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A Ortopedia Pediátrica em tempo de pandemia

O ortopedista pediátrico Gilberto Brandão, Diretor Clinico do Instituto Mineiro de Ortopedia e Traumatologia-IMOT

Assim como as demais áreas da medicina, a Ortopedia Pediátrica foi também fortemente impactada com a pandemia da covid, com a redução acentuada dos atendimentos no consultório devido ao risco de contaminação. Nesta entrevista, o Dr. Gilberto Brandão, Diretor Clínico do Instituto Mineiro de Ortopedia e Traumatologia e ortopedista pediátrico do Instituto Materno Infantil do Hospital Vila da Serra, fala sobre a atual realidade imposta pelo vírus em sua área de atuação.

Primeiramente, Dr. Gilberto, qual é a realidade da Ortopedia Pediátrica em tempo de pandemia?

Da mesma forma que as demais áreas da medicina, a Ortopedia Pediátrica também foi atingida com esta pandemia. Devido ao risco de contaminação e ao fato de muitas crianças conviverem com seus avós, ou até morarem por algum período com eles, e, consequentemente, poderem levar o vírus para pessoas de seu grupo de risco, fez com que houvesse uma redução muito grande dos atendimentos médicos.

Isso ocorreu também com os procedimentos cirúrgicos como forma de evitar que essas crianças serem levadas para unidades hospitalares, correndo ainda maior risco de contaminação. Com isso, procedimentos que poderiam ser adiados foram suspensos temporariamente.

Os protocolos de segurança, como lavar bem as mãos e usar álcool em gel, contribuíram para a diminuição das consultas de crianças? Para quais situações de saúde?

Os procedimentos em si não diminuíram as consultas. Acho que são fundamentais. Hoje, todos os consultórios médicos estão preparados para atender as crianças, com extrema segurança com todos os protocolos de licenciamento. Mas, mesmo assim, ainda há um receio muito grande dos pais trazerem seus filhos para a consulta que, sem dúvida alguma, é um ambiente de risco. Nossa esperança é que com a vacina, nos próximos meses ocorra uma redução bem acentuada dos casos e as consultas voltem ao patamar de antes da pandemia.

De todo jeito, fico um pouco preocupado por que algumas patologias da Ortopedia Pediátrica necessitam de um acompanhamento médico a cada dois meses, a cada seis meses, principalmente àquelas crianças portadoras de doenças congênitas, cujo acompanhamento é importante, mas que está sendo adiado.

Do ponto de vista da Ortopedia Pediátrica, quais são as patologias mais comuns? Por que?

As mais comuns são as patologias congênitas, ou sejam, aquelas malformações em que as crianças já nascem com ela, como o pé torto, muito comum, que necessita de tratamento. Também as doenças de quadril e as malformações na coluna. Também as fraturas, que acontecem nessa faixa etária. Elas têm que ser tratadas de forma emergencial. Uma criança com trauma em casa, com um edema importante, ou que para de andar ou tem dificuldades para caminhar é fundamental que ela seja encaminhada para atendimento médico. Muitas vezes, o não diagnóstico e o não tratamento em tempo correto podem levar a uma complicação, a uma sequela ou deformidade futura. Então, chamo atenção dos pais que, mesmo em pandemia, as urgências devem ser observadas, sobretudo as lesões traumáticas.

Nesse tempo de pandemia, quais as situações que os pais precisam ficar mais atentos?

Principalmente quando a criança apresenta algum sinal de febre, ou quando observarem que seu filho não está mexendo aquele braço, ou quando ele não está querendo caminhar. Nesses casos é importantíssimo procurar o ortopedista pediátrico para avaliar se é um processo infeccioso por que se ele não for tratado de forma correta, aquela infecção, por exemplo, que começou naquela articulação, pode se espalhar por todo o corpo da criança.

Outra situação comum são as quedas que levam às fraturas. O osso da criança é mais fácil fraturar que o do adulto. Então, a criança que teve uma queda, sente dor, não quer movimentar aquele membro ou não quer pisar com aquele pezinho, deve ser levada para atendimento, fazer uma radiografia, para que o diagnóstico seja feito de forma correta. Sabemos que muitas vezes adiar esse diagnóstico e tratamento pode levar a criança a ter uma sequela no futuro.

Quais os riscos para a criança-paciente no caso de adiamento dessas consultas?

Uma infecção que, inicialmente, está na articulação do joelho, por exemplo, pode ir para todo o corpo e complicar o quadro clínico da criança. Também as fraturas, que não forem tratadas e reduzidas no momento adequado, podem se consolidar de forma errônea e, invariavelmente, podem deixar sequelas. A criança pode ter uma deformidade naquele bracinho, na perna ou mesmo um encurtamento desse membro. Então, é fundamental que diante de um trauma agudo, essa criança tem sim, que ser levada para atendimento médico.

Quais as dicas que o senhor poderia dar para crianças terem uma boa saúde?

Primeiramente, terem uma alimentação adequada, evitando carboidratos, doces, sanduiches e refrigerante. Ou outro é fazerem atividade física regular. Esses são fatores fundamentais. Sabemos, hoje, que um dos principais problemas das crianças, não só brasileiras, é a obesidade infantil. E a obesidade infantil acarreta outras patologias que vão complicar sua vida adulta. Então, recomendo atividade regular e alimentação saudável. Mesmo em tempo de pandemia, os pais devem criar atividades lúdicas que podem ser feitas dentro de casa, de forma a movimentarem mais seus filhos. Outra coisa importante: reduzir o tempo de tablete, celulares e televisão para essas crianças.

Qual a importância da informação sobre saúde da criança para pais e educadores?

Nós sabemos que a informação é a mais potente ferramenta para que a criança tenha uma boa saúde. Nesse sentido, pais e educadores devem ficar atentos não só quanto a alimentação, mas também quanto a melhor atividade física para a criança, tendo em vista a sua idade, e com o tempo gasto com as mídias digitais.

O senhor tem alguma estatística que fale quantas crianças temos no Brasil

Segundo o IBGE, dados de 2018, estima-se que o Brasil tem 35,5 milhões de crianças abaixo de 12 anos. Isso corresponde a 17% da população brasileira estimada para aquele ano. Só para termos noção do que isto quer dizer, o Brasil é ainda um país jovens. Só Minas Gerais, no ano de 2019 nasceram 256.892 crianças. Dados estes do DataSUS.

Quais avanços da Ortopedia Pediátrica merecem ser destacados?

Entre os avanços da especialidade, merece destaque o tratamento do pé torto congênito, através do método Ponseti, cujo procedimento tem proporcionado a essas crianças no futuro uma vida praticamente normal. Essas crianças que nascem com uma deformidade grave no pé podem ser tratadas hoje por esse método de forma menos invasiva e menos indolor, possibilitando terem pés funcionais e não dolorosos.

Sobre a pandemia, o senhor gostaria de falar mais alguma coisa?

Sim, com relação a síndrome respiratório em crianças e adolescentes, apesar de rara, as crianças geralmente têm uma resposta imunológica mais rápida e os casos deveriam ser mais brandos do que em pessoas adultas e do grupo de risco, mas há relatos, sim, de crianças que apresentaram a forma grave da doença. Assim, devemos ficar atentos.

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