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Setembro Amarelo: quando os modelos de masculinidade interferem na busca do homem por ajuda

Normas de autocontrole, autossuficiência e desempenho atravessam diferentes gerações e podem fazer com que sofrimento apareça como isolamento, raiva ou sensação de fracasso antes de ser reconhecido como necessidade de ajuda

Crédito-foto:  Pixabay 

De cada dez pessoas que morreram por suicídio no Brasil em 2023, quase oito eram homens. Foram 12.663 mortes entre a população masculina, de um total de 16.207 registros, segundo dados o Relatório Anual Socioeconômico da Mulher 2025, do Ministério das Mulheres. A taxa foi de 12,1 mortes por 100 mil homens, ante 3,3 entre mulheres.

A diferença não significa que exista uma causa especificamente masculina para o suicídio, fenômeno reconhecidamente multifatorial. Mas ajuda a colocar uma pergunta em evidência neste Setembro Amarelo: de que forma os modelos de masculinidade interferem na maneira como homens reconhecem sofrimento e aceitam procurar ajuda?

Uma meta-análise publicada em 2025, no International Journal of Psychology, a partir de 35 amostras de diferentes estudos, encontrou associação entre maior adesão a normas tradicionais de masculinidade e atitudes mais negativas em relação à procura de ajuda psicológica, além de maior autoestigma por recorrer a esse tipo de cuidado.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta autossuficiência, dificuldade de expressar emoções e necessidade de autocontrole entre as principais barreiras relacionadas à masculinidade identificadas na busca por assistência em saúde mental.

Discutir os efeitos dessas normas sobre a saúde mental dos homens não significa ignorar as desigualdades de gênero. A própria OMS destaca que concepções rígidas de masculinidade podem, simultaneamente, prejudicar a saúde de homens e meninos, estimular comportamentos de risco e contribuir para a violência contra mulheres e meninas.

“Quando se reforça a ideia de que o homem não precisa de ajuda, reforça-se também um estereótipo de masculinidade baseado na autossuficiência. Esse é um modelo que pode dificultar a procura por cuidado”, afirma o psiquiatra Alaor Carlos de Oliveira Neto, coordenador do Serviço de Psiquiatria do Hospital Alemão Oswaldo Cruz/São Paulo/SP.

A velha autossuficiência em novas embalagens – Se o “homem não chora” marcou gerações anteriores, parte da discussão contemporânea sobre masculinidade aparece hoje sob outras linguagens: disciplina, domínio, independência, dinheiro, aparência, desempenho e aquisição de status.

Esse universo também ganhou expressão nas redes sociais por meio da chamada “manosfera”, comunidades digitais dedicadas a questões relacionadas aos homens e à masculinidade, do qual fazem parte vertentes como a redpill – que apresenta as relações afetivas e sexuais como uma disputa por poder e status, generaliza o comportamento feminino e atribui às mudanças sociais parte das frustrações vividas pelos homens.

Um estudo publicado em 2026 na revista Telematics and Informatics analisou 2.414 vídeos presentes nos históricos reais de TikTok de 142 homens entre 16 e 25 anos, da Austrália, Reino Unido e Estados Unidos. Narrativas diretamente associadas à “manosfera” apareceram em cerca de 6% dos vídeos.

Outros 38% foram classificados pelos pesquisadores como conteúdos aparentemente mais cotidianos que podiam funcionar como pontos de entrada para temas de masculinidade. Entre as categorias identificadas estavam busca por status masculino (envolvendo dominância, riqueza e supressão emocional) e conteúdos relacionados a misoginia, desesperança e comportamentos de risco.

O estudo não estabelece uma relação causal entre a exposição a esses conteúdos e problemas de saúde mental, mas ajuda a dimensionar como ideias sobre status, desempenho e relações de gênero passaram a integrar o ambiente digital cotidiano de homens jovens.

Também revela que é um ambiente no qual antigas normas podem voltar a circular sob novas formas, oferecendo respostas a questões como insegurança, rejeição, pertencimento e sensação de inadequação.

“Penso que existe um movimento pendular. Nos últimos anos, modelos tradicionais de masculinidade foram muito questionados e, como reação, aparecem grupos que tentam reafirmar determinados valores associados ao masculino. O problema é quando isso vai para extremos e volta a reforçar, por exemplo, a ideia de que o homem não precisa de ajuda”, avalia o psiquiatra.

Para Dr. Alaor, a própria transformação das expectativas masculinas torna o cenário mais complexo. “Ao mesmo tempo em que vemos discursos que recuperam uma masculinidade muito rígida, nunca houve tanta preocupação masculina com aparência e estética, por exemplo. Isso mostra que o modelo não é exatamente o mesmo de décadas atrás. As formas de cobrança mudam, embora algumas expectativas de força e autossuficiência permaneçam.”

Quando a ajuda só chega na crise – O problema se torna particularmente importante quando reconhecer a necessidade de ajuda é adiado até que o sofrimento já esteja em uma situação aguda.

“Quando a pessoa chega ao Pronto Atendimento em uma situação de crise, nossa atuação é avaliar aquele momento e oferecer o suporte necessário. Também buscamos orientar e encaminhar esse paciente para que exista uma continuidade do tratamento. O cuidado não pode ser pensado apenas como aquele episódio agudo”, explica o médico.

Ao mesmo tempo, o especialista ressalta que avaliação de risco não significa ser capaz de prever todos os casos. “O que podemos fazer é ampliar nossa capacidade de reconhecer o perigo e intervir nas oportunidades que aparecem. Para isso, o canal de cuidado precisa estar aberto para que a pessoa consiga procurar ajuda quando precisa”, afirma. É justamente aí que, segundo o psiquiatra, uma discussão sobre masculinidade encontra o Setembro Amarelo: menos na ideia genérica de que homens precisam “falar sobre sentimentos” e mais na necessidade de questionar modelos nos quais admitir vulnerabilidade ou depender de alguém é interpretado como fracasso.

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