática não deve ser vista como uma exceção nesses pacientes. Em indivíduos bem selecionados, com função hepática preservada, a cirurgia oferece um controle tumoral mais duradouro e se traduz em maior sobrevida”, afirma Coimbra, que é secretário-geral da Sociedade Mundial de Cirurgia Oncológica (WSSO), diretor do Instituto Integra e líder do Centro de Referência em Tumores do Aparelho Digestivo Alto do A.C.Camargo Cancer Center. 

O benefício mais pronunciado foi observado na sobrevida livre de doença, um dado que, segundo os autores, reflete o maior controle local obtido com a retirada cirúrgica do tumor. Diferentemente das terapias locorregionais, que atuam destruindo o tecido tumoral in situ, a ressecção permite a remoção completa da área afetada, com margens de segurança, o que reduz o risco de recidiva precoce no mesmo segmento do fígado.

“Quando conseguimos retirar o tumor com margem adequada, estamos reduzindo de forma importante o risco de persistência microscópica da doença. Isso explica, em grande parte, por que a sobrevida livre de doença favorece a cirurgia”, pontua Coimbra.

Historicamente, os principais algoritmos internacionais de tratamento do carcinoma hepatocelular recomendam a ablação ou a quimioembolização para pacientes com doença multinodular em estágio inicial, reservando a cirurgia para casos de tumor único. Essa hierarquização foi construída com base no receio de altas taxas de recidiva e no risco de insuficiência hepática após a ressecção, sobretudo em pacientes com cirrose. O novo estudo, no entanto, sugere que essa lógica pode estar excessivamente restritiva.

“É importante destacar que não estamos defendendo cirurgia para todos”, ressalta Coimbra. “A mensagem central é que existe um grupo de pacientes, especialmente aqueles classificados como Child-Pugh A e alguns Child-Pugh B muito bem selecionados, nos quais a ressecção hepática é segura e oferece resultados oncológicos superiores. Ignorar essa possibilidade pode significar perder uma chance real de prolongar a vida desses pacientes”, alerta o médico.

A metanálise também chama a atenção pela qualidade metodológica. Diferentemente de análises anteriores, que utilizaram dados binários em pontos fixos de tempo, o novo trabalho empregou razões de risco extraídas de curvas de sobrevida, o que permite uma avaliação mais precisa dos desfechos ao longo do tempo e leva em conta pacientes censurados. Além disso, sempre que possível, foram priorizados estudos com ajustes estatísticos, como o pareamento por escore de propensão, para reduzir vieses de seleção.

Apesar dos resultados favoráveis à cirurgia, os autores reconhecem limitações importantes. A maioria dos estudos incluídos é observacional, o que implica risco inerente de viés, já que pacientes encaminhados para cirurgia tendem a apresentar melhor reserva funcional e condições clínicas mais favoráveis. Ainda assim, mesmo após análises de sensibilidade, o benefício da ressecção hepática se manteve consistente.

Outro ponto destacado no artigo é que a cirurgia envolve riscos maiores no curto prazo, como complicações pós-operatórias e um período de recuperação mais prolongado. Em contrapartida, técnicas como a ablação por radiofrequência e a quimioembolização são menos invasivas, preservam mais parênquima hepático e podem ser repetidas com relativa facilidade em caso de recidiva. A decisão terapêutica, portanto, deve ser individualizada e tomada em ambiente especializado e multidisciplinar.

De acordo com Coimbra, esse equilíbrio entre risco e benefício precisa ser discutido de forma transparente com o paciente. “A cirurgia não é isenta de riscos, e isso precisa ser ponderado. Mas quando olhamos para o horizonte de médio e longo prazo, especialmente em termos de sobrevida, os dados mostram que, em centros experientes, o benefício pode superar os riscos iniciais”, afirma.

O estudo também reforça a importância de que esses procedimentos sejam realizados em centros de alto volume, com equipes multidisciplinares especializadas em câncer de fígado. Avaliações detalhadas da função hepática, da presença de hipertensão portal e do estado funcional do paciente são fundamentais para minimizar complicações e maximizar os resultados.

Ao final, os autores defendem que os achados da metanálise justificam uma reavaliação dos algoritmos de tratamento atualmente adotados para o carcinoma hepatocelular multinodular em estágio inicial, ao menos nos cenários em que o transplante hepático não é uma opção imediata. “Os dados apontam para a necessidade de atualizar diretrizes e incorporar a ressecção hepática como uma alternativa prioritária em pacientes adequadamente selecionados”, destaca Coimbra, acrescentando: “é um movimento em direção a uma medicina mais personalizada, baseada não apenas em estadiamento, mas na real capacidade de cada paciente se beneficiar do tratamento”. 

Se confirmados por novos estudos prospectivos e ensaios clínicos randomizados, os resultados podem ter impacto direto na prática clínica e ampliar as opções curativas para um grupo de pacientes que, até agora, vinha sendo tratado predominantemente com abordagens não cirúrgicas.

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