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Ginecologista rechaça posicionamento da SBEM sobre uso de implantes de gestrinona no Brasil

Dr. Walter Pace: “não há que se condenar o meio para administrar as doses de hormônios, no caso o implante subcutâneo, ou tentar desqualificar uma substância que já foi muito estudada e que tem a sua efetividade comprovada”

A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia – SBEM, publicou no dia 09 de novembro último, o posicionamento da entidade sobre “o uso e abuso de implantes de gestrinona no Brasil”, assinado por César Luiz Boguszewski, presidente da entidade, e por Alexandre Hohl, presidente do Departamento de Endocrinologia Feminina, Andrologia e Transgeneridade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (DEFAT-SBEM). Tal manifestação tem em vista a polêmica que o medicamento tem causado no meio médico e está disponível, na íntegra, no site www.sbem.org.br.

Conforme o comunicado da SBEM, “A gestrinona é um hormônio esteroide progestágeno sintético derivado da 19-nortestosterona que possui propriedades androgênicas, antiestrogênicas e antiproestogênica. Outra ação dela é inibir a liberação de gonadotrofinas pela hipófise”.

Em outro trecho, a entidade afirma que “A gestrinona começou a ser estudada para tratamento da endometriose por via oral, no final dos anos 70. O registro da gestrinona via oral para esta finalidade na ANVISA foi feito em 1996 (Registro na ANVISA número 1112402040010- Gestrinona). Entretanto, não existem estudos de segurança e eficácia da gestrinona para tratamento de endometriose por uso parenteral, particularmente por meio de implantes”.

Segundo o comunicado: “A gestrinona também é um hormônio com ações anabolizantes e, por isso, está na lista de substâncias proibidas no esporte da Word Anti-Doping Agency (WADA) . Por seus possíveis efeitos androgênicoos (com diminuição de massa gorda, aumento de massa muscular, aumento de libido), a gestrinona tem sido usada erroneamente por mulheres na busca de melhora da performance física e estética. Como atualmente não existe produção de gestrinona oral pela indústria farmacêutica no Brasil, o uso abusivo de gestrinona tem sido feito por meio de implantes hormonais (isolada ou associada a outros hormônios)”.

Contrários – O comunicado da SBEM levantou polêmica no meio médico especializado. Entre eles, o ginecologista Dr. Walter Pace,especialista em tratamento hormonal ginecológico, que rechaça o posicionamento da entidade, e que foi ouvido sobre o assunto pelo Portal Medicina e Saúde, na entrevista abaixo.

O Dr. Pace é especialista em Reprodução Humana, Titular da Academia Mineira de Medicina, Professor Doutor em Ginecologia e Coordenador Geral e Professor de Pós-Graduação em Ginecologia Minimamente Invasiva da Faculdade de Ciências Médicas. É também Mestre em Reprodução Humana pela Universidade de Paris e Doutorado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ele trabalha com implantes subcutâneos hormonais há mais de 21 anos.

Segundo o Dr. Walter Pace, “Estamos às voltas com mais uma polêmica que envolve o uso de implantes subcutâneos para tratamentos ginecológicos em mulheres. Infelizmente, as alegações da Sociedade Brasileira de Endrocrinologia e Metabologia (SBEM) são fruto de desinformação e do desconhecimento específico sobre um tema que não é novo e que já foi largamente publicado por inúmeras revistas da literatura representativa internacional. Apenas na plataforma PUBMED, são 276 artigos listados, dos quais a metade trata dos benefícios do hormônio gestrinona no tratamento da endometriose”.

De acordo com Pace, “o renomado professor Elsimar Coutinho, pioneiro e principal responsável pelas pesquisas internacionais que resultaram no emprego dessa via para tratamentos hormonais, deixou um legado de mais de 400 trabalhos científicos publicados na área de Ginecologia Endócrina e Reprodutiva, nas mais importantes e representativas revistas da área, no mundo. Minha experiência é superior a 22 anos e posso atestar que, quando bem conduzido, os efeitos são bastante positivos para a qualidade de vida da mulher”.

O ginecologista lamenta que esse assunto seja novamente abordado de forma equivocada. “Não cabe a uma sociedade médica de Endocrinologia trazer informações incorretas e confusas sobre o uso de implantes subcutâneos com um ‘tratamento’ que, popularmente, ganhou o nome de ‘chip da beleza’, e nem eleger o Gestrinona como o vilão da vez”.

Para Pace, “é preciso separar o joio do trigo e ter a coragem de dar nome aos verdadeiros culpados. Mas, ao contrário, a SBEM colocou todos no mesmo balaio. Há bons e maus profissionais em todas as áreas e os efeitos colaterais são uma hipótese a ser considerada em qualquer tipo de tratamento de saúde, cabendo ao médico medir os riscos e benefícios do uso, de forma responsável.” 

Ele salienta ainda que, “desta feita, não há que se condenar o meio para administrar as doses de hormônios, no caso o implante subcutâneo, ou tentar desqualificar uma substância que já foi muito estudada e que tem a sua efetividade comprovada. Seria o mesmo que, a essa altura dos acontecimentos, ter que refazer todos os estudos sobre remédios de uso consagrado como, por exemplo, a dipirona e o ácido acetil salicílico (AAS), que continuam a ser usados pela indústria farmacêutica, sem que seja necessário fazer estudos para verificar sua efetividade e/ou segurança.”

Conforme informa o médico, os implantes foram desenvolvidos na década de 1960 para ministrar medicamentos em pacientes com câncer. “Posteriormente, o seu uso revolucionou a Ginecologia nas décadas seguintes, pois permitiu que mulheres que tinham intolerância à pílula anticoncepcional nas dosagens padrão, também pudessem fazer o tratamento para não engravidar por períodos mais longos. Com base nos resultados obtidos, os implantes passaram a ser usados para o controle de doenças estrógeno dependentes ou endócrino dependentes, como endometriose, miomatose, displasia da mama, entre outras, e também quando há carências hormonais em função da menopausa.”

Em todas essas situações, ressalta o especialista, o que está em jogo é a qualidade de vida física e mental da mulher, por meio do controle dos inúmeros e já conhecidos sintomas e desconfortos que caracterizam tais quadros.

“No caso específico do Gestrinona, é importante esclarecer que trata se de um progestínico que tem ação redutora do estrogênio e da progesterona no organismo feminino, e que esses dois hormônios poderiam contribuir para o aparecimento do câncer de mama. Assim, a ação da substância é protetora, desde que a dosagem seja indicada por um médico qualificado e, sobretudo, responsável.”

De acordo com o Dr. Walter Pace, “outra informação distorcida na nota divulgada é a de que os implantes hormonais não teriam uso autorizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Há documentos que atestam que essa via faz parte da farmácia magistral, um setor que segue determinações completamente distintas da indústria farmacêutica tradicional. Também existe a permissão para que os médicos façam receitas com dosagens alternativas de substâncias já aprovadas pela agência reguladora, como é o caso do Gestrinona”.

Ele esclarece ainda que entre as vantagens do implante em relação ao comprimido, destaco que no primeiro, as substâncias chegam à corrente sanguínea pela via periférica, sem a primeira passagem pelo fígado, o que traz  os principais efeitos colaterais da administração de hormônios. “Essa via também reduz contraindicações dos tratamentos orais, como, por exemplo, doenças isquêmicas/cardíacas, tromboembólicas e hipertensão e evita a primeira passagem pelo fígado”.

Por todos os motivos expostos, destaca Walter Pace, “rechaço a nota da SBEM e reafirmo a segurança do tratamento hormonal em mulheres por meio da via do implante subcutâneo. Enquanto ginecologista e professor, eu me coloco a disposição para programas de qualificação sobre o tema e, também, para novos debates com colegas médicos e sociedade em geral, para o melhor esclarecimento sobre o assunto”.

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