Saúde infantil: cobertura vacinal contra a poliomielite recua pelo segundo ano consecutivo. Nenhuma região do Brasil atinge a meta em 2026

Foto-crédito: Pixabay

Um alerta crítico para a saúde pública mobiliza médicos e especialistas em imunização no Brasil: pelo segundo ano consecutivo, a cobertura vacinal contra a poliomielite registra retração e segue perigosamente abaixo da meta de 95% preconizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Números extraídos da Rede Nacional de Dados em Saúde – RNDS, do Ministério da Saúde, revelam que, após atingir 90,83% em 2024, a taxa de vacinação do esquema primário caiu para 88,73% em 2025 e recuou ainda mais em 2026, atingindo 88,16% (dados consolidados até setembro).

O cenário é ainda mais alarmante quando se observa a adesão às doses de reforço: a cobertura da primeira dose de reforço alcançou apenas 84,07% em 2026, e a segunda dose despencou para 74,80% na última medição consolidada. Na prática, o índice revela que uma em cada quatro crianças brasileiras não conclui o ciclo vacinal, ficando desprotegida a médio e longo prazo contra a paralisia infantil.

“A meta de 95% não é um número burocrático, é a margem de segurança que garante que o poliovírus não encontre brechas para voltar a circular no Brasil. O país já deu mostras de que sabe vacinar, mas essa tendência de queda na cobertura inicial e, principalmente, o abandono expressivo nas doses de reforço, colocam em risco décadas de conquistas. Enquanto houver transmissão do vírus no mundo, nenhuma nação está imune à importação. Proteger as crianças nos primeiros meses é essencial, mas é o reforço que consolida a memória imunológica de longo prazo”, ressalta o Dr. Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

O Brasil está há mais de 30 anos sem registrar casos de poliovírus selvagem, mas a ausência de circulação não elimina a vulnerabilidade do território. A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) classifica o país no grupo de risco muito alto para a ressurgência e reintrodução da poliomielite nas Américas. Um estudo recente conduzido por Ribeiro et al. (2024) aponta que a hesitação vacinal infantil é multifatorial. Decorre de aspectos sociais, operacionais e, principalmente, da baixa percepção de gravidade pelas novas gerações de pais, uma vez que a paralisia infantil deixou de ser visível no cotidiano e, assim, muitos responsáveis deixam de priorizar o calendário básico.

A infecção, contudo, permanece sem cura ou tratamento específico: o vírus afeta o sistema nervoso central e 1 em cada 200 infecções leva à paralisia irreversível. Entre as formas paralíticas, a mortalidade varia de 5% a 10% por paralisia dos músculos respiratórios. A única ferramenta de contenção é a vacina.

Nenhuma macrorregião atinge a meta em 2026 – A análise territorial do Ministério da Saúde evidencia que o descompasso na imunização atinge todo o território nacional. Em 2026, nenhuma das cinco regiões brasileiras alcançou o patamar de 95% determinado pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI):

Tecnologias disponíveis e esquemas combinados – O SUS disponibiliza gratuitamente em sua rede a Vacina Inativada contra a Poliomielite (VIP), com formulação 100% inativada administrada via injeção, regulamentada pela Nota Técnica nº 64/2026 do Ministério da Saúde. A tecnologia decorre da parceria de transferência tecnológica entre a Sanofi e a Bio-Manguinhos/Fiocruz.

Na rede privada, os pais encontram alternativas combinadas, a exemplo da vacina hexavalente acelular, que confere proteção simultânea contra seis enfermidades em uma única aplicação (poliomielite, difteria, tétano, coqueluche, hepatite B e Haemophilus influenzae tipo b), otimizando a rotina pediátrica e reduzindo picadas e idas aos serviços de saúde.

Conforme destaca o diretor-geral de Vacinas da Sanofi Brasil, Guillaume Pierart, “nosso propósito no campo de imunização vai além do desenvolvimento de inovações e fórmulas seguras que ofereçam conforto aos bebês e conveniência às famílias. Nosso compromisso permanente, junto aos setores público e privado, é assegurar a conscientização e o amplo acesso à vacinação para que nenhuma criança fique suscetível a doenças já preveníveis.”

Doses atrasadas: nunca é tarde para atualizar a caderneta – A perda dos prazos recomendados não anula as aplicações já feitas. O princípio básico da imunização é: dose aplicada é dose contada. Para crianças com até 4 anos, 11 meses e 29 dias com doses em atraso ou sem histórico vacinal, a regularização é gratuita em qualquer Unidade Básica de Saúde (UBS). As equipes calculam os intervalos mínimos e aplicam a vacina inativada (VIP) sem necessidade de reiniciar o esquema do zero.

Para pessoas a partir de 5 anos – faixa em que cessa o calendário universal de rotina no SUS -, a Sociedade Brasileira de Imunizações recomenda o resgate vacinal em três doses na rede privada, que também disponibiliza formulações combinadas de reforço (como a dTpa-VIP).

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