“Eu escolhi o caminho da clínica médica na medicina pois acredito ainda ser o “padrão ouro” em termos de especialização, boa prática médica e aquisição de conhecimento”
A Residência Médica é um período muito importante na vida de um médico, pois abre caminho para uma vida profissional das mais ricas em uma área cada vez mais concorrida. Esse período exige muita disciplina, contato atento com a realidade dos pacientes e do ambiente de trabalho, enfim, um novo universo que se abre. Nessa entrevista ao Portal Medicina & Saúde, Wagner Scalabrini Neto, médico formado pela Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais em 2025, atualmente cursando residência de clínica médica pelo Hospital Mater Dei, fala dessa fase de sua vida. Confira.
Dr. Wagner, recentemente você foi aprovado para Residência Médica, como foi essa experiência? – Foi uma experiência muito boa e gratificante, entretanto, foi necessário abrir mão de muitas coisas e empenhar muitos esforços para que isso fosse possível. Iniciei o preparo para as provas no ano de 2025, ano em que formei, e as provas habitualmente se iniciam no mês de outubro e se estendem normalmente até dezembro e janeiro. Visto que me formei na metade do ano, em julho, tive a oportunidade de me dedicar inteiramente aos estudos até chegarem as provas, acho que esse fator possa ter sido decisivo na aprovação. Porém, tive também muitos colegas que se formaram ao final do ano e, ainda assim, conseguiram uma vaga na residência.
Qual especialidade escolheu para sua residência médica e qual o período da Residência? – Escolhi clínica médica. Atualmente estou no terceiro mês de residência.
Por que escolheu esse caminho na medicina? – Eu escolhi o caminho da clínica médica na medicina pois acredito ainda ser o “padrão ouro” em termos de especialização, boa prática médica e aquisição de conhecimento. Durante a residência passamos grande parte do nosso dia dentro do hospital, vendo pacientes, prontuários, exames e o tempo todo discutindo os casos com preceptores experientes. É impossível não aprender quando se está tendo contato com o aprendizado constantemente. Outros caminhos, como pós-graduação, podem até ensinar teorias, ou aperfeiçoar conhecimentos já previamente adquiridos, mas não ensinam a boa prática da mesma forma que a residência.
Como é o seu dia a dia na Residência? – Estou fazendo residência no Hospital Mater Dei. A rotina da clínica médica consiste em passar no leito de todos os pacientes internados, discutir com o preceptor quais serão as condutas a serem tomadas diante da atual situação do enfermo, se serão necessários novos exames, mudanças em esquemas de medicamentos ou até mesmo se o que já estava sendo feito previamente será mantido. Após essa discussão, evoluímos e prescrevemos tudo o que foi feito em prontuário. Além disso, também trabalhamos no ambiente de pronto atendimento do hospital e cumprimos escala de plantões, noturnos e diurnos. Ao todo, isso totaliza aproximadamente 60 horas semanais.
O que o levou a escolher esta residência? – Escolhi a clínica médica pois penso ser uma especialidade muito completa, em que existem uma ampla gama de doenças a serem estudadas, diagnosticadas e tratadas, sendo que, na grande maioria das vezes, isso não é fácil, exige muita prática e experiência. Quando um caso começa a se tornar desafiador e complexo dentro de um hospital, geralmente o clínico é o primeiro médico a ser consultado. Além disso, trata-se de uma especialidade que abre um leque muito grande de oportunidades após a conclusão da residência médica, visto que é um pré-requisito para outras especialidades, como endocrinologia, cardiologia, pneumologia, etc.
Qual a sua visão da medicina contemporânea, com avanços crescentes e, ao mesmo tempo, avanços distantes de boa parte da população? – A medicina segue avançando em termos de tecnologia o tempo inteiro, seja em tratamento ou diagnóstico. Mas, de fato, esse avanço deixa grande parte da população de lado. Diversos medicamentos e exames são de extrema dificuldade de serem conseguidos via SUS, sendo muitas vezes necessário judicializar, ao passo que no setor privado existe uma facilidade muito maior. Não é incomum ver pacientes internados em hospitais públicos que estão apenas aguardando uma vaga para realizar um exame específico ou adquirir um medicamento para ter alta para casa.
Diante dessa realidade, qual a importância do SUS na assistência médica hospitalar para boa parte da população? – Aproximadamente 70% dos brasileiros dependem quase exclusivamente do SUS. Portanto, ele é de fundamental importância na assistência médica hospitalar para grande parcela da população. É através de uma rede articulada de atenção à saúde que o SUS funciona. O atendimento inicial começa na atenção primária, nas unidades básicas de saúde, em que o médico, ao identificar o problema do paciente, sabe se aquele problema consegue ser tratado no nível de atenção básica, ou se é necessário referenciar para um serviço mais especializado, como um ambulatório ou até mesmo um hospital. Dessa forma, cria-se um vínculo maior com o paciente, pois todo o atendimento inicial dele começa na atenção básica, e é possível um acompanhamento longitudinal já que aquele médico é o responsável pelo seu cuidado.
Como anda a formação médica no Brasil? Prós e contras. – Nunca se formou tantos médicos como agora. Por um lado, mais médicos, em tese, corresponderiam a um melhor acesso à saúde, porém não é o que vem acontecendo. A concentração permanece nos grandes centros e os locais mais distantes permanecem com assistência precária. Além disso, o número de vagas de residência médica não aumentou na mesma proporção que o número de faculdades de medicina, o que faz com que, a cada ano que passa, a concorrência e o número de médicos que ficam sem se especializar cresçam. Com o avanço desenfreado de novas faculdades de medicina, muitas não atendem a critérios mínimos de qualidade e acabam por formar indivíduos com uma base aquém da esperada. Isso foi evidenciado pelo grande número de instituições classificadas com nota 1 no ENAMED. Entretanto, mesmo com um cenário cada vez mais desafiador dentro da medicina, vejo que muitas pessoas ainda correm atrás de se especializar e se tornar um profissional melhor.
Em um mundo médico muito digital, como fica a relação médico-paciente? – A despeito do mundo digital, a boa relação médico paciente ainda é um dos pilares de uma boa prática. Apesar da tecnologia desempenhar um papel muito importante dentro da medicina hoje, facilitando cada vez mais o acesso à informação, as condutas e decisões ainda estão a cargo do médico. As inteligências artificiais são plenamente capazes de formular hipóteses diagnósticas e sugerir tratamentos, mas não são capazes ainda de ter um olhar clínico, uma percepção do doente que só o médico tem.
Outras observações que julgar importantes – À medida que o tempo passa, o nível de dificuldade dentro da medicina só aumenta. Percebi isso ao longo da faculdade, com o decorrer dos períodos, e agora, quando entrei na residência. E, quando sair da residência e ingressar em outra especialidade, a dificuldade aumentará ainda mais. Mas isso faz parte de um processo de amadurecimento, responsabilidade e obtenção e consolidação de conhecimento. É como dizem, mar calmo nunca fez um bom marinheiro.
