Por Dr. Giovanni Guido Cerri, presidente do Conselho Deliberativo do Instituto de Radiologia do Hospital das Clínicas – INRAD, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – FMUSP, e do Inova HC.
Imagem: Freepik-por IA
Poucas áreas da medicina têm experimentado uma transformação tão profunda quanto a radiologia. E, dentro dela, poucos campos são tão impactantes quanto o do diagnóstico e tratamento do câncer de mama. A inteligência artificial (IA), que há poucos anos parecia pertencer ao futuro, já é uma aliada concreta e poderosa no enfrentamento dessa doença que, infelizmente, ainda é a principal causa de morte por câncer entre mulheres no Brasil.
Hoje, algoritmos capazes de analisar imagens e cruzar dados clínicos estão ajudando médicos a identificar precocemente alterações suspeitas nas mamas. Em alguns casos, a IA já consegue distinguir se uma lesão é benigna ou maligna com base apenas em exames de imagem, como o ultrassom. Essa capacidade de análise, muito além da velocidade humana, tem o potencial de reduzir o tempo entre o exame e o diagnóstico — um fator que pode definir a diferença entre a vida e a morte.
Pesquisas ao redor do mundo reforçam esse avanço. Na Alemanha, um estudo publicado na revista Nature Medicine mostrou que o uso da IA permitiu acelerar e aperfeiçoar a leitura de mamografias realizadas em mais de 460 mil mulheres. Radiologistas conseguiram analisar os exames com mais agilidade, sem perda de precisão, o que significa diagnósticos mais rápidos e eficientes.
Mas o impacto da inteligência artificial não se limita à detecção precoce. Pesquisadores do Instituto Norueguês de Saúde Pública e de universidades americanas demonstraram que a IA pode prever o risco individual de uma mulher desenvolver câncer de mama antes mesmo de qualquer sinal clínico. Trata-se de um salto em direção à medicina preditiva, que prioriza a prevenção e o cuidado personalizado — um modelo que transforma o modo como entendemos a saúde.
O desafio, porém, continua imenso. A Organização Mundial da Saúde estima que, até 2050, o mundo registrará 3,2 milhões de novos casos de câncer de mama por ano. No Brasil, o Instituto Nacional do Câncer prevê mais de 73 mil novos diagnósticos apenas em 2025. Ainda assim, há um dado que inspira esperança: quando detectado precocemente, o câncer de mama tem até 95% de chance de cura.
A inteligência artificial, portanto, não é uma ameaça à medicina — é uma extensão de sua missão. A tecnologia não substitui o olhar humano, mas amplia a capacidade do médico de enxergar o que antes era invisível. Cabe a nós, profissionais da saúde, garantir que esse avanço seja usado de forma ética, segura e humanizada.
Estamos diante de uma das maiores oportunidades da história da medicina: unir ciência, tecnologia e sensibilidade humana para salvar mais vidas. O futuro do combate ao câncer de mama está sendo escrito agora — e a inteligência artificial é uma das suas páginas mais promissoras.
