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O Corpo Adolescente

Por Heloisa Mamede

Professora aposentada da UFMG, psicóloga, psicanalista, membro da Escola Freudiana BH.

O corpo adolescente é um novo lugar, um semblante que se reveste de cuidados. O vestir se torna importante para um laço social. A linguagem simboliza o novo despertar. As marcas no corpo, piercings e tatuagens refletem a tentativa de lidar com as incertezas das escolhas, inclusive as da vida amorosa.

O encontro do amor e sexo na adolescência é marcante e traumatizante perante esse fato novo do despertar biológico, da metamorfose do corpo. Associado a isso há sentimentos confusos e contraditórios em que ocorrem questionamentos do sistema de valores e crenças, perante a abertura para o desconhecido. Angústia é o afeto que mais lhe aparece quando se depara com o real da sexualidade.  Em consequência, o adolescente se faz segregar e é nessa segregação que se fundamenta uma nova identidade.

Refletindo sobre o isolamento social nessa época tão importante, da vida, escrevi a seguinte carta:

Carta Para Um Adolescente

O que posso te dizer perante as suas implicações desse estranhar de seu corpo de infância, agora já vestido de adolescência, necessária travessia tão perigosa por ser solitária?  Desprovida de objetos de amor, já caídos em desuso, tais as paredes de retratos passados num tempo que já se faz longínquo. Questionas: Quem eu sou? Teu despertar para o novo é confuso, eu sei. É como um acordar da madrugada, claro e escuro ao mesmo tempo, necessitas enxergar, mas teu olhar ainda se prende ao passado. É natural, lá se encontra a figura materna – aquela que deu significado a tua existência. Mas te afirmo que o belo está por aí. Existe um tesouro oculto, tens que achá-lo. Não podemos encontrá-lo por ti.

Hoje me falas também de sentimentos contraditórios, angustiantes. É a palavra amor que te faz sonhar. Essa palavra estranha que entrou agora em tua vida com pensamentos diferentes. Estás diante de uma impossibilidade. Não sabes ainda o que é, mas, certamente, é um novo significante, diferente daquele sentido de afeto da sua meninice que, embora tão recente, já se faz tão longínquo.

Esse amor atual te faz sofrer como se fosse um prazer sofrido. Que insensatez da minha parte, prazer sofrido? Como te fazer entender? É a demanda de amor que mudou. Ficaste mais exigente. Já não existe a completa satisfação com o papai, a mamãe e toda a família. Sentes que algo está faltando.

Falaste-me de uma princesa que aparece em teus sonhos, quase como se fosse um fantasma inatingível, e que ela te perturba, modifica teu corpo, te desperta para a angústia e para esse prazer que não te apazigua. Estás num impasse. Meu conselho? Espera. Aos poucos essas idealizações fantasiosas, esses desejos inquietantes que te ameaçam, se aquietarão. Com o passar do tempo, saberás que a notável vida amorosa é complicada com percursos e desvios, mas que ainda assim é plena de realizações.

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