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Pais, filhos e as redes sociais: As relações humanas estão sendo transformadas através das novas tecnologias

Dra. Priscila Dossi: “Hoje em dia, mesmo ao lado dos filhos, os pais estão terceirizando seus cuidados e a atenção que deveriam dar a eles para celulares ou tabletes, seja para compensar a sua ausência ou mesmo para ter mais independência dos filhos”

De acordo com a Dra. Priscila Dossi, médica psiquiatra, com especialização em infância e adolescência pela UNICAMP, esta mudança não começou a acontecer agora. De alguma forma, os pais, para não se “ocuparem” tanto com os filhos, há algum tempo têm “terceirizado” seus cuidados. Quem não se lembra da febre dos parquinhos cheios de vídeo games e diversões para todas as fachas etárias infantis que tornaram os shoppings muito mais atraentes? Assim, os pais que pagavam para que seus filhos ficassem lá durante algumas horas, podiam, enfim, fazer suas compras em paz.  Da mesma forma, das mães que não trabalhavam fora, por exemplo, para fazerem os trabalhos de casa, deixavam seus filhos na frente da TV boa parte do dia, no melhor dos casos assistindo programações infantis? Parece que ninguém notou que isso era o prenúncio de um futuro desafiador e perigoso não apenas na relação entre pais e filhos, mas nas relações afetivas de modo geral, observa a médica.

Com o aparecimento da internet e o desenvolvimento das redes sociais, todo um comportamento social vem sendo modificado, e as novas gerações já nascem inseridas nesse meio em que se pode conectar com o mundo instantaneamente. Seria natural, portanto, que problemas comportamentais e sociais viessem a surgir, como a própria dependência das telas e as dificuldades dos relacionamentos afetivos.

Conforme a Dra. Priscila Dossi, esse tipo de dependência é muito prejudicial na infância e adolescência, principalmente por afetar negativamente o neurodesenvolvimento da criança. Afeta também os adultos, incluindo novas posturas de comportamento.

Segundo ela, “hoje em dia, mesmo ao lado dos filhos, os pais estão terceirizando os cuidados e a atenção dos mesmos; dando um celular ou tablete para a criança ou para o adolescente, seja para compensar a sua ausência ou mesmo para ter mais independência deles. Isso acaba criando nos filhos uma série de problemas emocionais, comportamentais e no próprio desenvolvimento e formação da criança”. Este é um dos motivos de termos visto aumentar tanto os casos de TOD e outros transtornos infantis, como a depressão e a ansiedade generalizada, TOC, entre outros.

Muro Invisível – As relações pessoais estão sofrendo uma mudança drástica e isso é visível para qualquer um em seu dia a dia. Diante desse “admirável mundo novo, nos vemos encerrados em nossa bolha, ao mesmo tempo em que nos conectamos com o mundo em apenas um clique. A dependência dessas tecnologias, seja para o trabalho ou para os estudos, vem crescendo exponencialmente, salienta.

“Desde o ano passado, com a pandemia e o distanciamento social, pais e filhos puderam passar mais tempo no mesmo local, a própria casa, no entanto, distantes em seus mundos particulares. E nesse caso, a dependência da internet aumentou com o trabalho e o estudo remoto” – observa a Dra. Priscila Dossi, ao relatar que tem atendido muitos casos de transtornos do neurodesenvolvimento, diagnosticados neste período.

Muito antes da pandemia, pais e filhos já ficavam presos a suas telas, muitas vezes dando mais atenção às curtidas e comentários nos seus perfis do que aos próprios filhos. “E vivenciamos, hoje, esse afastamento dia a dia no meio familiar, bem como a deterioração dos relacionamentos, a falta de diálogo, a falta de entendimento, de participação presencial nas atividades da família. Dessa forma, pais e filhos vêm se tornando ilustres desconhecidos, conectados com o mundo inteiro, mas distantes entre si”, destaca a psiquiatra, alertando para o fim dos relacionamentos tradicionais. Segundo ela, “os filhos estão perdendo as referências de pai e mãe, inclusive dos papéis de cada um, da autoridade e assim por diante. Toda a referência, o conjunto de valores, a criança e o adolescente estão recebendo das redes sociais, dos perfis dos influenciadores digitais, por exemplo, o que pode, sem dúvida, acabar sendo muito prejudicial.

E quanto aos adultos, questiona a Dra. Priscila Dossi. De acordo com a médica, “já virou clichê aquela cena do casal à mesa de um restaurante, ambos com o celular em punho, como se o outro, que está à sua frente, não existisse”. Conforme destaca, os novos relacionamentos estão sendo construídos à base do anonimato. Trata-se de relacionamentos superficiais, que não fincam raízes, que não se aprofundam afetivamente, não criam laços. Aliado a isso, hoje, a fase adulta nada mais é do que uma extensão da adolescência, no melhor dos casos, devido a imaturidade emocional das pessoas.

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