Estudo comprova influência dos Médicos de Família na melhoria dos resultados no SUS

Crédito-foto: Freepik
Um estudo publicado recentemente na BMJ Open, um importante periódico internacional, apresenta evidências robustas de que médicos especialistas em Medicina de Família e Comunidade (MFC) têm papel essencial na qualificação dos resultados da Atenção Primária à Saúde (APS). A pesquisa aponta que a presença desses profissionais nas equipes de saúde da família (ESF) reduz significativamente as internações hospitalares por condições sensíveis à atenção primária (ICSAP), com repercussões inclusive em economia expressiva de custos para o Sistema Único de Saúde (SUS).
Conduzida pelos médicos de família e comunidade Gregório Victor Rodrigues, Luís Guilherme de Mendonça e Marcelo Pelizzaro, a pesquisa analisou mais de 600 mil hospitalizações ocorridas em Belo Horizonte entre 2017 e 2021. Geolocalizando tais internações para as áreas de adscrição dos 152 centros de saúde da cidade, foi observado que as unidades de saúde com maior proporção de carga horária de médicos com residência em MFC apresentaram uma redução de cerca de 11,89% nas internações evitáveis, o que indica que os pacientes sob cuidado tiveram suas condições de saúde tratadas, controladas ou prevenidas na atenção primária antes que evoluíssem para uma internação.
Esse resultado geral já chama a atenção, mas quando estratificado pelos grupos de ICSAP é possível perceber que impacto foi especialmente marcante nas seguintes condições: diabetes: redução de 32,8% das internações; doenças respiratórias: redução de 19,4%; asma: redução de 19,5% e pneumonias bacterianas: redução de 15,6%.
Além disso, o estudo revelou que as repercussões da capacidade do médico da APS também se estendem para os aspectos econômicos: diminuição de 10,58% nos custos com internações, evidenciando uma alternativa altamente custo-efetiva para o sistema público de saúde.
De acordo com o Dr. Gregório Rodrigues, médico de família e comunidade, um dos autores do estudo, “as condições sensíveis à Atenção Primária incluem doenças comuns, como diabetes, asma, doenças pulmonares e pneumonias, que podem ser manejadas adequadamente na rede primária. Quando há falhas no cuidado, esses casos evoluem para internações, gerando maior sofrimento para a população e aumentando os custos hospitalares que são muito superiores aos da atenção primária. Esses resultados reforçam o impacto direto da APS bem estruturada na saúde pública e na sustentabilidade financeira do sistema. Uma Atenção Primária forte significa um sistema mais efetivo como um todo. Mas uma Atenção Primária forte precisa de qualificação, inclusive profissional”.
Diante disso, os autores sugerem: a economia resultante da redução das internações pode ser estrategicamente reinvestida em ações de fortalecimento, através de medidas como:
- Remuneração competitiva para atrair e manter médicos na linha de frente;
- Valorização e ampliação da residência médica em Medicina de Família e Comunidade, com expansão de vagas e incentivos para novos ingressantes;
- Pagamento adequado para preceptores, reconhecendo o papel formador e estratégico desses profissionais na qualificação das futuras gerações;
- Tempo protegido para ensino e supervisão, garantindo que a formação ocorra com qualidade, sem sobrecarga assistencial;
- Incentivos à permanência em territórios vulneráveis, com políticas que promovam estabilidade, reconhecimento e progressão de carreira, dentre outras.
“A pesquisa destaca que investir em médicos de família e comunidade, profissionais treinados para oferecer cuidado integral, contínuo e coordenado, representa uma das formas mais efetivas de reduzir gastos desnecessários com hospitalizações. E essa é uma das bases da Medicina de Família e Comunidade, tratar, cuidar e acolher dentro do território da pessoa atendida, evitando ao máximo não apenas a ida ao pronto-socorro por uma questão que a Atenção Primária pode resolver, mas também internações que podem ser prevenidas, a partir do acompanhamento médico efetivo e longitudinal”, reforça Fabiano Guimarães, presidente da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade.
A Medicina de Família e Comunidade é uma especialidade médica, assim como a cardiologia, neurologia e ginecologia, entre outras. O médico de família e comunidade (MFC) é o especialista em cuidar das pessoas, da família e da comunidade no contexto da atenção primária à saúde. Ele acompanha as pessoas ao longo da vida, independentemente do gênero, idade ou possível doença, integrando ações de promoção, prevenção e recuperação da saúde.
Ele é um clínico e comunicador habilidoso, pois utiliza abordagem centrada na pessoa e é capaz de resolver pelo menos 90% dos problemas de saúde, manejar sintomas inespecíficos e realizar ações preventivas. É um coordenador do cuidado, trabalha em equipe e em rede, advoga em prol da saúde dos seus pacientes e da comunidade.
