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A aventura de escalar a montanha mais alta do mundo

Gustavo Ziller: “a sensação que se tem quando se chega ao topo é de transcendência. É meio inexplicável”

 Ter metas, desafios, concentração e integração com o bem-estar coletivo são algumas características importantes para boa saúde e podem ser cultivadas, cada um à sua maneira e com o seu estilo de vida. O Portal Medicina e Saúde passa a publicar entrevistas com histórias curiosas de pessoas que sabem enfrentar as adversidades e, dessa forma, enriquecem as suas próprias vidas. Nessa edição, vamos conhecer a experiência do mineiro Gustavo Ziller. Confira:

 Em 2021, o mineiro Gustavo Ziller, tornou-se o 26° brasileiro a escalar o Monte Everest, a montanha mais alta do planeta. Ziller trilhou vários caminhos na vida. De alma inquieta, sua primeira grande paixão foi a música. Criador e produtor, foi vocalista e líder do Zippados. Foi também sócio e apresentador da extinta Savassi FM e um dos DJs do Movimento Balanço, evento que marcou época na capital mineira. É apresentador do “Beagá Invisível”, programa da Rádio BandNews, em Belo Horizonte/MG.

          Fez história também como empreendedor na agência Aorta, trabalhando com tecnologia e conteúdo. Após fechar esse ciclo, partiu para um novo desafio: escalar a montanha mais alta da terra, com 8.849,86 metros acima do nível do mar. Criou, assim, um programa no Canal Off, o 7CUMES, em que mostra como uma pessoa comum é capaz de realizar coisas surpreendentes.

Nesta entrevista ao Portal Medicina e Saúde, ele conta um pouco de sua história e da grande aventura que é a vida dele.

Inicialmente, Ziller, gostaríamos de saber se desafios sempre fizeram parte da sua vida? Subir o Pico do Everest foi um desses?

Eu não coloco dessa forma, assim, como desafio. Eu proponho metas para mim. Por exemplo, coisas que gostaria de fazer, e vou planejando com a ajuda das pessoas ao meu redor, até que um dia eu consigo realiza-la. Pode ser escalar o Everest ou o Beagá Invisível, ou um programa ao vivo que realizo direto do Mercado Central de BH transmitido via Rádio BandNews. Todos são projetos que coloco na mesma prateleira. É claro que o Everest foi um projeto maior, muito mais planejado, muito mais difícil. Não dá para compara-lo nesse aspecto, como, por exemplo, colocar no ar um programa como o BH Invisível. Mas, para mim, tudo é projeto que quando dá para fazer, eu faço. Eu abaixo a cabeça, reúno as pessoas que vão participar dele e as habilidades necessárias, estudo, pratico e aí, a gente executa.

O pico Everest está no imaginário de todos nós, mas o quê o levou a fazer essa escalada?

O Everest é a consequência de um projeto que começou em 2013, quando me preparei para fazer uma caminhada, um trekking, até o campo base de uma montanha no Nepal, que se chama Annapurna. Esse campo base foi o meu primeiro trekking em altitude. A partir disso, eu escrevi um livro, que se chama Escalada dos Sonhos, e que está esgotado fisicamente. Nesse livro, eu proponho um projeto de televisão, o 7Cumes, um roteiro clássico do montanhismo, que você escala a montanha mais alta de cada continente. Eu sabia que o Everest seria uma delas, pois é a montanha mais alta da Ásia e do mundo. Inicialmente, ele seria a última, mas as coisas foram mudando no meio do caminho e ele se tornou a penúltima montanha. Como eu sabia que em algum momento ele estaria a minha frente, fui me preparando, me condicionando, enfim fui vivendo as coisas que precisava para que no dia em que a escalada surgisse no horizonte, eu e a equipe toda estivéssemos preparados. Foi o que aconteceu. A gente não acordou em um belo dia e disse: vamos escalar o Everest. As coisas foram acontecendo e a gente foi cumprindo com os objetivos para que o Everest se tornasse realidade.

Como foi, então, esta preparação, sua preparação física, emocional e financeira?

Eu comecei a escalar montanhas de altitude em 2015. Seis anos depois fui ao Everest. Então, foi uma preparação física de longo prazo. Quando foi chegando perto do Everest, foi bem puxado. Foi um ano de muito exercício, de muita preparação e condicionamento cardiovascular, condicionamento muscular, preparação técnica, que é importantíssima – saber manusear todo o equipamento que você precisa ter alto controle e alto gestão. Você precisa estar alto suficiente na montanha. Não dá para depender das pessoas o tempo inteiro por que em algum momento isso não vai funcionar. Então, foram seis anos de preparação, bem importantes. Basicamente, a preparação física é semelhante ao de um triatleta, por exemplo. Só que você substitui a natação, a bike e a corrida, no meu caso, por caminhadas, longas caminhadas carregando mochilas, mochilas pesadas, e por aí vai.

A preparação emocional também é importante. Eu tive dois treinadores. Eu os chamo de treinadores de cérebro. Um deles, inclusive, tornou se amigo da nossa família, que é o Fernando Gonçalves.

Da mesma forma, tivemos que nos preparar financeiramente, por que é um esporte caro. Uma escalada para o Everest não sai por menos que $30 mil dólares. Ainda mais que a gente tinha equipe de TV, cinegrafista, filmmaker, sempre excesso de bagagem … A maioria das expedições que a gente fez, foram expedições privadas, para a televisão. Essa era diferente: eu precisei de patrocinadores para auxiliar, precisei do canal Off como coprodução, e, mesmo assim, tive que usar algumas vezes dinheiro da nossa reserva familiar por que sabia que lá na frente iriam me repor com o pagamento de patrocínios ou do canal Off. Foi bem intenso tudo que precisei fazer para isso acontecer.

Quanto tempo demorou todo esse processo até a sua concretização?

Então, foram seis anos de trabalho, seis anos de planejamento. Começou em fevereiro de 2015 e a gente escalou o Everest em abril e maio de 2022. Seis anos de bastante luta, de trabalho árduo para tudo acontecer.

Você precisou de uma autorização especial? quais os desafios que enfrentou para escalar o Everest?

Para o Everest você precisa de uma permissão de escalada. Você paga pela licença. Na temporada de 2022, essa licença estava valendo $11 mil dólares. Você paga direto para o governo nepalês, para o Ministério do Turismo. Para consegui-la, você tem que ter uma experiência mínima de escalada por que você está falando de escalar a montanha mais alta do mundo e precisa ter técnica para isto.

As pessoas falam que escalar o Everest é caminhar até o topo, o que não é verdade. Você tem escalada vertical, escalada de corda fixa, utilizando um equipamento chamado Jumar ou ascensor, você tem deslocamento técnico em gelo e, em alguns momentos, tem escalada vertical em gelo, com auxílio de piolet… então, não é uma coisa trivial. Esses foram alguns dos desafios que a gente encontrou para escalar o Everest. Mas há outros, pois é uma escalada longa. A gente fica fora de casa por no mínimo 50 dias. Então, não é uma escalada para 10 dias, 15 dias e depois estar de volta, numa capital ou num lugar que tem estrutura. Os desafios são muitos, desde desafios físicos, psicológicos e emocionais até a ausência da família. Tem bastante variável que você precisa estar preparado. Tem variáveis que por mais que você se prepara, não consegue controlar. Então, é um desafio grande mesmo.

Com quantas pessoas você subiu o Everest?

Primeiramente, é impossível escalar o Everest sozinho. Aliás, acho que é impossível você fazer qualquer coisa nessa vida sozinho. Não acredito em esporte individual, por exemplo. Por mais que digam que a natação é um esporte individual, eu discordo. Acho que é um esporte no qual o atleta compete sozinho na piscina, mas para ele chegar ali, fazer a competição, fazer a prova sozinho, tem uma infraestrutura, sei lá, de pelo menos umas 20 pessoas ao seu redor. Então, para mim, é um esporte coletivo. Aplicando isso ao montanhismo, subir o Everest sozinho é impossível, mesmo os montanhistas que hoje tentam ascensão sozinhos, igual ao nadador sozinho, eles utilizam caminhos abertos pelos sherpas (povo de origem tibetana que são carregadores, guias e escaladores extremamente habilidosos), utilizam cordas fixas, presas por uma equipe que não é a equipe dele. Enfim, não tem como. No meu caso, eu escalei com quatro pessoas, quatro amigos, diretamente no deslocamento de montanha, mas, nos campos base e avançado sempre tinham pessoas para nos ajudar. No campo base, além dessas quatro pessoas que eram da minha equipe, deviam ter umas oito pessoas de suporte, entre cozinheiros e técnicos de comunicação. Assim, na minha equipe éramos eu e mais quatro, e na equipe indireta – umas 12 pessoas.

Quem te guiou até o cume?

O líder da minha expedição foi o Pemba, um amigo meu nepalês, o PembaSherpa. Ele foi o responsável pelas tomadas de decisões, pela organização e planejamento de deslocamento. E na montanha, a gente sempre se reunia para tomar as decisões, ouvindo a opinião de todo mundo.  Então, éramos cinco, com o Pemba de líder.

Quanto tempo durou a escalada? O que sentiu quando estava escalando o Everest?

Eu fiquei 61 dias fora de casa. Desses 61 dias, 52 na montanha. Em uma escalada no Everest, você não vai e volta. Ela é longa. Você precisa aclimatar, colocar seu corpo em condições de estar acima de 8 mil metros, que é a zona da morte. A partir de 7 mil metros, você começa a usar cilindro de oxigênio suplementar. A calibragem desse oxigênio, a vazão dele depende do estado físico/emocional do montanhista, por isso você vai carregar mais ou menos cilindros para cima.  Então, há toda uma logística para ficar esse tempo todo na montanha e não passar aperto. O ciclo do ataque ao cume, que é quando você sai do campo base e vai até o topo e volta, ele acontece lá pelo quadragésimo dia de montanha, entre o 35º e 45º dias. Assim, nesse ciclo de ataque ao cume, leva mais ou menos entre cinco e sete dias para fazer. Mas, só depois que você está muito bem aclimatado e pronto para escalar a montanha.

Houve momento em que quis desistir? Fale um pouco sobre isto e o que te fez mudar de ideia e continuar em frente?

Eu não diria desistir, mas tive alguns momentos em que tive dúvidas: será que eu vou conseguir melhorar para continuar, será que a expedição acabou, vou ter que voltar e me preparar mais? Esse momento específico foi quando fiz o terceiro ciclo de aclimatação, que era importante para chegar até o acampamento 3 (de 7 mil metros), e voltar para o campo base. Eu não conseguia passar dos 6 mil e 500 metros por que estava muito, muito … a palavra não era cansado. Na verdade, eu não achava ar. Eu estava assim, como posso dizer, em um momento de exaustão, que era mais do que física. Era uma exaustão que não consigo nem descrever. Então, voltei para o campo base, antes de todo mundo, e comecei um processo de mentalização e concentração para colocar na cabeça que era só ficar ali um tempo que o meu corpo iria responder e tudo iria ficar bem.

O grande remédio da montanha é água: você tem que estar muito bem hidratado todos os dias. Você tem que beber 3 litros de água por dia, e quando você está em uma altitude maior e começa a ter esse tipo de situação, de exaustão, você tem que descer, se colocar em uma altitude menor, para que seu corpo se regenerar mais rápido. Foi o que fiz, voltei para o campo base – que é alto, está a 5 mil e 500 metros, e fique me hidratando, ouvindo música, conversando com a minha família … é aquela história do ditado: nada como um dia após o outro. E as coisas foram melhorando dia a dia até que comecei a me sentir forte de novo. Mas foi um processo de luta psicológica muito grande por que eu tive várias vezes aquela sensação de que não conseguiria continuar.

Falando em sensação, qual foi a sensação de chegar ao cume e fincar a bandeira do Brasil no Everest? Você fez isso, não?

Eu não levei uma bandeira do Brasil. Eu levei a do Galo. Tirei duas fotos lá: uma com a bandeira do Galo e outra sem a bandeira, só com a roupa de escalada, com o equipamento todo. Depois disso, as câmaras congelaram se. Eu não tenho vídeo, não tenho fotos. Eu tenho vídeo de outra pessoa em que apareço, mas a foto que tenho de bandeira é com a bandeira do Galo, time que eu torço.

A sensação que se tem quando se chega ao topo é de transcendência. É meio inexplicável. A gente vive essa sensação em outros momentos de nossa vida, mas, na montanha, essa sensação aparece muitas vezes e o topo é tipo o ápice dela. Aqui, em baixo, a gente consegue viver essa sensação quando uma filha ou um filho nasce. As vezes também em um jogo de futebol, que você vai com a sua família ou com alguém que você gosta muito, e seu time é campeão. Nesses momentos você também vive aquele momento de transcendência. Pena que a gente vai enferrujando, vai colocando a nossa vida no automático, dando valor para coisas que não fazem o menor sentido, e a gente acaba perdendo essa capacidade de transcender, mas essa é a sensação de se chegar ao topo do mundo, a gente transcende. Tem gente que faz isso ouvindo música, assistindo um filme, admirando uma obra de arte, orando… e não precisa escalar o Everest para sentir o que senti no topo do mundo.

Alguns dizem que a escalada é também uma vivência espiritual. Isto aconteceu com você?

Absolutamente! É como falei. Eu costumo dizer que a montanha é uma catedral e quando você vai caminhando por ela, você vai percebendo várias coisas, como você é parte do todo e não o todo é parte de você. O exercício de humildade é constante, é de pertencimento, do poder do coletivo. O tanto que o coletivo é mais importante que o individual, não existe liberdade individual sem o bem estar coletivo. E isso, a montanha ensina de um jeito dramático, por que se você não pratica isso, alguém morre. Então, são coisas que você vai entendo que são orações. A gente foi ensinado de forma errada de que oração é só o que está escrito ali, em uma cartilha religiosa ou na bíblia, e não é assim. Você tem várias formas de viver uma oração e perceber que o coletivo é mais importante que o individual é, de certa forma, uma oração. A montanha nos coloca nesse entendimento o tempo inteiro.

O que essa aventura mudou em você?

Eu já tenho umas trinta e poucas montanhas de altitude no currículo, e umas, sei lá, 12 ou 13 expedições em alta montanha, algumas delas escalando mais de uma vez, por isso é que tem esse número todo, mas o que esse processo tem me ensinado e o Everest foi a consolidação, é que eu muitas vezes me privava de algumas coisas. Eu tinha dúvida na hora, por exemplo, de concordar com o desejo de um filho, ou, por exemplo, quando seu pai chega para você e pergunta o que você acha disso, pedindo uma opinião, e a primeira sensação é de responder não ou de falar que não é possível, isso é uma coisa que, ao longo do processo, nesses sete anos de montanhista, veio sendo trabalhada em minha cabeça. Eu acho que finalmente entendi que não faz sentido você privar uma pessoa de uma experiência incrível, ou experiências incríveis, por que a vida é breve, é literalmente um sopro. Então, hoje, quando a minha filha fala para mim assim: pai, vou fazer uma tatuagem, eu digo faz, se joga, por que é isso. Se não fizer agora vai fazer quando? Ah, eu gostaria de não fazer faculdade e ter uma experiência assim. Então, faça! Ah, eu gostaria de …, faça, se eu puder participar, estou dentro. É isso, nós somos muito mais do que a palavra não. E é isso que vivo hoje. A gente tem que orientar as pessoas que a gente ama a realizarem as coisas que querem agora, em vida.

Ao chegar no topo, qual o primeiro pensamento que teve?

Eu confesso que a primeira coisa que fiz foi respirar fundo e tentar lembrar tudo que tinha acontecido, por que a sensação parece uma neblina. O esforço físico é tão intenso e é algo que você nunca realizou na sua vida que, quando chega lá, você chega com os pensamentos um pouco embaralhados e, obviamente, o ar rarefeito ajuda muito nisso. Então, eu sentei, respirei fundo, me concentrei para poder viver o momento. Depois, pensei nas pessoas que gostaria que estivessem comigo. Sempre que chego no topo de uma montanha, faço isso. Se eu fosse mágico eu falaria abra cadabra e elas apareceriam ali, sem correr perigo algum, e ficariam um pouco comigo. Depois, diria novamente abra cadabra e todas voltariam para suas casas. Então, eu penso sempre na Pat, nos meus filhos – Jojo, Iaiá e Mateus. Aí, vou pensando na minha sogra, que eu a chamo carinhosamente, de tia, penso nos meus pais e nas pessoas que estão comigo na trajetória. Penso muito nos meus amigos. É assim que faço quando chego no topo de alguma montanha.

Quais são os próximos desafios?

Eu continuo escalando, continuo com projetos de escalada. O próximo vai ser muito legal por que vou escalar a última montanha do programa de televisão com a Iaiá, minha filha do meio, que é também escaladora. Ela tem 18 anos e topou fazer esse desafio. A Pat também – quando me foi perguntado acima o que essa escalada mudou em minha vida -, quando contei para a Patrícia que gostaria de levar nossa filha Iaiá, ela me respondeu assim: não tem como eu não permitir que a Iara viva essa experiência … depois emendou: você vai traze-la de volta para casa, não vai?  Então, a Iara está treinando comigo, com a minha equipe. A gente vai escalar uma montanha de 4 mil 500 metros, agora, em abril. Será a última montanha do projeto 7 Cumes do canal Off, que é o canal a cabo que a gente tem o programa. Depois eu quero voltar no Denali, que é a maior montanha da América do Norte, que fica no Alasca, e, em breve, devo também voltar à Antártica, para guiar um amigo meu. Então, o topo de uma montanha, na verdade, é o início de outro projeto. É assim que eu vou tocando as coisas aqui.

Qual orientação que pode dar para quem deseja se aventurar no Everest ou em outros locais de riscos?

Equipe! Se cole em pessoas profissionais, que já fizeram isso e que podem te instruir, te guiar e que podem, inclusive, te treinar para esses desafios. A coisa mais importante que tem nesses desafios é você estar com gente boa ao seu lado, gente com mais experiência que você. Essa é uma regra que tenho em montanha: eu nunca escalo com pessoas menos experientes do que eu. Pode até ter um ou outro, mas nunca os líderes. Então, é isso, junte-se a pessoas que podem te guiar, mentorar e te colocar em situações que você controla todas as variáveis que treinou para controlar. Isso é o mais importante.

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