Fibromialgia – um diagnóstico não pode ser passaporte para o desrespeito

Por: Dra. Licia Maria Henrique da Mota: médica reumatologista, professora dos Programas de Pós-Graduação em Ciências Médicas e em Patologia Molecular da Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília e reumatologista do Hospital Universitário de Brasília. É pesquisadora com atuação em doenças reumáticas e qualidade de vida e presidente da Sociedade Brasileira de Reumatologia para o biênio 2028–2030.
Há dores que não deixam marcas na pele, não alteram uma radiografia e não cabem em uma fotografia. Nem por isso são menos reais. A fibromialgia nos obriga a enfrentar uma pergunta essencial para a medicina e para toda a sociedade: o que fazer quando o sofrimento de uma pessoa não pode ser facilmente visto, medido ou explicado por um único exame? A resposta jamais pode ser a ironia. Muito menos a recusa do cuidado.
O que motiva este artigo envolve publicações feitas por médicos e estudantes no “X” – antigo Twitter -, debochando de pacientes com fibromialgia que começaram a circular amplamente nas redes. Nessas publicações, foram usadas expressões pejorativas como “doença proibida” e “CID proibido” para se referir à condição e às pessoas que convivem com ela. Como reumatologista, considero importante transformar esse episódio em uma oportunidade de reflexão e educação porque palavras ditas em ambientes de saúde podem reforçar preconceitos, deslegitimar sintomas e afastar pacientes do atendimento.
A fibromialgia é uma condição reconhecida pela medicina. A Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR) a descreve como dor muscular generalizada e crônica, geralmente acompanhada de sono não reparador e cansaço. Também podem ocorrer alterações de concentração e memória, ansiedade e depressão. O diagnóstico é eminentemente clínico: depende da história e do exame físico, enquanto exames laboratoriais ajudam a afastar outras condições. A ausência de um marcador específico ou de uma imagem que explique isoladamente a intensidade da dor não torna o sintoma imaginário.
Exames são instrumentos da medicina; não são um tribunal capaz de decidir se o sofrimento de alguém merece ser levado a sério. A dor precisa ser investigada em seu contexto, considerando sintomas associados, doenças que podem coexistir e impacto na vida cotidiana. Reduzir o paciente ao resultado de um exame é abandonar a escuta necessária ao diagnóstico.
Vale ressaltar que o Código de Ética Médica exige o exercício da medicina sem discriminação, a atenção à saúde com zelo e o respeito absoluto à pessoa. Afirma também que o médico não deve causar sofrimento físico ou moral nem permitir agressões à dignidade e à integridade do paciente. Essas regras valem na consulta, na emergência, na unidade básica, na pesquisa e no ensino, espaços em que estudantes e profissionais aprendem e reproduzem comportamentos.
Por isso, conteúdos que incentivem discriminação ou negligência devem ser preservados e denunciados às plataformas. Havendo elementos concretos, os fatos também devem ser encaminhados aos órgãos competentes, sem exposição dos pacientes. Denunciar não é perseguir profissionais; é defender o direito de pessoas com fibromialgia a serem tratadas com dignidade.
Isso não significa transformar uma publicação em julgamento coletivo da medicina. Nem todo profissional precisa dominar todas as condições clínicas. Reconhecer um limite técnico é sinal de responsabilidade. O que não pode ser aceito é converter a falta de segurança em desdém. Quando necessário, cabe explicar o que está sendo investigado, orientar os próximos passos e fazer um encaminhamento responsável. A dúvida clínica pode ser legítima; a humilhação, não. Também é necessário revisar a formação médica: ensinar que sintomas subjetivos continuam sendo sintomas e que o respeito é parte da competência profissional.
O tratamento da fibromialgia é individualizado. Destaca-se a importância da atividade física orientada, da educação sobre a doença e, em situações indicadas, do apoio psicológico. Medicamentos podem ter papel no controle de sintomas, mas não existe solução única. O cuidado exige acompanhamento, ajuste de estratégias e participação do paciente.
A fibromialgia existe. A dor é real, ainda que não seja visível. Reconhecê-la e acolher quem a sente não é um gesto opcional. O respeito é parte indispensável da competência médica.




