Com o envelhecimento da população, glaucoma deve afetar mais de 110 milhões em todo o mundo até 2040

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O avanço do glaucoma no mundo acompanha, em ritmo proporcional, o envelhecimento da população global. Se em 2013, 64,3 milhões de pessoas, entre 40 e 80 anos, viviam com a doença, esse contingente pode chegar a 111,8 milhões até 2040: um crescimento de 74% em menos de três décadas. O alerta é do recente World Glaucoma Association (WGA), que, entre os dias 8 e 14 de março, promoveu a World Glaucoma Week 2026 (Semana Mundial do Glaucoma), uma ação mundial de estímulo à prevenção e ao tratamento da principal causa de cegueira irreversível no mundo.
A base demográfica que sustenta essa escalada está nas projeções das Perspectivas da População Mundial da Organização das Nações Unidas, que apontam um crescimento expressivo da população justamente na faixa etária de maior risco. Em 2013, o mundo concentrava 2,33 bilhões de pessoas entre 40 e 80 anos, número que deve chegar a 3,61 bilhões, em 2040, com um acréscimo de aproximadamente 1,28 bilhão de pessoas nos grupos mais vulneráveis ao desenvolvimento da doença.
Um dos aspectos mais alarmantes dessa projeção é o elevado número de pessoas que convivem com o glaucoma sem diagnóstico. Nesse sentido, “a Semana do Glaucoma é uma oportunidade vital para lançar luz sobre esta condição que pode ameaçar a visão e que, muitas vezes, não apresenta sintomas precoces. Ela aumenta a conscientização, educa o público e incentiva exames oftalmológicos regulares, porque a detecção precoce pode salvar a visão”, explica Dra. Miriam Kolko, de Copenhagen /Dinamarca, copresidente do Comitê de Pacientes da WGA.
Prevalência – Uma metanálise que reuniu 50 estudos populacionais com indivíduos entre 40 e 80 anos, publicada no periódico científico Ophthalmology, sob o título “Global Prevalence of Glaucoma and Projections of Glaucoma Burden through 2040: A Systematic Review and Meta-Analysis”, delineou um panorama global da doença e estimou a prevalência mundial do glaucoma nessa faixa etária em 3,54%.
Entre as diferentes formas da doença, o glaucoma primário de ângulo aberto é o mais comum, com prevalência mundial estimada em 3,05% na faixa etária analisada. Em termos práticos, isso significa que, a cada 100 adultos, cerca de três convivem com esse tipo de doença. Já o glaucoma primário de ângulo fechado apresenta prevalência de aproximadamente 0,50%, o que equivale a um caso a cada 200 pessoas. Considerando ambos os principais tipos primários, estima-se que entre três e quatro pessoas em cada grupo de 100 possam ter algum tipo de glaucoma, número que aumenta com o avanço da idade.
Em ambos os tipos, o dano ocorre gradualmente no nervo óptico, estrutura responsável por transmitir as informações visuais ao cérebro. Quando o campo visual começa a se estreitar e a perda se torna perceptível, parte significativa da visão já foi comprometida de forma irreversível. Diferentemente de outras doenças oculares, o glaucoma não permite a recuperação da visão perdida. O tratamento disponível consegue apenas retardar ou estabilizar a progressão, evitando que o prejuízo avance.
Envelhecimento – A idade avançada é o fator de risco mais consistente para o desenvolvimento da doença. O risco de desenvolver glaucoma primário de ângulo aberto aumenta 1,73 vezes a cada década de vida. O impacto da idade, contudo, não se distribui de forma homogênea entre etnias e regiões. Embora pessoas de ancestralidade africana apresentem as maiores prevalências em todas as faixas etárias, europeus e hispânicos registram aumento mais acentuado da prevalência à medida que envelhecem.
Pelo estudo, a América do Norte e Oceania concentram as maiores chances de desenvolver glaucoma a cada década de vida. Já na Ásia e na África, o crescimento projetado do número de casos é bem mais expressivo, impulsionado pelo rápido aumento da expectativa de vida, enquanto na Europa e na América do Norte, onde a população já é mais envelhecida e cresce de forma mais lenta, a evolução do volume de casos tende a ser leve.
Gênero e ancestralidade – De acordo Com periódico da Ophthalmology, os homens apresentam probabilidade 36% maior de desenvolver a doença em comparação com as mulheres. A análise reuniu dados de 37 artigos com informações estratificadas por gênero e faixa etária, o que permitiu observar a diferença entre homens e mulheres no glaucoma de ângulo aberto. Já no caso do glaucoma de ângulo fechado, a escassez de casos em regiões não asiáticas, como África, América do Norte e Europa, impediu a realização de análise estratificada por sexo, tanto para esse subtipo quanto para o total de glaucoma combinado.
Segundo o estudo, pessoas de ascendência africana integram o grupo com a maior carga global de glaucoma, com prevalência total estimada em 6,11%, sendo 5,40% dos casos relacionados ao glaucoma primário de ângulo aberto. Além disso, esse grupo apresenta risco 2,80 vezes maior de desenvolver o subtipo, quando comparado a indivíduos de ancestralidade europeia, e 2,05 vezes superior em relação aos de ancestralidade asiática. Nos Estados Unidos, a prevalência do ângulo aberto entre pessoas negras também supera a observada entre pessoas brancas.
A ancestralidade asiática, por sua vez, destaca-se pela maior prevalência mundial de glaucoma primário de ângulo fechado, estimada em 1,20%, o que ajuda a explicar o fato de a Ásia concentrar 76,7% de todos os casos globais desse subtipo. Ainda assim, dentro grupo, observam-se diferenças importantes, já que populações do Leste Asiático apresentam maior ocorrência de ângulo aberto, enquanto mongóis e birmaneses são proporcionalmente mais afetados pelo ângulo fechado.
Diagnóstico precoce – Diante desse panorama, oftalmologistas do mundo inteiro reforçam a importância da detecção precoce, especialmente em grupos de maior risco, como pessoas acima dos 40 anos, indivíduos com histórico familiar da doença, pessoas negras, míopes e portadores de doenças crônicas, como diabetes e hipertensão. O exame oftalmológico periódico, com avaliação da pressão intraocular e do nervo óptico, é a principal ferramenta para identificar alterações antes que a perda visual se instale.
Embora o número absoluto de casos deva aumentar devido ao envelhecimento global, a progressão para cegueira pode ser significativamente reduzida com diagnóstico precoce e tratamento adequado. De acordo com Dr. Ki Ho Park, de Seul/ Coreia do Sul, co-presidente do Comitê de Pacientes da WGA, é preciso conscientizar a população sobre essa doença que não anuncia sua presença. “Pelo bem de sua preciosa visão, equipe-se com conhecimentos precisos sobre o glaucoma e submeta-se aos exames necessários para manter uma visão saudável”, alerta.




