Geração Alpha e profissionais neurodivergentes impactam a cultura corporativa no mundo

Psicopedagoga Carla Costa: “muitas organizações ainda mantêm estruturas pouco adaptadas para acolher profissionais neurodivergentes”
Crédito-foto: Iaô Espaço de Criação
As empresas brasileiras entraram na principal ‘janela’ de adaptação para receber a GenAlpha (Geração Alpha) e profissionais neurodivergentes no mercado de trabalho. Entre o segundo semestre de 2026 e o início de 2028, organizações de diferentes setores precisarão revisitar processos seletivos, desenvolver lideranças e repensar suas políticas de ‘inclusão’ corporativas, aponta relatório da consultoria McCrindle. Segundo o documento, a corrida pela Geração Alpha, no entanto, já começou.
Formada por nativos digitais, criativos e hiperconectados, o novo perfil profissional passa a integrar os programas de jovem aprendiz, estágios e freelas nas empresas. Abertas às portas do mercado de trabalho, a McCrindle projeta que esses mesmos jovens representem cerca de 19% da força de trabalho mundial pelos próximos anos. E para não ficar para trás, as empresas precisam dialogar com novos talentos: profissionais mais conectados, ágeis e colaborativos.
Entre as transformações em andamento está a necessidade de ampliar a inclusão de profissionais neurodivergentes: Autismo (TEA), Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), Dislexia, Discalculia, Síndrome de Tourette, entre outros, no quadro de funcionários.
Segundo também o Relatório Gen Alpha, da Attest, a incidência significativamente maior de diagnósticos relacionados ao Transtorno do Espectro Autista na Geração Alpha pressiona ambientes corporativos acessíveis e preparados para diferentes formas de aprendizagem, comunicação e desempenho profissional.
Enquanto esse cenário ganha força, muitas organizações ainda mantêm estruturas pouco adaptadas para acolher profissionais neurodivergentes. Os desafios dentro da cultura organizacional inclusiva, segundo a psicopedagoga e educadora parental Carla Costa, começam na forma como as empresas estruturam seus processos internos e preparam suas equipes.
Conforme ressalta, “a aprendizagem no âmbito do trabalho não acontece de forma isolada. Ela está profundamente conectada ao ambiente organizacional, às relações profissionais, aos processos de desenvolvimento e às experiências que o colaborador vivencia dentro da empresa. No caso de jovens profissionais diagnosticados com TEA, uma rotina profissional estruturada funciona como um elemento de apoio para o desenvolvimento da autonomia, responsabilidade e autorregulação”.
De acordo com Carla Costa, “processos e expectativas bem definidos, além de experiências consistentes, ajudam esses profissionais a compreender demandas, organizar suas atividades e desenvolver habilidades importantes para o desempenho no trabalho”. A previsibilidade também contribui para competências como atenção, planejamento, organização e adaptação diante de mudanças, fortalecendo uma experiência profissional mais inclusiva e produtiva, comenta.
Com apenas 16% dos adultos autistas inseridos no mercado de trabalho formal e remunerado, segundo a National Autistic Society, a GenAlpha representa um teste para as empresas: transformar discursos sobre diversidade em práticas efetivas de inclusão – algo pouco debatido entre os membros das eras Boomer, X ou millennial. Caso não haja uma mudança nas empresas desde agora, acrescenta, “uma fatia significativa de profissionais autistas pode continuar a esbarrar na falta de acesso, permanência e crescimento no mercado de trabalho. A mudança que traz a ‘GenAlpha’ é essencial nesse sentido. As empresas precisam entregar condições reais de desenvolver o potencial de seus funcionários.”
Auxiliando na transição para ambientes corporativos mais inclusivos, a psicopedagoga lista os principais desafios dessa etapa: preparo das lideranças, comunicação acessível, flexibilidade nos processos, capacidade de lidar com diferentes formas de interação e revisão de modelos tradicionais de avaliação.
Conforme observa, “um dos principais desafios é compreender que inclusão não significa apenas contratar profissionais com espectro autista, mas garantir a sua participação efetiva, seu desenvolvimento e seu pertencimento dentro da organização”.
“Na prática, muitas empresas demonstram interesse em promover ambientes mais inclusivos, mas ainda enfrentam dificuldades relacionadas a estratégias adequadas para lidar com a diversidade das equipes. A inclusão exige conhecimento sobre diferentes formas de comunicação, aprendizagem, organização da rotina, acessibilidade e participação dos colaboradores,” acrescenta a psicopedagoga e educadora parental Carla Costa, lembrando que outro desafio é construir a cultura corporativa verdadeiramente inclusiva. “Muitas vezes, ainda existe a expectativa de que o profissional precise se adaptar ao modelo tradicional de trabalho, quando, na realidade, é a empresa que deve estar preparada para acolher diferentes formas de pensar, comunicar-se, interagir e desempenhar suas funções,” afirma.
Profissional com mais de uma década de experiência na área da educação, Carla explica que a maior presença de profissionais neurodivergentes exige uma revisão das práticas de recrutamento e ‘requalificação’ profissional. Para a especialista, é fundamental ressignificar modelos de gestão e desenvolvimento de talentos, para que as empresas estejam preparadas para diferentes formas de pensar, aprender e contribuir.
Segundo Carla Costa, “também são comuns desafios relacionados à adaptação dos recém-formados aos ambientes profissionais, como lidar com mudanças, rotinas, organização de tarefas, planejamento de atividades e resolução de conflitos”. Por isso, destaca, as empresas precisam criar estruturas que ofereçam suporte e previsibilidade aos colaboradores da Geração Alpha.
A inclusão, explica, “acontece quando a organização compreende que cada profissional possui uma forma própria de aprender, se comunicar e desenvolver suas atividades”. Nesse sentido, não basta criar oportunidades de entrada. “É preciso garantir condições para que essas pessoas permaneçam, evoluam e tenham suas habilidades reconhecidas dentro do ambiente de trabalho”, enfatiza.




