Nicotina e câncer de pulmão: pesquisa reforça o impacto nocivo do cigarro e abre caminhos para o tratamento da doença

Para o Dr. Carlos Gil Ferreira, “este estudo ajuda a esclarecer como a nicotina não apenas causa dependência, mas também favorece a progressão do câncer de pulmão”

Foto: Freepik

 A relação entre o tabagismo e o câncer de pulmão é amplamente conhecida, mas os mecanismos pelos quais a nicotina contribui para o desenvolvimento da doença ainda estão sendo desvendados. Um novo estudo publicado na Frontiers in Cell and Developmental Biology revelou que um receptor celular chamado α5-nAChR pode ser um dos principais responsáveis por impulsionar o crescimento e a disseminação do tumor. A pesquisa não só reforça o impacto nocivo do cigarro, mas também abre caminho para o desenvolvimento de novas estratégias terapêuticas.

Conforme explica o oncologista torácico Carlos Gil Ferreira, presidente do Instituto Oncoclínicas, Rio de Janeiro/RJ, “este estudo ajuda a esclarecer como a nicotina não apenas causa dependência, mas também favorece a progressão do câncer de pulmão. Isso pode contribuir para novas abordagens terapêuticas e reforça a necessidade de medidas preventivas”.
 

O que é o α5-nAChR e por que ele importa? – Nosso corpo possui receptores que funcionam como “sensores” nas células, regulando diversas funções biológicas. O α5-nAChR (receptor nicotínico de acetilcolina α5) é um desses sensores e responde especificamente à nicotina. Ele já era conhecido por estar ligado à dependência do tabaco, mas, agora, foi identificado como um possível facilitador do crescimento e agressividade do câncer de pulmão.

Pesquisadores do Research Center of Basic Medicine, na China, analisaram como a ativação desse receptor por nicotina desencadeia uma série de reações dentro das células cancerígenas, promovendo o avanço da doença. Entre os principais efeitos observados, destacam-se:

Nesse sentido, destaca Carlos Gil, “compreender esses mecanismos é importante para desenvolver novas terapias. Já temos imunoterapias que buscam reativar o sistema imunológico contra o câncer, mas se conseguirmos bloquear esse receptor, podemos potencializar essas estratégias”.

O estudo: metodologia e resultados – Para investigar a relação entre a nicotina e o câncer de pulmão, os pesquisadores analisaram amostras de tumores e realizaram experimentos em laboratório e com modelos animais. O estudo combinou diferentes abordagens para entender como o α5-nAChR influencia a progressão da doença. No laboratório, células de câncer de pulmão foram expostas à nicotina, permitindo que os cientistas observassem a ativação de caminhos bioquímicos essenciais para o crescimento e a sobrevivência do tumor, como JAK2/STAT3, PI3K/AKT e MAPK/ERK. “Essas vias funcionam como rodovias dentro das células, transmitindo sinais que controlam seu crescimento e resistência. Quando ativadas pelo α5-nAChR, elas aceleram a multiplicação do câncer, tornam os tumores mais resistentes ao tratamento e dificultam a ação do sistema imunológico”, explica o oncologista.

Além dos testes in vitro, os pesquisadores conduziram estudos em camundongos com câncer de pulmão. Os animais que receberam nicotina desenvolveram tumores mais agressivos e resistentes ao tratamento, confirmando o papel do α5-nAChR na progressão da doença.

A análise de amostras tumorais de pacientes revelou ainda que aqueles com altos níveis do receptor α5-nAChR apresentavam taxas mais altas de progressão do câncer e pior resposta ao tratamento, sugerindo que esse receptor pode ser um alvo promissor para novas terapias.

Novos caminhos para o tratamento – A identificação do α5-nAChR como um facilitador do crescimento do câncer de pulmão pode abrir novas possibilidades para o desenvolvimento de medicamentos que bloqueiem esse receptor, reduzindo os efeitos da nicotina sobre o tumor. Além disso, entender como esse mecanismo influencia a resposta imunológica pode levar a avanços na imunoterapia, uma das abordagens mais promissoras no tratamento da doença.

De acordo com Carlos Gil Ferreira, este estudo reforça a conexão entre nicotina e câncer de pulmão, mas vai além, explica como a nicotina acelera o crescimento do tumor e o ajuda a escapar do sistema imunológico. Essa descoberta, destaca, “não apenas ressalta a importância da prevenção ao tabagismo, mas também destaca a necessidade urgente de interromper o fumo, especialmente em pacientes já diagnosticados com a doença. A nicotina não apenas piora a progressão do tumor, mas pode reduzir a eficácia dos tratamentos disponíveis, tornando o abandono do cigarro uma estratégia essencial para melhorar os resultados terapêuticos”.

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