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Sexualidade: como os adolescentes estão vivendo as suas experiências nessa fase importante da vida

De acordo com a psicóloga e sexóloga Walkiria Fernandes, “para alguns pais, falar sobre sexo e sexualidade é muito difícil, principalmente para os que tiveram ou ainda têm conflitos com a própria sexualidade”

A adolescência é uma fase do despertar para as várias esferas da vida e, evidentemente, a sexualidade surge como uma questão muito importante. Hoje nossos adolescentes circulam pelas redes sociais, onde o universo da sexualidade é exposto de diversas formas. Nesse sentido, os pais devem ficar atentos. Mas, ainda existe tabu em falar de sexo no seio familiar? Como a relação dos pais pode influenciar na vida desses jovens? Como eles devem orientar seus filhos sobre a iniciação sexual? De que forma ocorre a iniciação sexual? Como o adolescente lida com a relação amorosa? O “ficar com” várias pessoas ao mesmo tempo é uma boa referência afetiva para uma vida sexual amorosa saudável?  Como os adolescentes veem a relação homoafetiva? O adolescente de hoje demora a se engajar na vida adulta?  Estas e outras questões são abordadas pela psicóloga e sexóloga Walkiria Fernandes, de Belo Horizonte, em entrevista ao Portal Medicina e Saúde.

Walkiria, apesar da liberdade existente hoje em dia, falar sobre sexo no seio familiar ainda é um tabu?

– Infelizmente, sim. Para alguns pais, falar sobre sexo e sexualidade é muito difícil, principalmente para os que tiveram ou ainda têm conflitos com a própria sexualidade. As gerações passadas viveram uma época em que a repressão sexual e os tabus ligados à sexualidade eram maiores ainda. Desta forma, muitos não se sentem à vontade para falar do assunto.

Quais os problemas que esses silêncios no seio familiar podem causar nos adolescentes (homem/Mulher)?

– A negação é uma das piores formas de repressão sexual. Quando não se consegue falar do assunto, tem-se a impressão de que ele é proibido e daí, surge a ideia ou a sensação de repressão. Isso pode causar impacto negativo na sexualidade não só do adolescente, como também na do adulto, se essa questão não for trabalhada. Apresentar o sexo como algo proibido ou que a pessoa não consegue ficar confortável para falar sobre ele, pode trazer ansiedade e tensão ao experimentá-lo, justamente por ele não ter sido visto ou vivenciado de uma maneira leve e prazerosa. A grande maioria das disfunções sexuais vêm daí.

A percepção que o adolescente tem sobre o relacionamento dos pais influencia a vida sexual/amorosa do adolescente? De que forma?

– Em grande parte das vezes pode influenciar sim. É muito importante que desde criança a pessoa possa perceber e sentir que os pais têm um bom relacionamento afetivo/conjugal. Presenciar cenas de afeto e de carinho entre os pais deixa a criança mais segura e confortável. É obvio que a intimidade sexual entre o casal deve ser vivenciada entre quatro paredes, sendo de extrema importância que a criança não presencie tal intimidade. No entanto, ainda que ela tenha pouca idade e não seja capaz de ter discernimento sobre essas questões, um modelo positivo de relacionamento afetivo/conjugal, ficará gravado na mente dela e isso será uma boa referência de como as coisas devem acontecer entre um casal. Muitos comportamentos conjugais na adolescência e na vida adulta desta criança, podem vir da maneira pela qual ela introjetou o que percebeu no relacionamento dos pais.

Como os pais devem orientar seus filhos sobre a iniciação sexual?

– Quero deixar bem claro que não existe uma idade ideal para falar do assunto com a criança. Falar de sexo e de sexualidade deve ocorrer no momento em que a criança demonstra dúvidas e /ou curiosidade. A linguagem utilizada para conversar com criança é que deve ser apropriada à idade e ao grau de compreensão que ela apresenta. O mais importante é falar a verdade, sem ficar inventando historinhas, e responder às perguntas sem se estender demais no assunto. Muitos pais ficam tão ansiosos esperando o momento de falar sobre isso com a criança, que, quando ela faz uma pergunta, eles querem aproveitar a oportunidade e falar tudo que acham importante. Isso, muitas vezes, acaba gerando uma dispersão da atenção e um desinteresse na criança.

Muitos preferem deixar esta responsabilidade para a escola. A escola tem esta obrigação?

– Normalmente é na família que a criança estabelece os seus laços afetivos. A chamada “educação sexual” se refere não apenas aos conceitos e explicações sobre o comportamento sexual de uma pessoa, mas, principalmente, às relações afetivas, comportamentais, aos valores, princípios e à maneira de se relacionar com o outro.  Por mais que as escolas possam falar do assunto, a maior responsabilidade da educação da criança, em todos os aspectos, é muito mais dos pais do que da instituição de ensino. A escola seria um apoio e os pais, a estrutura.

Falar sobre sexo é bom, por que?

– Sim. Porque quanto mais tranquilo for para uma pessoa falar de sexo, mais tranquilo será para praticá-lo. Falar de sexo com leveza, tranquilidade e respeito é fundamental para que a ideia de que ele pertença às nossas vidas seja passada. No entanto, o que mais vemos são pessoas falando de sexo de maneira pejorativa, fazendo piadas para afirmarem para outras a ideia de que têm uma boa performance. Quanto mais uma pessoa necessita falar de sexo desta forma, mais ela precisa se afirmar para as outras. Quem não tem necessidade desta afirmação, não precisa falar para os outros qual é a sua performance sexual.

O que mexe no imaginário das pessoas e, em especial, do adolescente (H/M), quando o assunto é sexo?

– A maneira pela qual a pessoa será mexida, vai depender de como o sexo foi passado para ela. Se ela teve uma boa orientação em casa e se o sexo e a sexualidade foram passados de maneira leve e prazerosa, falar de sexo pode provocar sensações leves e tranquilas. No entanto, quando a pessoa não introjetou sexo/sexualidade desta forma, mas sim, com repressão, proibições e privações, na maioria das vezes ela nem consegue falar do assunto, e ouvir outras pessoas falarem pode desencadear tensão, ansiedade, nervosismo e o sentimento do quanto o sexo é algo difícil para ela.

No geral, o adolescente brasileiro (H/M) tem uma vida sexual precoce? Qual é a média de idade que o adolescente brasileiro inicia sua vida sexual?

– Normalmente, os meninos iniciam a vida sexual por volta dos 14 ou 15 anos. As meninas, um pouquinho mais tarde. No entanto, devido aos estímulos eróticos e a banalização do corpo e a exposição exagerada dos jovens, por intermédio da televisão e da internet, parece que essa idade vem baixando.

De que forma acontece essa iniciação? É entre pessoas da mesma faixa etária, ou com pessoas mais velhas? É entre amigos da escola, do bairro ou das baladas?

– Há algumas décadas, o mais comum era os homens iniciarem a vida sexual com garotas de programa e as mulheres com os namorados ou maridos. Atualmente, os homens também estão, na maioria, iniciando a vida sexual dentro de um relacionamento afetivo ou com parceiras eventuais, amigas ou que conhecem, mas sem implicar em um relacionamento. Na maioria das vezes essa iniciação se dá entre pessoas da mesma faixa etária ou com pouca diferença.

Há alguma regra para esta iniciação, seja homem ou mulher?

– Regra propriamente dita, não. No entanto, é recomendável que a pessoa consiga iniciar a vida sexual sem referências de filmes pornôs, que, na maioria das vezes, preza pela performance apenas. Mesmo que não haja vínculo afetivo entre o casal, seria recomendável existir uma valorização das sensações eróticas e bem-estar de ambos para que possam vivenciar um sexo mais prazeroso e, assim, guardarem uma referência mais positiva dele. Infelizmente, o que muitas vezes acontece, é justamente o contrário: uma iniciação cheia de ansiedade e tensão, devido à preocupação com a performance.  Não devemos nos esquecer de que o sexo é para nos dar TESÃO e não, TENSÃO.

Quais os riscos de uma iniciação precoce para o homem e para a mulher?

– Gravidez indesejada e DSTs, são os riscos mais comuns. No entanto, como a ansiedade e insegurança são sentimentos comuns quando ainda se é muito jovem, iniciar a vida sexual com esses sentimentos pode acarretar algumas disfunções sexuais nos meninos, como ejaculação precoce e disfunção erétil, e nas meninas -vaginismo e anorgasmia. Quanto aos aspectos emocionais e psicológicos, muitas vezes o jovem ainda não tem   maturidade para assumir as consequências dos seus atos. Preparação emocional e psicológica são fundamentais para um bom exercício do sexo, principalmente para se iniciar a vida sexual.

Como fazer sexo seguro? Os adolescentes (H/M) fazem sexo seguro?

– De modo geral faz parte da adolescência, o pensamento mágico de achar que não será atingido por determinadas coisas na vida. A impulsividade também faz parte desta etapa de vida. Juntando esses dois fatores, muitas vezes o adolescente não se preocupa tanto com o uso do preservativo nas suas relações. Se estão em uma balada e a oportunidade de sexo surge e não há o preservativo, o pensamento de que apensas desta vez não será problema, pode acabar existindo. O mesmo pode ocorrer se o estado alcoólico estiver mais alto, bem como o desejo do momento e/ou a impulsividade podem levar ao sexo sem a segurança do preservativo. O uso do preservativo deveria sempre ocorrer para se ter um sexo seguro.

Quem deve ser o mais responsável, o homem ou a mulher?

– Na realidade, os dois. A prevenção de doenças e o risco de uma gravidez indesejada são de responsabilidade tanto do homem quanto da mulher. No entanto, para maior segurança, a mulher deve se conscientizar de que ela sempre e sempre deve ter o preservativo quando for ter relação, ao invés de atribuir essa responsabilidade ao homem. O recomendável é que a mulher sempre os tenha na bolsa e que eles estejam dentro do período de validade para que possa ter relações tranquilamente, com segurança.

De que forma o adolescente (H/M) de hoje vê uma relação amorosa? Qual o conceito que têm do amor?

– O “ficar” muitas vezes toma o lugar do namoro tradicional no mundo dos adolescentes. A tecnologia digital tem criado novas formas de relacionamento entre as pessoas. Como a fase da adolescência é cheia de altos e baixos nos aspectos emocionais e psicológicos, muitas vezes o amor vivido nessa fase costuma ser muito intenso. Provavelmente seja por esse motivo que o primeiro amor provoque emoções tão fortes.

Para eles, amor e sexo se completam ou não têm nada a ver um com o outro?

– De modo geral essa questão para os adolescentes parece se basear no desejo de   complementaridade, não como no amor romântico, mas sim como uma proposta de satisfação mútua, com base no compromisso e desejo recíproco enquanto for satisfatório para as duas pessoas.

O “ficar com” várias pessoas ao mesmo tempo é uma boa referência afetiva para uma vida sexual amorosa saudável? Eles acreditam em romance?

– Muitas vezes o “ficar com várias pessoas ao mesmo tempo” é visto como uma maneira de curtir a vida e uma forma de escapar dos relacionamentos fixos. No entanto, muitos adolescentes relatam uma sensação de vazio após repetirem esse comportamento por muito tempo nas baladas. Em contrapartida, relatam uma sensação de uma experiência emocional e afetiva positiva quando ficam um certo tempo com uma mesma pessoa.

Em geral, como o adolescente vê as relações homoafetivas?

– Os adolescentes de hoje parecem lidar muito bem com essa questão. Convivem bem com os amigos gays dentro do grupo e parecem mais tranquilos e muitas vezes até se permitem transitar sem rigidez, no exercício da sexualidade. Não é raro se permitirem experimentar relações com pessoas do mesmo sexo, ainda que não sintam ter uma orientação homoafetiva.

Ser adolescente hoje é bom ou é ruim?

– De acordo com alguns estudos, os adolescentes de hoje demoram mais para se engajar na vida adulta, comparados com os de algumas décadas atrás. Isso parece dizer que eles estão demorando mais para amadurecer. Segundo estudo feito na Universidade de San Diego, um dos motivos para esse desenvolvimento mais lento dos adolescentes de hoje pode ser devido ao excesso de proteção dos pais. Nas décadas anteriores, onde as famílias tinham muitos filhos, eles os criavam para serem independentes desde cedo, para trabalhar e ajudar nas despesas da casa. Hoje os adolescentes estão demorando mais para assumirem responsabilidades da vida adulta, principalmente em famílias mais favorecidas economicamente. Isso não quer dizer que seja bom ou ruim, mas apenas reflete o clima de uma sociedade atual em muitos casos.

Que orientação você pode deixar para eles?

– De maneira geral ainda que os adolescentes experimentem todos os sentimentos próprios desta fase da vida, seria muito importante que tentassem buscar uma impressão e referência de uma sexualidade mais focada na busca de sensações prazerosas, do que no desempenho sexual, propriamente dito. Focar a atenção no que está fazendo com o outro e no que está recebendo do outro, no momento de intimidade com ele, ao invés de se preocupar se irá agradar ou frustrar o outro, é uma bela maneira de ter um sexo com mais qualidade. Curtir o momento e as suas próprias sensações eróticas contribuem mais para um sexo prazeroso do que quando se foca na performance e desempenho sexual.

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Psicóloga/sexóloga Walkiria Fernandes: WhatsApp 31-99223-9090

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