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Covid 19: importância da rápida vacinação da população para deter os casos de mortes e internações graves

 

O epidemiologista José Geraldo Leite Ribeiro: “a nova variante realmente parece ter tido modificações que facilitam a sua capacidade de infectar o ser humano”      Crédito: Beto Staino

A vacina contra a covid 19 é aguardada com grande ansiedade por todos os brasileiros, assim como em várias partes do mundo. Hoje, todos nós conhecemos pessoas queridas (públicas ou não) que morreram pela doença ou que tiveram sintomas mais leves e se recuperaram em casa. Mas, enquanto a vacina não chega para todos, temos que redobrar os cuidados com a prevenção.

Nessa entrevista ao Portal Medicina e Saúde, o epidemiologista José Geraldo Leite Ribeiro, especialista em vacina do Hermes Pardini, fala sobre a nova cepa em circulação, a importância da rápida vacinação da população, o discurso ante vacina do Presidente da República, entre outros aspectos. 

Fala-se muito da nova cepa da coronavírus, que já estaria circulando no Brasil.  O que o senhor diz a respeito?

Os vírus RNA, como é o caso do Saris cov 2, estão em constante mutação. Alguns não têm muita repercussão clinica ou de imunidade, outros podem ter. Trata-se de um vírus muito recente e a Vigilância Epidemiológica precisa acompanhar constantemente essas mutações.  A chamada cepa inglesa possui maior infectividade. Hoje, inclusive, o Reino Unido já admite que ela poderia aumentar em cerca de 30% a sua gravidade, o que exige ainda confirmação. Todas essas variações vão circular no mundo todo, sendo impossível conte-las em determinadas regiões. Quanto a sua circulação no Brasil, sim, já está circulando em nosso país, mas a magnitude disso ainda é pequena. Felizmente, essas mutações parecem não comprometer a resposta das vacinas já licenciadas

Qual o conceito de uma nova cepa?

 Uma nova cepa é qualquer mutação mais importante que mude a estrutura do vírus, do seu interior. São variações que vão ocorrendo por modificação no RNA desses vírus à medida que eles vão circulando. Isso ocorre com todos os vírus RNA, alguns mais sujeitos a mutações, outros menos.

Como se denomina essa nova cepa? Por que ela é mais agressiva?

Essa variante, que primeiro começou a circular no Reino Unido, é conhecida como variante B 117 e, realmente, parece ter tido modificações que facilitam a sua capacidade de infectar o ser humano.

Por que a importância da rápida vacinação contra a covid para a população brasileira?

A principal razão para que haja um esforço para que a população brasileira seja rapidamente vacinada é deter os casos de morte e internações graves. Também, para reduzir a grande procura aos serviços de saúde com pessoas com casos sintomáticos. Outras virtudes da vacinação, como o controle da doença, evitar casos assintomáticos, isso precisa ainda de uma experiência do uso dessas vacinas em massa para nós avaliarmos se será possível. Outra questão importante é o fator econômico, pois na medida que a gravidade da doença seja controlada, o país pode retornar à suas atividades econômicas de forma mais rápida e segura.

Como se dá a chamada proteção de grupo/imunidade de rebanho?

Algumas vacinas são capazes de impedir além da doença, a infecção do ser humano por um agente biológico. Quando a transmissão desse agente é de pessoa para pessoa, uma vez impedindo a infecção, ela protege indiretamente aqueles indivíduos que não foram vacinados, isso depois que se faz uma alta proporção de vacinados na população.  Embora nós tenhamos muita esperança que as vacinas possam fazer proteção de grupo, isso ainda carece de certeza, o que geralmente só é avaliado quando se atinge a vacinação de 60% a 80% da população. Aí, podemos saber se a vacina é capaz de fazer proteção de grupo.

O princípio ativo da vacina contra a covid 19 não existe no Brasil. Ele precisa ser importado da China ou Índia.  Esse é um tema antigo relacionado a transferência de tecnologia e patente. O que o senhor pode esclarecer a respeito?

O que posso dizer é que nós não estamos sendo muito felizes através das décadas em escolher nossos governantes, pois muitas vezes são governantes com uma visão muito antiquada de desenvolvimento e que investem muito pouco no desenvolvimento tecnológico. Se não há investimento em pesquisa básica e em biotecnologia, dificilmente iremos desenvolver vacinas no país. Assim, somos obrigados a receber a vacina em seu estado bruto e processá-las aqui ou comprar a transferência de tecnologia que foi desenvolvida no exterior.

A vacina contra a covid começou a ser distribuída na rede pública do Brasil (ainda muito limitadamente). Existe algum entendimento para que ela seja também distribuída pela rede privada?

Nesse momento acho muito improvável que as vacinas cheguem à rede privada  porque o licenciamento emergencial, que é o tipo de licenciamento que foi feito para essas vacinas contra a covid, que estão encerrando sua fase três de pesquisa, é limitado e permite o uso em saúde pública em grupos determinados. Então, até o momento não acredito ser muito provável, em curto espaço de tempo, que o setor privado seja autorizado a comprar vacinas e autorizado a aplicá-las, principalmente fora dos grupos focos do licenciamento emergencial.

O que o senhor tem a dizer sobre o discurso ante vacina do Governo Federal?

Eu não diria Governo Federal, diria do nosso Presidente da República, que tem se manifestado de forma muito infeliz, colocando em dúvida a credibilidade e segurança da vacina. Esse é um enorme desserviço, porque o presidente tem uma legião de seguidores que influencia, e esses seguidores podem ficar reticentes em se vacinar e acabar pagando com consequências muito caras por isso. Além do mais, a chamada proteção de grupo/ou rebanho que se espera atingir em determinado momento, talvez em 2022, só ocorre quando você faz alta cobertura vacinal. Se existir um terço da população compartilhando da opinião do presidente, dificilmente essa cobertura será atingida.

Enquanto a maioria da população ainda não vai tomar a vacina, respeitar os protocolos de segurança é fundamental, não é mesmo?

Sem dúvida. Nós vimos que a eficácia de nenhuma vacina é 100%. Então, mesmo os vacinados corretamente podem ainda ficar suscetíveis à doença. Além disso, a maioria da população brasileira não será vacinada nesse primeiro semestre, e o vírus continuará circulando. Então, é imprescindível utilizar aquilo que nós temos para controlar a transmissão, que é principalmente o uso de máscara por todos, pois se em um ambiente uma pessoa estiver sem máscara, ela quebra essa proteção coletiva. Também é importante mantermos o afastamento social, evitarmos aglomeração, jantares e churrascos em que pessoas residentes em outras casas se juntam para se alimentar e, aí, a transmissão é muito fácil pela proximidade delas. Portanto, é muito importante que todas as medidas de controle sejam mantidas até que se comprove que a vacina oferece proteção de grupo.

São frequentes os casos de pessoas “furando fila” para tomar a vacina contra a covid registrados pela mídia.  Em geral são funcionários ligados à área pública. Isso ocorre no Brasil, Espanha e outros países. O que o senhor pode alertar sobre essa postura?

No Brasil, essas questões relacionadas a fura-fila são raras, mas elas nos causam grande indignação, porque cada dose aplicada em uma pessoa que não estava no grupo de risco original é uma dose que vai faltar para pessoas que estão correndo risco. Isso, realmente nos causa uma indignação profunda, sendo necessário que a Justiça e as autoridades policiais sejam envolvidas nessas questões para que isso não continue. 

 Muitos médicos estão receitando cloroquina e ivermectina como prevenção da covid 19. O que o senhor diz a respeito?

Eu, particularmente, e falo em meu nome, com muito respeito para quem pensa diferente, pelos estudos que eu pude ler não consegui concluir nenhuma vantagem da utilização desses medicamentos não específicos para covid 19, como cloroquina, ivermectina e outros. Na minha opinião, o importante é o acompanhamento rigoroso do paciente e a manutenção da sua vida

Tanto o governo federal como o estadual deveriam divulgar amplas campanhas sobre a importância da vacinação, no momento certo?

A divulgação de campanhas a favor da vacinação é muito importante. Nesse momento de vacina muito escassa, talvez nem tanto, porque esses grupos priorizados estão ávidos pela vacinação. Mas, no momento em que abrir a vacinação para a população como um todo, será muito importante uma divulgação correta, através de todos os níveis governamentais. Infelizmente, o Governo Federal, principalmente na figura do Presidente da República, tem-se mostrado um pouco contraditório nessa questão. Às vezes ficamos até com temor que uma campanha que a princípio seja para incentivar a vacinação, acabe contendo algumas colocações que a prejudique.

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