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Saúde mental também é prioridade: por que esperamos a dor ficar insuportável para pedir ajuda?

Psicólogo Vagner Rocha:“assim como cuidamos preventivamente da saúde física, também podemos prestar atenção à nossa saúde mental antes que uma situação se agrave.”

Foto-crédito: Divulgação

Se o joelho dói, procuramos um médico. Se temos uma forte dor de cabeça ou uma dor nas costas que persiste, buscamos uma solução. Quando o corpo manifesta algo de forma clara, dificilmente conseguimos ignorá-lo por muito tempo. Mas o que acontece quando a dor não aparece de forma tão visível?

Ansiedade, angústia, medo, tristeza, culpa, luto e outros sofrimentos emocionais podem ser silenciosos e, justamente por isso, muitas vezes são adiados. “Eu vou dar um jeito”, “isso vai passar”, “é só uma fase” e “depois eu cuido disso” são pensamentos comuns de quem tenta manter a rotina mesmo quando algo não vai bem.

Para o psicólogo e mentor de carreiras Vagner Rocha, em São Paulo/SP, esse comportamento revela uma dificuldade de reconhecer que a saúde mental também precisa de atenção antes de uma situação chegar ao limite.

“Existe uma tendência de procurarmos ajuda somente quando o sofrimento já está interferindo na nossa capacidade de trabalhar, dormir, nos relacionar ou realizar atividades que antes faziam parte da nossa rotina. Mas não precisamos esperar chegar a esse ponto. Assim como cuidamos preventivamente da saúde física, também podemos prestar atenção à nossa saúde mental antes que uma situação se agrave”, afirma.

A dimensão do problema ajuda a explicar por que essa discussão é cada vez mais necessária. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), quase uma em cada sete pessoas no mundo, cerca de 1,2 bilhão de pessoas, vivia com algum transtorno mental em 2023. Ansiedade e depressão estão entre os transtornos mais comuns.

No Brasil, o tema está sendo investigado de forma inédita. A Pesquisa Nacional de Saúde Mental (PNSM-Brasil), coordenada pelo Ministério da Saúde em parceria com a Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), começou a coleta de dados em março de 2026 e pretende realizar aproximadamente 10 mil entrevistas com adultos de todo o país.

Até 28 de agosto, o levantamento já havia passado por 197 municípios de 26 unidades federativas, alcançado 619 setores censitários (menor unidade territorial utilizada pelo  IBGE para planejar, coletar e divulgar os dados de pesquisas e do Censo Demográfico) e realizado 1.011 entrevistas completas. O plano amostral prevê 1.626 setores censitários e 16.260 domicílios.

A pesquisa utiliza amostragem probabilística e busca produzir informações nacionais sobre a ocorrência de transtornos mentais na população adulta, os fatores associados ao sofrimento psíquico, as condições sociais e econômicas e o acesso ao cuidado. Os resultados poderão contribuir para o planejamento e o monitoramento das ações de saúde mental no SUS e para a organização da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).

O próprio trabalho de campo revela um aspecto importante para a discussão. Segundo os pesquisadores, o estigma associado aos temas de saúde mental pode influenciar a disposição de algumas pessoas em falar sobre suas próprias experiências. Também foram identificadas dúvidas de moradores sobre a legitimidade da pesquisa durante a coleta.

Para Vagner, esse silêncio pode ser uma das razões pelas quais tantas pessoas adiam a busca por ajuda. “Se ainda existe dificuldade para falar sobre saúde mental, é natural que muitas pessoas também tenham dificuldade para reconhecer que precisam de ajuda. Às vezes, não é que a pessoa não esteja sofrendo. Ela simplesmente aprendeu a esconder, minimizar ou adiar aquilo que sente”.

Segundo ele, “precisamos construir uma relação diferente com a nossa saúde mental: falar sobre ela antes da crise, olhar para os sinais e entender que pedir ajuda também é uma forma de prevenção. ”

Nem toda dor precisa esperar piorar para Vagner, um dos pontos importantes da discussão é diferenciar o autocuidado cotidiano da necessidade de buscar ajuda especializada.

Conversar com um amigo, praticar atividade física, descansar, viajar, ouvir música, assistir a um filme ou simplesmente reservar um tempo para si podem contribuir para o bem-estar. Mas essas estratégias não devem ser utilizadas para esconder ou adiar indefinidamente um sofrimento que permanece.

“Autocuidado também é prestar atenção em si. É perceber que alguma coisa mudou, reconhecer os próprios limites e conseguir dizer: ‘isso está difícil para mim’. Pedir ajuda não significa que a pessoa fracassou em lidar com a própria vida. Significa reconhecer que, naquele momento, seus recursos podem não estar sendo suficientes”, explica.

Entre os sinais que merecem atenção estão mudanças persistentes no sono, alterações de humor, perda de interesse por atividades antes prazerosas, dificuldade de concentração, isolamento, sensação constante de sobrecarga e um sofrimento que começa a interferir na vida cotidiana e nos relacionamentos.

“O sofrimento emocional nem sempre chega fazendo barulho. Às vezes, ele aparece aos poucos: na irritabilidade que se torna frequente, no sono que deixa de ser reparador, na falta de vontade de fazer coisas que antes davam prazer ou na sensação de estar apenas funcionando no automático. Aprender a reconhecer esses sinais pode ser uma forma importante de prevenção”, diz Vagner.

Outro ponto que pode ser abordado pelo especialista é a relação entre saúde mental e saúde física. O sofrimento emocional pode estar associado a alterações no sono, na concentração, na disposição e no comportamento e, em algumas situações, também aparecer acompanhado de sintomas físicos.

Isso não significa atribuir automaticamente qualquer sintoma físico a uma questão emocional, mas reforça a importância de uma visão integral da saúde.

“Não somos divididos em uma pessoa física e outra emocional. Corpo e mente estão relacionados. Por isso, quando alguma coisa muda de maneira persistente, vale olhar para o conjunto e buscar a orientação adequada afirma o psicólogo. Saúde mental não deveria ser o último item da lista”

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