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Autismo: a importância de um diagnóstico criterioso

Dra. Anna Dominguez Bohn: “estamos, de fato, diante de um aumento real de casos?”

Cada vez mais se fala sobre o autismo e o aumento no número de diagnósticos ao redor do mundo. Nos Estados Unidos, a estimativa mais recente do Centers for Disease Control and Prevention – CDC, divulgada em 2025, aponta que 1 em cada 31 crianças está no espectro autista, um crescimento expressivo em comparação com os anos 2000, quando a prevalência era de 1 para cada 150, e na década de 2010, quando passou para 1 em cada 69.

Esse cenário levanta dúvidas frequentes: estamos, de fato, diante de um aumento real de casos, ou há outros fatores envolvidos? Segundo a pediatra Anna Dominguez Bohn, de São Paulo/SP, duas principais hipóteses ajudam a explicar esse fenômeno. Segundo ela, “o aumento dos diagnósticos está muito relacionado ao avanço da ciência, com melhores ferramentas e maior compreensão do desenvolvimento infantil. Além disso, fatores ambientais e do estilo de vida moderno ainda estão sendo estudados e podem ter influência, embora não estejam totalmente esclarecidos”.

Conforme ela explica, o Transtorno do Espectro Autista (TEA) não é identificado por exames laboratoriais ou de imagem. O diagnóstico é clínico e baseado em critérios internacionais que avaliam o comportamento e o desenvolvimento da criança. “Não existe um exame único que confirme o autismo. O diagnóstico exige uma avaliação criteriosa, feita ao longo do tempo e em diferentes contextos, observando padrões de comportamento e interação social”, observa.

Um espectro, múltiplas formas – O TEA é caracterizado por grande diversidade de manifestações. Hoje, o diagnóstico considera principalmente dois grandes grupos de sinais: dificuldades na comunicação social e padrões de comportamento repetitivos ou interesses restritos. “Cada criança dentro do espectro é única. Algumas podem ter linguagem altamente desenvolvida, mas apresentar dificuldades na interação social ou na compreensão de sinais não verbais”, acrescenta a médica. Essa variabilidade torna o diagnóstico um desafio, especialmente nos casos mais leves, que podem passar despercebidos ou, ao contrário, receberem uma avaliação equivocada. 

Diagnóstico precoce faz diferença – Um estudo publicado em 2025, no Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry, demonstrou que a aplicação sistemática de triagem para autismo em consultas pediátricas pode antecipar o diagnóstico em meses decisivos para o desenvolvimento infantil. A pesquisa, que acompanhou cerca de 5 mil crianças, mostrou que aquelas submetidas a rastreio padronizado foram encaminhadas para avaliação mais cedo, em média aos 20 meses, contra 24 meses no grupo sem triagem sistemática. “Essa diferença de poucos meses é extremamente relevante. Estamos falando de um período de intensa plasticidade cerebral, em que intervenções precoces podem mudar significativamente o desenvolvimento da criança”, afirma a pediatra. Além disso, o rastreamento precoce permitiu identificar crianças com sinais mais sutis, que provavelmente demorariam mais para receber diagnóstico.

Mais do que um diagnóstico – De acordo com a Dra. Anna Dominguez, apesar das discussões sobre aumento de casos, especialistas reforçam que o diagnóstico não deve ser visto como um rótulo, mas como uma ferramenta. O diagnóstico, afirma, “não é o fim, mas um ponto de partida. Ele permite entender as necessidades e potencialidades de cada criança, direcionando intervenções mais adequadas e promovendo melhor qualidade de vida”.

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