Cuidados paliativos priorizam qualidade de vida e o alívio do sofrimento de pacientes

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Os cuidados paliativos representam uma forma diferente de olhar e cuidar do paciente. Segundo o Ministério da Saúde, cerca de 625 mil pessoas no Brasil necessitam desse tipo de atenção, que busca garantir conforto, dignidade e qualidade de vida, mesmo diante de doenças graves ou sem cura.
De acordo com o Dr. Marco Acras, intensivista da UTI da Santa Casa de São Roque/SP, unidade gerenciada pelo CEJAM (Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim”), “cuidar paliativamente é garantir que o paciente não sofra, não sinta dor, nem cansaço, ânsia de vômito ou outros desconfortos. É cuidar de forma integral, buscando que ele viva da melhor maneira possível, mesmo diante das limitações impostas pela doença.”
Tais cuidados se aplicam a todas as pessoas com doenças ameaçadoras à vida, e não apenas em estágios terminais, observa. Pacientes com câncer, AIDS, diabetes, insuficiência cardíaca, AVC e até condições genéticas, como a Síndrome de Down, podem se beneficiar dessa abordagem, que prioriza o bem-estar físico, emocional, social e espiritual.
Segundo ele, um dos equívocos mais comuns é associar a atenção paliativa apenas ao fim da vida. “O cuidado paliativo começa no diagnóstico de uma doença grave, e não no último momento. Há pessoas que vivem anos, até décadas, acompanhadas por uma equipe paliativista”, observa.
Como referência, ele cita pacientes com AIDS ou insuficiência cardíaca que seguem suas rotinas com apoio contínuo. “Nosso papel é garantir que a pessoa continue vivendo com propósito, com prazer, com dignidade. O maior erro é deixar alguém morrer antes de morrer. Ou seja, perder o sentido da vida antes do tempo.”
A equipe paliativista é multiprofissional e integrada. Médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, fisioterapeutas, nutricionistas, técnicos de enfermagem, equipe de limpeza e familiares participam do processo. “Todos que cercam o paciente fazem parte desse cuidado. Às vezes, o simples gesto de sentar e ouvir o que ele tem a dizer já é uma forma de acolher”, afirma o médico.
Bioética – Compreender os cuidados humanizados, também exige discutir bioética, área que busca equilibrar os avanços tecnológicos da medicina com o respeito à dignidade humana. “Nem tudo o que é tecnicamente possível é eticamente desejável. A bioética define o limite entre o que a tecnologia pode fazer e o que o ser humano realmente precisa”, pontua. Nesse sentido, o Dr. Marco Acras cita os pilares que orientam essa prática:
- Autonomia, que garante ao paciente o direito de escolher o caminho do tratamento;
- Beneficência, que determina que toda intervenção deve buscar o benefício do paciente;
- Não maleficência, que preza por evitar danos desnecessários;
- Justiça, que assegura o mesmo cuidado e acolhimento a todos, independentemente de classe social, religião ou condição econômica.
Dr. Marco também compartilha relatos emocionantes que mostram o impacto dessa abordagem. “Nunca me esqueço de um paciente que, ao receber da equipe de oncologia a notícia de que não havia mais tratamentos disponíveis, perguntou se poderia retomar alguns hábitos antigos. Às vezes, é isso: é permitir que a pessoa continue vivendo dentro do que lhe dá prazer, mesmo em circunstâncias difíceis.”
Ele lembra ainda de uma senhora que, ciente de que se aproximava do fim da vida, internou-se para receber cuidado integral, mas pediu para passar o Natal em casa. “Movemos o mundo para realizar o desejo dela. Ela saiu do hospital na noite de 24 de dezembro, por volta das 20h, passou a meia-noite em casa e voltou para o hospital às 3 horas da manhã, ela pôde aproveitar aquele momento com dignidade. Faleceu no dia 26.”
Outras histórias também marcaram sua trajetória, como a de uma paciente que conseguiu se casar no hospital para garantir os direitos do companheiro, e de famílias que encontraram acolhimento e apoio durante o luto. “Cuidar paliativamente é enxergar a pessoa por inteiro, suas dores, desejos, medos e sonhos e não apenas a doença que ela carrega”, destaca.
O especialista reforça ainda que espiritualidade não se limita à religião: “está ligada à capacidade de cada pessoa se conectar consigo mesma e encontrar sentido em sua jornada. É o que ajuda o paciente a seguir em paz, independente de crenças.”
Para o Dr. Acras, o grande aprendizado da atenção paliativa é lembrar que a vida é finita e que a medicina deve caminhar lado a lado com o afeto: “A única certeza que temos é a de que um dia vamos morrer. Então, que a vida seja boa enquanto durar. Cuidar não é curar. É aliviar o sofrimento, acolher, escutar e respeitar a história de cada um”.




