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Saúde Mental e Emocional das Crianças

A psicanalista Silvia Grebler Myssior: “se o confinamento não for bem conduzido, acaba atingindo a saúde física e mental da criança”

Principalmente nesses novos tempos, as atenções sobre o desenvolvimento emocional e mental das crianças passaram a ter uma preocupação maior devido à pandemia e às medidas sanitárias. Para saber como esse momento afeta este processo, o Portal Medicina e Saúde entrevistou a psicanalista Silvia Grebler Myssior, membro da Aleph – Escola de Psicanálise e Mestre em Ciências da Saúde da Criança e do Adolescente pelo Departamento de Pediatria da UFMG, com Clínica psicanalítica para crianças, adolescentes e adultos instalada em Belo Horizonte – Minas Gerais.

Dra. Silvia, quais as principais questões emocionais vivenciadas pelas crianças, hoje?

Bem, as crianças crescem e se desenvolvem justamente através de suas questões emocionais. Como a criança está em construção, a cada tempo ela vai se deparando com os impasses que fazem parte da vida, e vai experimentando o ter que se articular com o que as pessoas significativas de seu entorno lhe apresentam. Muitas vezes, esses pontos de crescimento lhe trazem dificuldades e ela “emperra”. É aí que podemos falar dos principais sintomas, inibições e angústias que se apresentam na infância: alguns mais leves, como dificuldades de sono, na alimentação, fobias, impasses na linguagem, na aprendizagem… Pode-se dizer que a maior parte deles se manifesta agenciado pela angústia à deriva.

Recentemente alguns comportamentos têm sido inseridos nos Manuais Psiquiátricos, como TADH, TOD, TOC e outros mais, constituindo uma ampliação de “síndromes” e “distúrbios”, uma verdadeira sopa de letrinhas que vem rotular a criança e o adolescente e que a indústria farmacêutica faz corresponder a cada um deles uma medicação.

Sob o enfoque psicanalítico, nada mais são do que manifestações dos vários impasses emocionais a que nossas crianças e nossos adolescentes estão sujeitos e que são tratáveis pela psicanálise, sem medicação.  Há sintomas mais graves que também podem ocorrer muito precocemente, como problemas em torno dos vínculos maternos, comportamentos autísticos, agressividade e impulsividade exacerbadas e outros, dos quais sempre se deve pesquisar as causas e buscar tratamento.

Estas questões têm sido exacerbadas pela pandemia?

Sim. O fato de a criança sair completamente da rotina em que vinha vivendo, tendo há mais de um ano contatos sociais restritos, escolas fechadas, confinamento doméstico com os adultos (grande parte do tempo em casa), tudo isso faz diferença. Mas não podemos dizer de uma “síndrome” coletiva comum às crianças, e sim, de como tem sido possível a cada uma responder a essas mudanças em seu entorno, com os recursos que lhe são próprios. É importante considerar como os pais e responsáveis lidam com as restrições, pois isso vai ter influência direta na tolerância à frustração que a criança vai perceber nos adultos.

E como as crianças estão lidando com toda essa situação como, uso de máscaras, distanciamento social, rotinas higiênicas, aulas virtuais, distanciamento social?

Bem, vejam que são tantas as questões que as crianças estão tendo que encarar, não é mesmo? O uso de máscaras, os protocolos de higienização, ao contrário do que muitos supõem, não têm sido problemas para as crianças…. desde que os adultos em torno dela encarem isso como necessário e falem sobre isso. Se o confinamento não for bem conduzido, acaba atingindo a saúde física e mental da criança. 

Quanto à preocupação de que as medidas necessárias não vão ser cumpridas na volta às aulas, isso parece infundado, já que em muitos países o convívio escolar ocorre há muito tempo, com a adequada cooperação dos alunos.

Já as aulas virtuais, pela sua intensidade forçada, têm desagradado a maior parte das crianças, tornando-se para algumas até insuportáveis. O isolamento social também não tem feito nada bem às crianças! Elas anseiam pela volta à escola, estão doidas para encontrar os colegas, professores, enfim, a rotina escolar com tudo que ela tem de fundamental para a criança.

Nesse contexto, a morte tem sido uma constante. Como elas estão lidando com ela?

Ah, isso é muito sério: estar diante da morte é sempre traumático! Ainda que crianças e adolescentes não sejam a população que mais morra por causa do vírus, elas são vítimas indiretas dessa crise descontrolada. Um dos grandes impactos da pandemia é sujeitar as crianças, por vezes ainda muito jovens, a essa maior vulnerabilidade para o ser humano, que é a morte. Além do que, entre as vítimas da covid estão pais e mães que deixaram precocemente seus filhos, colocando-as, de todo modo, num tal desamparo, que eles, mesmo dispondo de familiares como pais substitutos, vão precisar de muito trabalho psíquico para lidar com isso.

O que fazer, diante do inexorável da morte? 

Um agravante do distanciamento físico é a ausência dos rituais de despedida do ente querido. As crianças precisam do apoio dos adultos (muitas vezes, enlutados…) para lidar com isso. A morte, sempre vista como futura, quando se precisa enfrenta-la é sempre uma enorme perda na infância. Nesse momento, é muito importante acolher a criança, desfazer a solidão, abrir espaço para que ela se expresse livremente sobre o que aconteceu, mas também respeitando seu silêncio.

A perda de um ente querido traz sentimentos como o medo, ansiedade, raiva, angústia. Precisamos admitir essas expressões de sentimentos, sem transformá-los em anomalias, pois se trata de um trabalho de luto.

O recente caso do menino Henry disparou um alerta. Quais os tipos de abusos a que as crianças estão sujeitas?

Bom, Henry é um caso paradigmático de violência doméstica, mas não é o único. Dias depois vimos chegar, em série, o caso de uma menina de seis anos, também espancada até a morte pela mãe e pela madrasta. A violência doméstica sempre existiu e sempre foi muito encoberta. Mas durante a pandemia, as crianças estão verdadeiramente mais expostas aos riscos diante de adultos agressivos. E relata-se um aumento de abusos e violências contra crianças e adolescentes, sendo crescentes os eventos agressivos ocorridos no contexto de um grande estresse familiar. É fato que hoje estamos diante de uma gama de insatisfações represadas em casa, mas nada justifica que se projete isso nas crianças. O que é assustador é que a violência intrafamiliar é difícil de ser desvendada, pois os agressores são na maior parte, os próprios responsáveis: pai, mãe, padrasto, namorado, parente ou conhecido das vítimas.

A violência deixa sequelas?

Sim, deixa sequelas! Pais, pessoas em geral que conviveram em casa com a violência tendem a reproduzir essa forma de lidar com os filhos. Muitas vezes a violência se esconde sob o disfarce de “educar”, através de surras, puxões de cabelo, palmadas, gritos e as mais diversas formas de exigir disciplina. Os abusos contra crianças e adolescentes se estendem desde a agressões físicas, morais, sexuais, e até químicas.

Como combater a violência doméstica infantil?

Violências que podiam ocorrer anteriormente vão se manter e podem se agravar durante a pandemia. Diante disso, reconhece-se, mais uma vez, o papel protetor da escola, onde a identificação com o professor e seu acolhimento podem facilitar a quebra do silêncio do que anda ocorrendo em casa.  Adultos que estão em torno da criança podem recorrer a uma rede de proteção e cuidados que possam garantir o encaminhamento do assunto para garantir os direitos da criança. 

Com o retorno às aulas e à vida normal, quais as marcas que ficarão nessas crianças e como dar conta delas?

Não sabemos ainda exatamente quais os efeitos psíquicos em cada um, efeitos advindos da exposição a essa guerra sanitária que estamos passando. Vamos precisar de um tempo para fazer face às consequências do isolamento social e do afastamento da escola, a médio e longo prazos.  Mas podemos supor que uma retomada ao “normal” levará algum tempo e vai requerer trabalho psíquico das crianças, adolescentes e adultos para se recolocarem numa nova rotina. Precisamos observar e ficar atentos frente ao sofrimento, sobretudo dos mais vulneráveis e que se apresentam como não tendo ferramentas suficientes para transpor as dificuldades.

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