Bets chegam ao trabalho e acendem alerta para a saúde mental

Avanço das apostas on-line já aparece no cotidiano das empresas e já afetam concentração, produtividade e relações profissionais.
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O número de processos judiciais envolvendo casas de apostas saltou de 710, em 2024, para 5.448, em 2025 — um crescimento de 667% em apenas um ano. O dado revela a velocidade com que as bets passaram a ocupar espaço na vida dos brasileiros e ajuda a dimensionar um problema que começa a ultrapassar as fronteiras do entretenimento e das finanças, gerando impactos sobre a saúde mental e o ambiente de trabalho.
O avanço ocorre em paralelo ao aumento dos casos relacionados ao Transtorno do Jogo. Segundo levantamento do Ministério da Saúde, os atendimentos relacionados ao transtorno na rede pública cresceram mais de 100% entre 2018 e 2025. Estimativas da UNIFESP indicam que 10,9 milhões de brasileiros que apostam já apresentam prejuízos emocionais, familiares ou profissionais associados às bets. Desse grupo, cerca de 1,4 milhão atende aos critérios para Transtorno do Jogo.
Mais de 574 mil pessoas já solicitaram voluntariamente a autoexclusão das plataformas regulamentadas, outro indicador de que parte dos usuários reconhece ter perdido o controle sobre o comportamento.
Para as empresas, os números representam um sinal de alerta. A compulsão por apostas pode se manifestar no cotidiano profissional por meio de dificuldade de concentração, queda de rendimento, preocupação constante com dinheiro, uso frequente do celular para acompanhar resultados, conflitos e até problemas relacionados à segurança.
De entretenimento a risco psicossocial – Durante muito tempo, apostar foi associado principalmente a loterias, corridas de cavalos ou jogos presenciais. Com a popularização das plataformas digitais, porém, o acesso passou a caber na palma da mão. Uma aposta pode ser feita em poucos segundos, durante uma partida de futebol, no transporte público, em casa ou até durante o expediente.
A presença constante das bets em transmissões esportivas, redes sociais, publicidade e grupos de amigos contribuiu para a normalização desse comportamento. Em alguns ambientes profissionais, o tema também aparece em conversas informais, grupos de mensagens e até bolões.
O problema surge quando a aposta deixa de ser uma atividade ocasional e passa a ocupar espaço excessivo na rotina. Um levantamento da Predictus, realizado a partir da classificação por inteligência artificial de uma base com mais de 750 milhões de processos judiciais, identificou 10.627 ações envolvendo casas de apostas, distribuídas pelos 27 estados brasileiros e por 83 tribunais.
Na comparação entre 2018 e 2025, o crescimento também chama atenção, já que o número de processos passou de 26 para 5.448, representando uma alta superior a 200 vezes.
O marco regulatório de janeiro de 2025 aparece como um divisor de águas. Antes dele, eram registrados, em média, 14,6 processos por mês. Depois da regulamentação, a média chegou a 557,9 ações mensais, um aumento de aproximadamente 38 vezes. O pico ocorreu em março de 2026, quando 1.004 novos processos foram distribuídos em um único mês.
Embora processos judiciais e transtornos relacionados ao jogo sejam indicadores diferentes, os números ajudam a mostrar a dimensão que o fenômeno vem assumindo no país.
Quando a aposta chega ao trabalho – No ambiente corporativo, os sinais podem aparecer antes mesmo de qualquer diagnóstico. De acordo com a psicóloga Fátima Macedo, especializada em saúde mental corporativa e CEO da Mental Clean, em São Paulo-SP, “quedas no rendimento, atrasos, preocupação constante com dinheiro, uso frequente do celular para acompanhar apostas durante o expediente, pedidos recorrentes de empréstimos aos colegas, às lideranças e à empresa, conflitos interpessoais e dificuldade de concentração podem representar sinais de alerta que merecem acolhimento e encaminhamento adequado, pois ampliam os riscos para trabalhadores e organizações”, afirma, enfatizando que o avanço dos casos relacionados ao Transtorno do Jogo já é uma realidade que precisa ser considerada pelas organizações.
O impacto não necessariamente aparece de forma imediata. Uma pessoa pode começar a acompanhar resultados durante o horário de trabalho, perder tempo de produtividade, comprometer o sono por passar horas acompanhando partidas ou enfrentar dificuldades financeiras que acabam repercutindo nas relações com colegas e familiares. Em atividades nas quais atenção e concentração são fundamentais para a segurança, o problema pode ganhar uma dimensão ainda mais crítica, observa.
Por que é tão difícil parar? – A facilidade de acesso é apenas uma parte da equação. Publicidade intensa, influenciadores digitais, promessa de ganhos rápidos e a associação das apostas ao esporte ajudam a criar a percepção de que apostar é apenas uma forma de diversão.
Para Patrícia França, também psicóloga especialista em comportamentos compulsivos da Mental Clean, em São Paulo/SP, existe também um mecanismo psicológico que contribui para a manutenção do comportamento. “A sensação de estar ‘quase ganhando’ mantém o cérebro na expectativa de um resultado positivo, ativa o sistema cerebral de recompensa e desencadeia a liberação de dopamina de forma semelhante ao que ocorre quando a pessoa efetivamente vence uma aposta. Esse mecanismo reforça o comportamento e torna cada vez mais difícil interromper o ciclo das apostas”, explica.
A situação pode se agravar quando o jogador passa a apostar para recuperar perdas. O chamado “só mais uma aposta” pode criar um ciclo em que novas apostas são utilizadas para tentar compensar prejuízos anteriores, ampliando progressivamente o problema financeiro e emocional.
NR-1 amplia responsabilidade das empresas – A atualização da NR-1 trouxe mais atenção para o gerenciamento dos riscos psicossociais relacionados ao trabalho. Embora a norma não mencione especificamente as apostas on-line, ela estabelece a necessidade de que as organizações identifiquem, avaliem e controlem fatores capazes de comprometer a saúde e a segurança dos trabalhadores. Nesse cenário, as bets podem ser incorporadas às iniciativas mais amplas de promoção da saúde mental e prevenção de comportamentos compulsivos.
A estratégia, entretanto, não deve ser transformar gestores em fiscais da vida pessoal ou financeira dos funcionários. O foco deve estar na prevenção, na informação e na criação de canais seguros de acolhimento. Palestras, rodas de conversa, campanhas educativas, materiais informativos e treinamento das lideranças podem contribuir para reduzir o estigma e facilitar a identificação precoce de situações de risco.
Também é importante preparar os gestores para reconhecer mudanças de comportamento sem tentar diagnosticar o trabalhador. Quedas de produtividade, atrasos, faltas, conflitos e dificuldade de concentração podem ter diversas causas. O papel da liderança é acolher, conversar de maneira respeitosa e orientar para os canais adequados de apoio.
O melhor momento para agir é antes da crise – Para quem já desenvolveu o Transtorno do Jogo, a recomendação é buscar ajuda profissional e não enfrentar a situação sozinho. Psicoterapia, acompanhamento psiquiátrico quando indicado, orientação financeira, grupos de apoio e recursos como a autoexclusão das plataformas regulamentadas podem fazer parte do processo de recuperação.
Para as empresas, o desafio é antecipar-se ao problema, já que a aposta que começa como entretenimento pode se transformar em dívida, ansiedade, conflitos familiares, perda de concentração e queda de desempenho. Quando esses efeitos chegam ao expediente, deixam de ser apenas uma questão individual e passam a fazer parte da discussão sobre saúde mental, segurança e riscos psicossociais no trabalho.




