Mulheres e neurodivergência – Por que o Autismo e o TDAH são tão difíceis de diagnosticar?

Dr. José Guilherme Giocondo: “Mulheres com autismo e TDAH relatam sentimentos de inadequação constante, pois cresceram ouvindo que deveriam se esforçar mais para se encaixar nos padrões sociais”
O termo neurodivergente refere-se à condição em que indivíduos possuem funcionamento cerebral diferente do padrão considerado neurotípico, ou seja, pessoas não diagnosticadas com transtornos psíquicos. Essa abordagem busca reconhecer a diversidade cognitiva, incluindo o Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e dislexia, entre outros, que são frequentemente identificados mais tarde na vida, muitas vezes, após a longos períodos de investigação e dificuldades no campo sócio afetivo, profissional e, no caso das crianças, na escola.
Com relação às mulheres, a ausência de um diagnóstico adequado pode impactar na prática de algumas atividades diárias e, sobretudo, nas relações interpessoais. Neste caso, os primeiros sinais já podem surgir na infância. É nesta fase que as meninas costumam ser rotuladas como “distraídas”, ansiosas ou simplesmente emotivas – fato que geralmente pode levar a problemas de autoestima, quadros de exaustão mental, depressão e até burnout.
Estudos apontam que entre 15% e 20% da população mundial sejam neurodivergente, ou seja, apresentam condições neurológicas que envolvem diferentes formas de processamento cognitivo. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que inclui a neurodivergência em suas pesquisas sobre deficiências, com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), realizada em 2023, o Brasil possui aproximadamente 18,9 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência.
Mas, como entender a neurodivergência? – “Normalmente, as mulheres com autismo e TDAH relatam sentimentos de inadequação constante, pois cresceram ouvindo que deveriam se esforçar mais para se encaixar nos padrões sociais. Essa cobrança excessiva e a falta de reconhecimento de suas dificuldades afetam à saúde mental e a qualidade de vida, explica o Dr. José Guilherme Giocondo, médico psiquiatra, especialista em autismo e TDAH, de São Paulo/SP.
Por décadas, os critérios diagnósticos para condições neurodivergentes foram baseados em estudos com predominância masculina, o que levou a um modelo que não abrange as particularidades das mulheres. Meninos com TDAH, geralmente, apresentam sintomas mais visíveis, como hiperatividade e impulsividade. Já no caso das meninas, o padrão de comportamento costuma variar como, distração excessiva, ansiedade e dificuldade de organização.
No caso do autismo (TEA) a situação é semelhante. Muitas mulheres autistas desenvolvem estratégias de “camuflagem social”, aprendendo a imitar determinados padrões sociais para evitar exclusão ou discriminação – o que pode ocasionar esgotamento emocional e aumentar a vulnerabilidade a transtornos, por exemplo, depressão e ansiedade.
Com o avanço das pesquisas e o aumento da conscientização sobre neurodivergência, mais mulheres têm conseguido identificar suas condições e buscar apoio adequado. “A neurodivergência no grupo feminino ainda carece de maior compreensão e visibilidade. O reconhecimento das especificidades femininas dentro do espectro neurodivergente é essencial para garantir que essas mulheres tenham acesso a diagnósticos mais precisos e a garantia de suporte necessário”, conclui Dr. Giocondo.