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Mais tempo no quarto, menos conversa com a família, irritação por qualquer motivo, vontade de ficar sozinho. Na adolescência, mudanças como essas podem fazer parte da busca por independência. Mas quando o comportamento começa a se transformar em um padrão e o jovem deixa de se interessar pelas pessoas, atividades e situações que antes faziam parte da sua rotina, surge uma pergunta importante para os pais: é apenas uma característica da idade ou há algum sofrimento por trás disso?
A resposta não está em um comportamento isolado, mas na mudança em relação ao que era habitual para aquele adolescente. É o que explica Filipe Colombini, psicólogo e especialista em orientação parental, em São Paulo/SP. Segundo ele, os pais devem observar principalmente alterações persistentes e que começam a afetar diferentes áreas da vida.
“O primeiro passo é olhar se aquele adolescente mudou de forma significativa em relação a como ele era antes. O mais importante não é um comportamento em uma situação específica, mas mudanças persistentes que afetam diferentes áreas da vida, como relações familiares, desempenho escolar, convívio social e autocuidado”, explica.
Nem todo isolamento é sinal de problema – Querer mais privacidade, passar mais tempo com os amigos ou questionar regras da família faz parte do processo de construção de autonomia. O sinal de alerta aparece quando essas mudanças são acompanhadas por um afastamento progressivo, perda de interesse ou alterações importantes na forma como o jovem vinha funcionando.
Entre os comportamentos que merecem atenção estão isolamento cada vez maior, perda de interesse por atividades antes prazerosas, irritabilidade intensa e persistente, mudanças importantes no sono ou no apetite, queda no rendimento escolar e dificuldade de concentração.
Também é preciso observar manifestações frequentes de desesperança, culpa excessiva, baixa autoestima ou falas que demonstrem que o adolescente não vê sentido no futuro.
De acordo com Colombini, “o que merece atenção é quando ele passa a se afastar de amigos e familiares, abandona atividades importantes, demonstra sofrimento intenso ou perde o interesse pelas coisas que antes faziam sentido.”
Um dos desafios para os pais é justamente não interpretar esses sinais como “drama”, preguiça ou rebeldia. Ao mesmo tempo, nem toda mudança de humor significa que existe um transtorno mental. O que faz diferença é a intensidade, a duração e o impacto daquela mudança na vida do adolescente.
Redes sociais também entram nessa equação – A vida digital pode aumentar algumas das pressões que já fazem parte da adolescência. A comparação constante, a busca por aprovação, o medo de ficar de fora e a exposição a padrões irreais de aparência e comportamento podem contribuir para sentimentos de inadequação e afetar a autoestima. Bullying e cyberbullying, conflitos familiares e dificuldades acadêmicas também podem pesar sobre o bem-estar emocional.
Isso não significa que as redes sociais sejam, isoladamente, responsáveis pelo sofrimento psíquico. O ponto é observar como o adolescente está se relacionando com esse ambiente e se o uso das plataformas vem acompanhado de mudanças no humor, no sono, nos relacionamentos ou na percepção que ele tem de si mesmo.
Como conversar sem transformar tudo em cobrança – Perceber que alguma coisa mudou é apenas o primeiro passo. Para muitos pais, a parte mais difícil vem depois: como abordar o assunto sem fazer o adolescente se fechar ainda mais?
Para Colombini, a maneira como a conversa começa pode determinar se o jovem vai se sentir seguro para falar ou se vai encerrar o assunto. “O adolescente precisa sentir que será ouvido antes de ser corrigido. Conversas marcadas por críticas, sermões ou tentativas imediatas de resolver o problema costumam fechar o diálogo. Escutar com interesse, mente aberta, validar o que ele está sentindo e demonstrar disponibilidade são atitudes que fortalecem a confiança”, afirma.
Em vez de perguntas que soam como cobrança, do tipo “O que você tem?” ou “Por que está assim?”, os pais podem começar a conversa a partir do que observaram, sem pressupor uma resposta, por exemplo: “Dizer que percebeu que o filho está mais quieto, perguntar como ele tem se sentido e deixar claro que existe disponibilidade para conversar pode ser mais efetivo do que tentar descobrir imediatamente o que está acontecendo,” destaca, observando que “também não é necessário exigir que o adolescente conte tudo de uma vez. O objetivo inicial é mostrar que existe um adulto disponível e disposto a ouvir.”
Quando é hora de buscar ajuda? – Nem todo sofrimento emocional exige a mesma resposta. Mudanças persistentes de comportamento, prejuízos importantes na rotina e sofrimento intenso, porém, indicam que pode ser necessário procurar avaliação profissional.
Situações como automutilação, falas recorrentes de desesperança ou qualquer menção a pensamentos ou intenção de tirar a própria vida exigem atenção imediata e não devem ser tratadas como uma fase da adolescência.
“A intervenção precoce é fundamental e essas falas jamais podem ser negligenciadas”, alerta Colombini. “Quanto antes o sofrimento é identificado e tratado, maiores serão as chances de reduzir prejuízos, fortalecer estratégias de enfrentamento e promover uma recuperação mais rápida”, afirma o psicólogo.
No Setembro Amarelo, a discussão sobre saúde mental na adolescência ganha espaço, mas a atenção não precisa ficar restrita ao mês de campanha. Segundo Colombini, para os pais, o primeiro passo não é tentar encontrar rapidamente uma explicação para o comportamento do filho, mas aprender a reconhecer quando alguma coisa mudou.
Mais do que vigiar cada comportamento, estar presente, manter o diálogo aberto e levar a sério mudanças persistentes pode fazer diferença. “E, sempre que necessário, a família deve buscar o apoio de profissionais especializados. Em situações mais delicadas, como quando há falas sobre morte, desesperança intensa ou ideação suicida, é fundamental procurar ajuda imediatamente”, explica Colombini.
O acompanhamento pode envolver psicólogo e, quando necessário, avaliação psiquiátrica. A orientação parental também pode contribuir para que os pais compreendam melhor o que está acontecendo e aprendam a manejar situações difíceis de maneira mais adequada. “O objetivo é não deixar a família sozinha diante de uma situação que ela não sabe como conduzir. Quanto mais cedo houver uma avaliação adequada, maiores são as possibilidades de intervir e reduzir os riscos”, afirma o psicólogo.
