O direito à terapia individualizada na Saúde da Mulher

Por Dr. Walter Pace / Presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Personalizada (SBMP). Professor Doutor, da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais (FCMMG), Titular da Academia Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia e Titular da Academia Mineira de Medicina, sendo referência em endoscopia ginecológica, reprodução humana, endocrinologia e Saúde da Mulher.
A medicina contemporânea vive um paradoxo. Enquanto a ciência avança para decifrar o código genético e oferecer tratamentos oncológicos de precisão, áreas fundamentais da saúde feminina, como a transição para a menopausa, ainda são cercadas por tabus e por uma visão excessivamente generalista. É preciso elevar o nível do debate: a saúde da mulher não pode mais ser tratada sob a lógica do “tamanho único”.
Como professor de Ginecologia em Belo Horizonte e à frente de instituições que prezam pelo rigor científico em Minas Gerais e no Brasil, observo com preocupação as tentativas de simplificar discussões clínicas complexas. O climatério e a menopausa não são apenas marcos biológicos do fim da fertilidade; são períodos de profundas alterações metabólicas, cognitivas e vasculares que exigem um olhar médico minucioso e, acima de tudo, individualizado.
Um dos pontos de maior ruído atual reside no uso de terapias hormonais, incluindo a testosterona. É fundamental esclarecer que a reposição hormonal, quando baseada em evidências e critérios clínicos rígidos, não é uma questão de estética ou promessa vazia, mas de restauração da homeostase. A deficiência androgênica na mulher pode acarretar perda de massa óssea, fadiga crônica e prejuízos significativos à libido e ao bem-estar mental. Tratar esses sintomas de forma personalizada é um dever ético do médico que busca a qualidade de vida de sua paciente.
A Sociedade Brasileira de Medicina Personalizada (SBMP) defende que o futuro da medicina reside na tríade: segurança, eficácia e individualização. Recentemente, autoridades sanitárias nacionais reforçaram que a manipulação de componentes terapêuticos é uma prática legal e essencial para atender às necessidades específicas de cada biótipo. Quando realizada por farmácias que seguem as Boas Práticas de Manipulação e sob prescrição médica responsável, a terapia personalizada oferece uma precisão de dosagem que a indústria de prateleira nem sempre consegue alcançar.
Não se pode confundir o mau uso de substâncias — que deve, sim, ser combatido com rigor fiscalizatório — com a ciência da modulação hormonal legítima. O medo não deve ser a baliza da medicina; a evidência deve. Demonizar tratamentos que, se bem indicados, transformam a longevidade feminina em um período de vitalidade é um retrocesso que prejudica, acima de tudo, a mulher mineira e brasileira.
Nossa missão, tanto na academia quanto nas sociedades de especialidade, é garantir que o acesso à inovação seja acompanhado de educação continuada para os médicos e informação clara para a sociedade. A medicina personalizada é o caminho para que cada paciente receba o tratamento certo, na dose certa e no momento certo. Menos preconceito, mais ciência.




