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Depressão, a erva daninha oculta

Por:   Renata Bento:  Psicanalista – Psicóloga. Membro da Associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. Membro da International Psychoanalytical Association – UK.Membro da Federación Psicoanalítica de América Latina – Fepal. Especialização em Psicologia Clínica com criança PUC-RJ. Perita ad hoc do TJ/Rj – RJ. Assistente Técnica em processo judicial. Especialista em família, adulto, adolescente.

Nunca se falou tanto em problemas emocionais como nos últimos meses. Essa conscientização é importante porque para quem ainda não sabe, não há saúde sem saúde mental. Estima-se hoje que, mais de 300 milhões de pessoas, de todas as idades, sofram com a depressão.

A OMS – Organização Mundial de Saúde – noticiou tempos atrás, que até 2020 a depressão seria a principal doença mais incapacitante em todo o mundo; e aí veio a pandemia para desestabilizar ainda mais, no sentido de servir como uma grande lente de aumento para se enxergar o que já estava ali, ou, ainda, para aumentar a dificuldade de pessoas que já sofriam com algum transtorno. O ponto positivo disso, é que ao se noticiar tanto sobre os transtornos emocionais, a dor psíquica é legitimada e muitas pessoas estão se encorajando a buscar ajuda para conversar sobre o que lhes aflige.

Avançamos em muitas direções mas, ainda, existe um estigma social em torno dos transtornos mentais, inclusive, esse é um dos obstáculos para se iniciar um tratamento adequado. No pior dos casos, se não for tratada a tempo, a depressão pode levar ao suicídio.

É curioso pensar sobre o estigma da depressão; é coisa de gente fraca, falta de Deus? Deprimiu, por que? Mas fulano (a) tem tudo, beleza, família, dinheiro, trabalho e como pode ter depressão? Pois é, pode ter sim. E como qualquer outra doença, nenhum de nós está livre. Não existe vacina para saúde mental, mas a boa notícia é que é possível tratar as doenças emocionais.

 Muitas pessoas sentem vergonha quando descobrem a depressão. Tratamento psicológico é coisa de maluco? Coisa de maluco é sentir dor na alma e não conseguir traduzir isso em palavras. Ser gente não é nada simples porque gente sente, sofre, tem conflito, sentimentos ambivalentes, traumas e, em algum momento da vida, pode sucumbir. Também sentem medo de ao precisar de uma medicação, que isso possa transformá-la em ‘outra pessoa’ ou, ainda, que possa trazer dependência. Um profissional adequado de saúde mental ajudará a destrinchar as fantasias que giram em torno do tratamento, o que pode trazer confiança e segurança no processo.

Os sintomas são notícias contadas através do corpo, uma forma de expressão de que algo não vai bem e é preciso olhar para isso. Para Freud, a melancolia seria um rombo no psiquismo que nos diz que existe algo que não pôde ser representado, que não pôde ser pensado. A depressão seria então uma forma de expressão desse sofrimento psíquico, do que se sofre?

A depressão traz angústia em busca de um sentido. Só que na tentativa de expulsar essa angústia, de não conseguir senti-la, algumas pessoas podem criar novos problemas, como, por exemplo, o uso abusivo de álcool e drogas. Esse artifício barulhento de substâncias anestesiadoras só tem um objetivo: a aumentar a dose, porque enfraquece emocionalmente ainda mais a pessoa e pode camuflar uma depressão de base, fazendo com que a depressão não seja tratada e as substâncias falsamente apaziguadoras – álcool e drogas-  passem a ser por seu excesso, o foco central.

É preciso atravessar o sintoma e buscar compreender que o ‘buraco é mais embaixo’. A depressão é o resultado de uma complexa interação entre fatores psicológicos, biológicos e sociais. É possível que uma pessoa possa ter um episódio depressivo durante um momento da vida e que, após o tratamento, não tenha novamente, ou, ainda, que volte a se repetir em outro momento.  Os sintomas podem ser os mais diversos: irritabilidade, euforia, perda do sono, humor exaltado, angústia, excesso de atividades, sonolência, diminuição das atividades, perda do apetite, excesso de apetite, entre outros. Repare que os sintomas são os mais diversos, desde um estado que paralisa a pessoa até um estado de euforia. Por isso é importante a distinção do tipo de depressão, se é leve, moderada ou grave, se é crônica, se existem muitos episódios de recaída, se foi o primeiro episódio, enfim, uma minuciosa análise.  A depressão rói a pessoa por dentro e aos poucos tira sua funcionabilidade sem que se perceba, quando se vê, já foi.

Quando se sofre de depressão, é como se tudo por dentro fosse se apagando lentamente e a pessoa precisasse demandar um esforço infinitamente maior para fazer atividades básicas como, levantar da cama, tomar banho, pendurar a roupa na corda, ir para o escritório, entre outras. A vida parece perder o sentido e a esperança murcha.

Quem já teve a oportunidade de observar uma árvore circundada de um tipo de planta parasita? Essa planta é muito agressiva, sufoca e rouba da árvore todos os seus nutrientes podendo leva-la a morte se não for vista a tempo. Assim também é a depressão, com uma diferença, a erva parasita fica visível, a depressão nem sempre pode ser notada.

O acompanhamento psicológico é necessário em todos os tipos de depressão, em muitos casos, com medicação e acompanhamento médico, além de atividade física regular.

O benefício da atividade física está no fato de o cérebro liberar neurotransmissores – endorfina, dopamina e serotonina – e estes ajudam a aliviar os sintomas da depressão. Pode parecer estranho recomendar atividade física a quem está deprimido e não consegue, por exemplo, sair de casa. Nesse caso, o início do acompanhamento psicológico e a medicação podem ajudar muito, na contenção dos sintomas, e no retorno da funcionabilidade da pessoa, incluindo o início, retorno ou manutenção do exercício físico. Atividade física regular é um dos ‘remédios’ para a depressão. Corpo e mente não se separam, lembrem disso.

Quanto mais cedo for detectada, melhor pode ser o prognóstico. Com o tratamento adequado, aos poucos a pessoa começa a se sentir melhor e essa escuridão interna vai dando lugar a esperança de dias melhores e mais claros, e a vida de dentro volta a se encontrar com a vida de fora.

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