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Documentário sobre Val Kilmer em Cannes mostra impacto do câncer de garganta na saúde do ator

O ator Val Kilmer usa aparelho para auxiliar sua fala por conta de traqueostomia. Filme propicia debate sobre a importância do diagnóstico precoce da doença      Foto: Jean_Nelson/Depositphoto

Oito entre dez casos de câncer de garganta (ou orofaringe) são descobertos em fase avançada. Além de reduzir exponencialmente as chances de cura, este contexto de diagnóstico tardio aumenta o risco de sequelas severas desta doença que, segundo o levantamento Globocan 2020, do IARC, braço de pesquisa do câncer da Organização Mundial da Saúde (OMS), atinge cerca de 100 mil pessoas no mundo anualmente.

O enfrentamento do câncer de garganta por parte do ator Val Kilmer (Top Gun – Ases Indomáveis, Batman Eternamente e que interpretou Jim Morrison na filmografia The Doors, entre outros), é um dos elementos marcantes do documentário Val, uma produção original Amazon Prime Video, que ganhou destaque no Festival de Cannes, que acontece até 17 de julho. A estreia na plataforma está prevista para 6 de agosto. Informações do IMDB e trailer oficial: https://www.imdb.com/title/tt14731254/. 

Diagnosticado em 2015 com esse tipo de câncer, Val Kilmer foi submetido a uma traqueostomia (tubo de plástico ou de metal desenvolvido para auxiliar a respiração) e as sequelas são expostas em seus depoimentos gravados para o filme . “Ao expor sua história o ator contribui para a conscientização sobre a doença”, opina o cirurgião oncológico e presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO), Alexandre Ferreira Oliveira.

Comprometimento – O drama do ator, que agora fala com ajuda de um aparelho, é o mesmo de muitos pacientes submetidos a procedimento semelhante para tratar o câncer de garganta, em que a traqueostomia é necessária para permitir a respiração. O tratamento, quase sempre cirúrgico, varia de acordo com o grau de desenvolvimento da doença no momento do diagnóstico.

O câncer de garganta compreende os tumores que acometem o espaço entre o palato mole, as amigdalas palatinas e os pilares amigdalianos, a base da língua e as paredes laterais e posteriores da faringe. “Dependendo do tamanho e tipo do tumor, o médico cirurgião pode precisar remover estruturas inteiras da garganta e o paciente pode ficar com sequelas, como alteração na voz”, explica Oliveira.

Há casos em que é preciso combinar a cirurgia com quimioterapia e radioterapia. A reabilitação pós-cirúrgica pode contemplar terapia da fala com fonoaudiólogo e fisioterapia para ajudar a pessoa a mastigar e engolir, por exemplo. Se as cordas vocais foram afetadas, o paciente pode ter que aprender a utilizar a voz esofágica ou fazer uso de dispositivos.

Tabagismo, álcool e HPV – Historicamente, os principais fatores de risco do câncer de garganta são o tabagismo e etilismo. Nas últimas décadas aumentaram significativamente os casos relacionados à infecção pelo Papilomavirus Humano (HPV), contraído principalmente pela prática de sexo sem proteção ou sexo oral. Proporcionalmente, portanto, diminuíram os casos ligados a outros fatores de risco, incluindo tabaco e álcool. “Com isso, há um novo cenário epidemiológico, que deve ser observado”, afirma o presidente da SBCO.

Pesquisas revelam que, em geral, os pacientes portadores de HPV positivos são mais jovens que os pacientes com tumores HPV negativo e o sexo masculino é mais frequentemente afetado. Um estudo multicêntrico publicado em maio deste ano no Journal of Clinical Oncology, aponta para a diminuição na incidência de câncer de colo do útero nos Estados Unidos, provavelmente devido ao rastreamento ou vacinação contra HPV. No entanto, mais de 80% dos homens com câncer relacionado ao HPV tinham câncer orofaríngeo (garganta), uma incidência quase cinco vezes maior em comparação com as mulheres. Este trabalho foi apresentado em junho na ASCO, principal evento de Oncologia Clínica do mundo.

Sobre a conscientização da população referente à relação entre HPV e câncer orofaríngeo, uma pesquisa publicada em junho no European Journal of Public Health, em junho, realizada com 1.044 participantes, revelou que apenas 30,6% já haviam ouvido falar do HPV. Houve lacuna de conhecimento em relação ao HPV em homens, pessoas com mais de 65 anos, com baixa escolaridade e fumantes atuais. Dos entrevistados que já ouviram falar do HPV, apenas 29,2% sabiam da associação entre HPV e câncer de garganta. Os autores também descobriram que apenas 49,7% da população sabia da existência de uma vacina contra o HPV.

Apesar desses estudos se referirem aos Estados Unidos e Europa, os cenários podem ser aplicados ao Brasil, afirma Oliveira. “Há desconhecimento da população brasileira sobre a relação do HPV com o câncer de garganta e falta de conscientização sobre a necessidade de vacinar meninos e meninas contra esse vírus, uma vacina que, aliás, está disponível nos postos do Sistema Único de Saúde (SUS)”, alerta.

Uma doença que pode ser evitada ou descoberta cedo – A melhor forma de combater o câncer de garganta é ficar longe dos fatores de risco evitáveis: não fazer uso de tabaco, não consumir álcool, na prática de sexo sempre usar preservativo e vacinar meninos e meninas contra o HPV. Além disso, evitar alimentos industrializados e priorizar o consumo de frutas e verduras protege contra vários tipos de câncer, inclusive o de garganta. Também é importante manter boa higiene bucal e visitar regularmente o dentista, profissional que pode ajudar a identificar os primeiros sinais de um possível câncer na região.

O diagnóstico precoce é fundamental para um tratamento com sequelas menos graves, que afetem menos a qualidade de vida do paciente, além de aumentar as taxas de sobrevida. A maior dificuldade do diagnóstico precoce é que no início de um câncer de garganta pode não haver manifestação de sintomas clínicos. Em casos mais avançados, o paciente pode sentir dor ao engolir; infecções recorrentes no ouvido; congestão ou obstrução nasal; rouquidão ou alteração na fala; engasgos com alimentos; falta de ar; tosse com sangue etc. “A presença desses sintomas nem sempre está relacionada ao câncer, mas é muito importante procurar um médico para uma investigação”, recomenda Oliveira.

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