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Câncer de esôfago cresce na população brasileira: a importância da prevenção

Foto: crédito-Freepik

A morte do ex-jogador de futebol Tato, campeão brasileiro de 1984 pelo Fluminense, no dia 27 de janeiro, aos 64 anos, ocorre no contexto de um tratamento oncológico para câncer de esôfago e reacende o alerta para uma doença que permanece fortemente associada a fatores de risco evitáveis e que atinge desproporcionalmente os homens. No Brasil, o câncer esofágico é quase três vezes mais frequente no sexo masculino e apresenta tendência de crescimento expressiva nas próximas décadas, segundo projeções internacionais.

De acordo com estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o câncer de esôfago, sexto tipo de tumor maligno mais incidente entre homens, foi diagnosticado em cerca de 8.200 brasileiros em 2025, número quase três vezes superior ao estimado para as brasileiras, com 2.790 casos. Em escala global, dados do Globocan, da Agência Internacional para Pesquisa do Câncer da Organização Mundial da Saúde (IARC/OMS), indicaram 365 mil novos casos anuais entre homens e 145 mil entre mulheres (2,5 vezes maior na população masculina mundial). Levantamento da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) mostrou que o Brasil apresentou a maior incidência em números absolutos da América Latina, embora ocupasse a quinta posição em prevalência, com 5,1 casos para cada 100 mil habitantes.

Casos recentes de figuras públicas reforçam a visibilidade do tema. Além de Tato, que tratava de um câncer de esôfago, o ex-presidente do Uruguai, José “Pepe” Mujica, anunciou em 2024 o diagnóstico da mesma doença.

Especialistas ressaltam que, apesar da gravidade, trata-se de um câncer amplamente prevenível. Segundo projeções do IARC/OMS, caso não sejam adotadas medidas efetivas de prevenção, o número anual de casos poderá saltar dos atuais 511 mil para 922 mil em 2050, um aumento de 80%.

“O câncer de esôfago é uma doença evitável. Temos a missão de disseminar conhecimento para a população por meio de campanhas de conscientização eficazes sobre as medidas que contribuem para a prevenção”, afirma o cirurgião oncológico Paulo Henrique de Sousa Fernandes, presidente da SBCO. As evidências científicas associam o surgimento da doença à irritação crônica do órgão, provocada por fatores como tabagismo, obesidade, consumo de bebidas alcoólicas, ingestão frequente de líquidos muito quentes e baixo consumo de frutas e vegetais. Também são considerados fatores de risco relevantes a doença do refluxo gastroesofágico e o esôfago de Barrett, condição pré-cancerosa decorrente de exposição prolongada ao ácido gástrico.

Entre as principais recomendações preventivas estão não fumar, evitar qualquer forma de consumo de tabaco e seus derivados, não ingerir bebidas alcoólicas, manter o peso adequado, tratar adequadamente o refluxo e adotar uma dieta rica em frutas e vegetais. “Mesmo em pequenas doses, o álcool aumenta o risco de câncer. Uma revisão recente de 62 estudos publicada na revista Cancer Epidemiology mostrou que não há consumo seguro nesse contexto”, explica Fernandes. Também é indicado evitar o hábito de ingerir líquidos em temperaturas muito elevadas, prática associada a maior risco de lesões crônicas no esôfago.

O câncer de esôfago é classificado de acordo com o tipo de célula envolvida. O carcinoma de células escamosas ocorre com maior frequência nas porções superior e média do órgão, enquanto o adenocarcinoma se desenvolve geralmente na porção inferior, a partir de células glandulares produtoras de muco. O tratamento cirúrgico baseia-se principalmente na esofagectomia, que consiste na retirada total ou parcial do esôfago com margem de segurança. Em muitos casos, o procedimento é precedido por quimioterapia ou radioterapia.

Existem diferentes técnicas cirúrgicas, como a esofagectomia transhiatal, indicada com maior frequência para adenocarcinomas, e a transtorácica, mais utilizada nos carcinomas de células escamosas. Ambas podem ser realizadas por via convencional ou minimamente invasiva, por laparoscopia ou por cirurgia robótica, com menor sangramento, menos dor e recuperação mais rápida. Após a retirada do órgão, o trânsito alimentar é reconstruído elevando-se o estômago até o remanescente do esôfago ou utilizando segmentos de outros órgãos digestivos para confeccionar um novo tubo alimentar.

A escolha do tratamento depende do estadiamento da doença e das condições clínicas do paciente. Em estágios iniciais, a cirurgia tem finalidade curativa e pode ser associada à ressecção endoscópica da mucosa. Em fases intermediárias, a quimiorradiação – seguida de cirurgia, é frequentemente indicada. Nos casos avançados, com metástases à distância, o tratamento busca aliviar sintomas, retardar a progressão da doença e preservar a qualidade de vida.

Dados do programa SEER, do Instituto Nacional de Câncer dos Estados Unidos, indicam que 48,1% dos pacientes diagnosticados em fase inicial alcançam cinco anos de sobrevida. No entanto, cerca de quatro em cada dez casos ainda são identificados já na presença de metástases. “Aumentar as taxas de diagnóstico precoce é a principal medida para reduzir a mortalidade”, ressalta Fernandes.

Nas fases iniciais, o câncer de esôfago costuma ser assintomático. Quando presentes, sinais como dificuldade para engolir, perda de peso sem causa aparente, dor torácica, azia persistente, tosse ou rouquidão devem motivar avaliação médica. O diagnóstico envolve exames radiológicos com contraste, endoscopia com biópsia e métodos de estadiamento, como ultrassom endoscópico, tomografia computadorizada e PET-CT.

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